(Deu-mo a conhecer a Júlia, minha querida acupuntora... e reza assim:)
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os
braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem
por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e
cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é
esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o
mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por
aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber
nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como
farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo,
foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na
areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e
coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias,
sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a
Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria,
tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu
tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite
escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo
é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu,
que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça
definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval
que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se
animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou
por aí!
06/03/2016
17/02/2016
O palácio de pedra e o palácio de gelatina
Era uma vez um casal de namorados, que viviam em mundos tão diferentes... Ele vivia em azáfama, seguro de si e com bravura encarava tudo e todos. Vivia num palácio de pedra, sempre firme e inalterado, que não era abalado por coisas abstractas como medos ou dúvidas.
Ela vivia no palácio feito de gelatina, onde tudo era questionado e as paredes tremiam a toda a hora. Ali, as emoções corriam desvairadas, medos de rejeição, de impotência, do desconhecido, das partidas da imaginação e da tristeza que brota sem se saber de onde...
Quando ela o visitava, admirava-se sempre com a solidez tranquila daquele palácio de pedra, inabalável, inquestionável, tão simples, tão racional e directo. Às vezes parecendo insensível. E, ao regressar a casa, pensava que aquela era uma mudança possível. Ela poderia aprender a acalmar a sua mente e as sua emoções, e ir transformando aos poucos as paredes gelatinosas da sua casa em algo mais sólido, algo que não trema por natureza, algo onde seja agradável viver.
14/02/2016
Outra vez o São Valentim...
Nunca gostei de "dias de". Na minha forma de ver as coisas, os "dias de" são só desculpa para os hipócritas se lembrarem e mimarem alguém ou alguma coisa que negligenciaram durante o resto do ano, seja o seu amor ou uma árvore. O Dia de S. Valentim, por exemplo... Só tive por quatro vezes dia dos namorados com namorado, sendo que os últimos 3 foram nestes três últimos anos consecutivos... por isso, para mim, este dia era só dia de o meu pai, que bebia e nos fazia a vida num inferno, trazer rosas para casa, para oferecer à minha mãe, a quem amava muito, dizia ele, para fazer ver a mim e à minha irmã que, afinal, ele era um bom marido e um pai dedicado.
Já todos sabemos que isto são dias empolados pelo comércio e o consumismo, esse sermão já é velho. Ainda esta semana a comunicação social nos brindou com uma reportagem especial acerca da violência no namoro, que já é quase aceite como sinónimo de interesse e carinho...
Sim, sinto-me uma velha azeda e pessimista mas não gosto destes dias. Além de que me mexe com a ansiedade a obrigação de estar com humor condizente com o dia... Toda alegria e paz no Natal, toda euforia no carnaval e toda romance e denguice no São Valentim... Só o facto de ser o que se espera, tira-me toda a vontade e à-vontade...
12/02/2016
C3, ou "o três do coração"
Há pouco mais de um ano comecei a fazer sessões de acupuntura, para ter mais uma arma contra a ansiedade, sem recorrer a químicos e ansiolíticos.
Às vezes, pessoas conhecidas perguntam-me se a acupuntura me tem ajudado. Eu não estou curada ainda, mas também não sei como estaria se não tivesse começado a fazer estas sessões, mais ou menos de 3 em 3 semanas. Sinto-me bem, pelo relaxamento durante o tratamento e pela conversa antes e depois. Mais não sei dizer, e isto é o suficiente para querer continuar a ir.
Interessei-me também, entretanto, por isto da Medicina Tradicional Chinesa, pela sua filosofia e fundamentos, e vou lendo umas coisas, quando posso...
O 3 do Coração é o terceiro ponto do Meridiano do Coração. Como numa constelação as estrelas são ligadas por linhas imaginárias, na medicina chinesa, os meridianos são linhas que ligam os pontos do corpo onde as nossas energias se concentram e onde é possível agir sobre elas, através de pressão dos dedos ou com a inserção da agulha de acupuntura. Cada Meridiano age sobre um órgão, sendo que este ponto de que falo, o C3, é o terceiro ponto da linha que constitui o meridiano do Coração. Actuar sobre este meridiano produz efeitos benignos sobre o próprio órgão e o sangue, e também sobre as emoções e a Mente.
O C3 em particular é um ponto um pouco difícil porque, por ficar junto ao cotovelo, uma vez por outra, a inserção da agulha produz um efeito tipo choque eléctrico que percorre o braço até aos dedos da mão. A acupuntura não é dolorosa, mas às vezes acontece... A mim dá-me para rir quando sinto aquilo =)
Mas, apesar do desconforto que possa provocar, é um ponto que a minha querida acupuntora gosta de usar em mim... dizem os escritos que é um importante ponto de tranquilização, que acalma o Shen (espírito) e fortalece a Mente, alivia a dor, depressão, insónias, angústia, palpitações, estado de fraqueza ou tristeza... Em suma, é tudo de bom... e sinto um carinho enorme por ela quando me diz "vamos lá agora ao 3 do Coração", porque sei o bem e a tranquilidade que neste gesto ela me está a desejar.
Mas, apesar do desconforto que possa provocar, é um ponto que a minha querida acupuntora gosta de usar em mim... dizem os escritos que é um importante ponto de tranquilização, que acalma o Shen (espírito) e fortalece a Mente, alivia a dor, depressão, insónias, angústia, palpitações, estado de fraqueza ou tristeza... Em suma, é tudo de bom... e sinto um carinho enorme por ela quando me diz "vamos lá agora ao 3 do Coração", porque sei o bem e a tranquilidade que neste gesto ela me está a desejar.
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| Aqui está ele, o C3 e a sua localização no meridiano do Coração. Retirado de http://flordeameixeira.com/init/acupuntura/ponto/Shaohai/ |
05/02/2016
Sou um grão de areia
Para aproveitar a folga e o sol, fui a meio da tarde plantar o meu carrito na marginal, de portas abertas, para arejar, e deixei-me ficar lá perto, a vigiar e a ler o meu livro. Normalmente, sento-me de frente para o rio, indiferente a quem passa, mas hoje, por uma questão de manter o carro no meu campo de visão, virei costas ao cais e sentei-me virada para a estrada. Inevitavelmente, dei por mim perdida na observação dos que passavam, de carro ou a pé... Senhoras de idade, que caminhavam aos pares ou em trios, vagarosamente, e jovens casais vestidos desta maneira destrambelhada que se vê agora, em que parecem todos rappers ou criminosos, e elas vampiras esqueléticas e de caras apáticas... Ouvi fragmentos de conversas, ora relatos de casos quotidianos, ora lamentações, ora vozes enraivecidas...
Observar os carros também se revelou um exercício interessante... Como sempre, há os que vão bem acima do limite de velocidade, que é 50... Dentro do carro, o próprio condutor inclinado para a frente, sobre o volante, como se assim pudesse andar ainda mais depressa... Mas há aqueles carros que passam a velocidade moderada, os condutores reclinados no banco, alguns sorriem, talvez de algo que vão a ouvir no rádio, outros vão com uma cara tao inexpressiva que revela logo que vão a conduzir maquinalmente enquanto a cabeça está noutro sítio...
Relaxou-me, este exercício de observar os outros. Durante aqueles minutos, eu fui apenas expectadora... Passou por mim a correr um velho conhecido e até me soou estranho o timbre da minha voz, quando o cumprimentei, de tao imersa que estava na passividade da observação da azáfama alheia. Estava a imaginar para onde iria aquele homem a tão grande velocidade; que actividade seria a daquela empresa cujo nome eu desconhecia e que li escrito na lateral de uma carrinha; que confortável deveria ser a atmosfera dentro daquele carrão sofisticado que passou a velocidade de cruzeiro... Fiquei nestes pensamentos algum tempo, subitamente consciente da vida e da história que toda aquela gente carrega...
É-me mais fácil respirar quando me apercebo que sou só um grão de areia na imensidão do areal. Sentimentos de que sou notada, ou esperada, fazem-me alterar a respiração.
22/01/2016
Pessoas extraordinárias - a dona Fátima
Há pessoas extraordinárias. Em todo o lado. Cruzamo-nos com elas todos os dias sem as vermos, até chegar o dia em que, sem motivo aparente, poisamos o olhar com um pouco mais de cuidado e tempo. Acontece-me muitas vezes. Hoje aconteceu com a dona Fátima e, pela primeira vez, resolvi escrever sobre isso.
A dona Fátima é a florista da rua aqui de trás. Não tão sofisticada como outras, mais procuradas (e careiras também). Mas tem gestos carinhosos com as flores, ajeita-as como uma mãe ajeita um caracol rebelde na cabeça do filho. Nas datas festivas em que toda a gente corre às floristas, ela costuma ainda ter belas flores, quando as outras já só têm refugo, e é por isso que gosto de lá ir. Quando vou buscar um raminho para oferecer à minha mãe pelo aniversário, ela escolhe uma plantinha florida e manda-me entregá-la à aniversariante com um beijinho da parte dela.
Quando lá vou buscar flores para velórios, discretamente e com sensibilidade, tenta saber pormenores das minha relação com a pessoa falecida para me aconselhar um ramo mais discreto ou uma palma solene.
Hoje passei à porta da sua lojinha, sempre atafulhada de plantas, vasos, flores... Só deixa livre um corredorzinho que liga a direito a porta ao balcão, muito poucos adornos além das próprias flores e a tinta das paredes já a querer descascar... Mas hoje não! Hoje, no dia cinzento e naquela rua de comércio tradicional que se vai deprimindo a olhos vistos, ficando cinzenta também, vinha uma luz clara do interior da montra da dona Fátima e, no lado de fora, homens penduravam um novo letreiro, bonito, alegre. No interior, vazio e mais amplo do que nunca, com uma nova pintura e novos detalhes, a dona Fátima estava muito compenetrada a fazer alguma coisa que não consegui identificar... Mas fiquei feliz por ela, por dar um novo ar ao seu negócio de cores e perfumes e àquela velhinha rua.
20/01/2016
Queria muito que o meu blog fosse mais como aqueles que eu própria sigo e leio... Que fosse inspirador, que falasse das coisas boa da vida, que mostrasse bonitas imagens, ou contasse histórias que merecem ser ouvidas/lidas. Mas acho que o meu blog se foi aos poucos tornando num refúgio onde escrevo os meus medos, angústias e ansiedades. Não o faço com aquela ideia de ajudar quem possa estar a passar pelo mesmo... Não sou assim tão altruísta. Faço-o como desabafo, e porque recolho também alguma serenidade dos vossos comentários... E, pensando um pouco no assunto, com a esperança de ajudar, não quem sofre também do distúrbio de ansiedade generalizada, mas as pessoas que com elas lidam. Porque ao sofrimento pessoal que a ansiedade traz, junta-se o também grande sofrimento por ser quase impossível explicar ou justificar aquilo que a pessoa ansiosa sente. Eu expresso-me com muitas palavras, gosto e preciso de falar de tudo e acontece-me às vezes estar a descrever alguma sensação ou estado de espírito e quem me ouve interromper-me para dizer "é exactamente isso que sinto também!". É essa a minha esperança, que mais pessoas compreendam como é fácil e frequente despoletar um estado de ansiedade, e como ele se propaga pelo corpo, controlando tudo e tornando ameaçadoras até as coisas que conhecemos desde sempre.
Nestes momentos questiono-me acerca do valor da palavra perseverança. Porque só é perseverar se insistirmos em algo que nos desafia e assusta e no final der certo. Quando é que a perseverança passa a cobardia? Cobardia por não se saber ou querer admitir que é altura de tomar um novo rumo, virar uma nova página, dar um passo atrás para podermos depois dar dois em frente. Se der certo, foi bom termos perseverado. Se der errado, ao fim de todo aquele tempo de luta e de tentativas, vai ser chamado de cobardia, porque não se teve a coragem de cortar o mal pela raiz mais cedo.
Se ao menos pudéssemos ver adiante... Se pudéssemos saber se estamos a lutar por algo que vale a pena... Neste momento eu choro por não saber o que fazer...
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