15/12/2015

Ser "caseirinho"

Há uma subcultura incompreendida e muitas vezes rotulada de forma preconceituosa... É a subcultura dos "caseirinhos". Pessoas que não gostam da confusão dos cafés, da música alta e confusa, da mistura de vozes e conversas, do ar respirado por muita gente...

Às vezes, raras vezes, combino algum encontro social, um jantar ou café e o meu desconforto e enfado aumentam na medida em que aumenta o grupo e a confusão. Ao sair de casa, a minha mãe diz-me cheia de boas intenções "diverte-te!", e eu digo para mim mesma "diverte-te! faz esse esforço! é isso que é esperado e suposto que aconteça"... mas venho embora no final do encontro com uma ligeira sensação de que perdi tempo longe do sofá e da manta ou de uma caminhada solitária ou apenas com uma ou duas pessoas pacatas.

Os "caseirinhos" são considerados pães sem sal, eremitas, anti-sociais, antipáticos, traumatizados ou pessoas sem vida, opinião ou nada de útil para dar à sociedade...
Há "caseirinhos" patológicos. Por medo, fobia ou outra razão profunda evitam os ambientes mais concorridos. Às vezes é o medo que me move também, e me faz ficar em casa.
Mas a maior parte das vezes é mesmo o prazer. Se o sossego é o que me dá prazer e serenidade, já chega de ser julgada, de me julgar a mim própria, por não ser mais normal e gostar do que as outras pessoas gostam.

Sou caseira.
Acho que isso não vai mudar. E não me importo.

12/12/2015

Pensamentos obsessivos

Na minha mente surgem muitas ideias; sobre quem sou, sobre os meus sentimentos, sobre as pessoas que amo... Surgem dúvidas, medos e pessimismos... E, em vez de os sacudir de cima dos ombros, como se de caspa se tratassem, por serem irreais, por serem algo que não quero alimentar, eles surgem e o medo daquela possibilidade imaginária paralisa-me, como um animal encandeado por faróis... Fico paralisada na sua contemplação e cresce em mim a ansiedade acerca do futuro dali a 5 minutos assim como dali a 5 anos.
Comecei ultimamente a ter medo dos meus pensamentos, porque sei que se por um acaso eles saem do caminho "bom", se uma má memória ou um mau receio me assaltam, cresce um princípio de pânico, de inevitabilidade. E uma urgência de agir, de fugir.
Penso, às vezes, que li demais. Pensei demais. Vi perspectivas a mais e agora faço instintivamente uma ligação entre as histórias dos outros e a minha própria. Comparo demasiado. Espero encontrar nas coisas que vi, histórias que li e opiniões que ouvi, a medida do que é certo e normal e aceitável. O que não cabe nessas medidas causa-me pavor de tomar a decisão errada e fazer um juízo injusto. Tranquiliza-me ligeiramente lembrar uma frase que encontrei uma vez por acaso neste vasto mundo que é a internet, e que dizia que um dos principais motivos para a depressão/tristeza das pessoas é compararem os seus "bastidores" com as melhores cenas dos outros. Esta frase veio em boa hora e ressoou em mim de forma tranquilizadora.
Um ditado chinês diz que não podemos impedir as aves do desassossego de voar sobre a nossa cabeça. Mas podemos impedi-las de fazer ninho nos nossos cabelos. Eu estou a tentar mexer-me para os afugentar; às vezes parece que os meus braços estão paralisados. Outras vezes parece que até os mexo e afugento algumas mas, por serem tantas, há uma ou outra que me conseguem iludir.

Tenho tido muitas vitorias também. Quase todos os dias há uma ou mais pqueninas vitórias insignificantes e invisíveis para toda a gente mas que me aquecem o coração e pelas quais agradeço nas minhas orações, à noite. Agradeço a Deus, ao Tao (que na cultura chinesa é a entidade que ordena o universo e que está em tudo o que existe), às energias... Seja lá o que for que governa tudo isto. Agradeço a mim mesma também, por ser o que sou e por tentar ser melhor.

05/12/2015

Venho escrever ao fim de todo este tempo para dizer que sou a mesma... Tanto treino, terapia, acupuntura, tempo, fugas, dores... Mas de um momento para o outro é só a ansiedade ou o pânico ou que nome possa ter esta emoção irracional, descontrolada e subjugante... Todos os dias são de luta, em que agradeço a ausência dos medos e me admiro quando ocasionalmente consigo vivenciar alguma coisa com serenidade. Sou tocada por alguma ponta de angústia em algum momento, e aí tento metodicamente, das mais diversas formas, contornar, esquecer, vencer ou fugir do motivo dessa intranquilidade.
Mas o que fazer quando ela ataca durante a noite, e não nos deixa dormir?
À noite tudo parece maior, e eu mais pequena. O silêncio interpela-me e acusa-me. E eu tremo de forma intensa, mas sem ter frio.
Tento dizer-me que o cansaço acabará por vencer, vou adormecer e amanhã esta sensação e estes medos serão apenas como a lembrança de um sonho mau. Mas como são longos e dolorosos os minutos ou horas que dura este sonho...!

03/08/2015

O amor

Fui caminhar, arejar, porque a casa estava a encolher e achei melhor fugir antes que ficasse sem ar...
Não encontrei ninguém conhecido pelo caminho, o que foi uma desilusão e um alívio ao mesmo tempo. Sentei-me num banco com o meu livro, a respirar ar fresco e a sentir o vento arrepiar-me, e quando olhei à volta admirei-me com os escritos no banco, nos corrimões e em todas as superfícies... Escritos de amizade e irmandade "forever", e de amores para a vida... E comoveu-me ser assim relembrada de que o amor é a coisa mais certa que temos. A coisa mais precisada. E a que deve exigir menos de nós, que deve ser espontânea e gratuita. E continuo a não compreender isso, continuo a forçar-me no meu íntimo, a pensar e repensar tudo, deitando a espontaneidade e o conforto todos fora, sobrecarregando-me com pressões de perfeição e correspondência de expectativas, e medos de perdas ou desilusões... Não mora aqui uma gota de tranquilidade ou espontaneidade. Tudo são sinais, positivos ou negativos, tudo são expectativas frustradas ou ansiedades tristes e antecipatórias, que se revelam afinal em experiências boas e serenas... 
A minha imaginação é o meu pior inimigo. Já o aprendi. Tenho só que aprender agora a controlá-la, a domá-la, fazê-la minha aliada, em vez de minha carceireira.

28/07/2015

Auto-análise

Todos os dias são de aprendizagem. E, como todas as aprendizagens, esta também é trabalhosa...
Tenho tentado conhecer-me melhor, nestes últimos meses... Nas conversas com a psicóloga, com a acupuntora, com os amigos que se dispõem a ouvir-me. Tento conhecer-me melhor e perceber os mecanismos deste medo irracional que tenho de tudo e de todos... E a conclusão dolorosa a que vou chegando mostra-me que a raiz de tudo é a falta de auto-estima e auto-confiança que trago em mim...
Se questionada acerca do que gosto menos em mim, ou do que gostaria de poder mudar, eu não sei o que dizer. Não há nada, aparentemente, em que eu me desconsidere em relação aos outros. Mas, de alguma forma, este sentimento de inferioridade e insegurança intrínseco está cá e manifesta-se todos os dias, nas pequeninas coisas.
A instrutora de yoga diz que a Prática tem a ver com atingir um estado de consciência e lucidez, de compreensão do mundo e, por fim, a aceitação serena do que é e não pode ser alterado por nós ou pela nossa vontade. Anos-luz separam-me desse estado mental e eu desejo de todo o coração ter a resistência e perseverança para ir fazendo o caminho, passo a passo, até conseguir encontrar essa condição de serenidade e de estima por mim própria.
Tenho anos de maus hábitos de isolamento e egocentrismo acumulados, e quero neste momento pensar que a caminhada desconfortável que estou a fazer tem em vista  libertação definitiva desse sistema de fugas ao que me amedrontava.
Pesa-me saber que quem está próximo de mim se apercebe das minhas flutuações de ânimo e espera ver resultados há já muito tempo. Mas preciso que sejam pacientes. Eu estou a ser paciente. E tento torna-me uma pessoa melhor, mais tolerante e disponível, mais activa e consciente... Menos focada em mim. Ganhar perspectiva, não usar a minha medida para tudo, não comparar, não exigir dos outros aquilo que eu faria... São coisas ridículas, eu sei, mas as pequenas frustrações acumuladas pelo facto de eu não ter nunca interiorizado estes valores, amesquinharam-me. E preciso crescer. Para viver, preciso crescer.

14/06/2015

ser leve


Se fosse possível voltar a ser pequenina... se fosse outra vez habitual ser interpelada acerca do que quero ser quando for grande... hoje eu saberia dar uma resposta mais informada do que na época...
Eu diria que quero ser leve...
Ironia cruel, uma pessoa obcecada com o facto de estar sempre no limiar da magreza, desejar ser "leve". Mas é de uma outra leveza que preciso... da leveza de espírito, leveza de ânimo...
Carrego nos ombros pesos imaginários, responsabilidades que me convenci que são minhas, histórias e memórias que não preciso, que me sobrecarregam e magoam mas que não consigo largar... Queria ser mais ligeira e inconsequente... queria que a minha imaginação não fosse a minha maior inimiga... queria não ter medo de sentir medo. E queria que o medo fosse só uma sensação, uma emoção; em vez de um terramoto avassalador que me deixa prostrada...

20/05/2015

Deitar nas curvas

Se eu fosse da área de física, saberia o nome da lei que faz com que, para não perder o equilíbrio e manter a velocidade, um ciclista tenha que inclinar o corpo no sentido da curva...
Não sei assim tanto de física mas ultimamente dou alguns passeios de bicicleta por aí, vou-me aventurando e ganhando confiança aos poucos... Quem sabe um dia deixo de ter ciúmes do tempo que o rapaz passa com as bicicletas e passo eu a acompanha-lo nessas andanças...?
E já aprendi a sensação maravilhosa que é não ter medo numa curva (desde que não seja muito apertada...ainda estou a começar!) e deixar o corpo inclinar, como se fosse uma continuação natural da bicicleta, em vez de um mero passageiro...
E dou-me conta que o estado depressivo/montanha-russa emocional em que ando seria atenuado se eu aprendesse a deitar-me nestas curvas emocionais...
É muito assustador! Porque estamos em movimento e sobre duas rodas e parece disparate pensar em inclinar o corpo em direcção ao chão... Mas o segredo está precisamente no movimento e nas velocidade que nos levam... Então é só confiar, deixar o corpo ir e a sensação de leveza nesse momento é de fazer os pulmões dilatar!
Há que resistir ao impulso que apertar o travão de repente, ou de endireitar o corpo a meio da curva... Já que se começou o movimento, há que o levar até ao fim, com confiança.
No momento em que eu aprender a deitar-me nas minhas curvas emocionais, serei uma pessoa mais serena e mais adulta.