22/05/2016

"There is no reality"

Sou uma maníaca pela Verdade. Pela forma como as coisas são ou foram, na realidade, não segundo o relato e o ponto de vista de uma ou outra pessoa. E presumo muitas vezes, como sou algo compreensiva e volátil, que consigo ver a Verdade, mesmo entre lados antagonistas. Imparcial, justa, omnisciente, eu. Suprema presunção.

A Verdade não existe. Basta vermos um documentário científico acerca das cores, da nossa percepção delas e do facto de ser a luz a responsável pela nossa visão. As folhas que vemos verdes, não são na realidade verdes.

O que há de mais verdadeiro que um espelho? O espelho reflecte; é o derradeiro equalizador, dá o que recebe, sem filtros.
Mentira! Os espelhos nos provadores das boutiques fazem-nos parecer mais elegantes para não hesitarmos em comprar as roupas. Há um espelho no ginásio onde pareço mais magra. Se olho para o espelho da parade ao lado, pareço mais cheia um bocadinho. Gosto mais desse.
O que se vê ao espelho, não é a realidade. É a realidade reflectida com o defeito que o espelho lhe confere. O espelho não está a mentir propositadamente, ou com malícia. Mas ele, simplesmente, não é uma tábua-rasa; tem um pre-conceito, ou um pre-defeito, e é influenciado por ele que nos devolve o reflexo.

Preciso saber isto. Preciso fazer esta ginástica mental para não levar a sério os pensamentos tristes e fatalistas. Para acreditar que as coisas podem ser, E SÃO, melhores do que aquilo que a minha mente vê. Preciso treinar o riso, o optimismo e a simplicidade.


13/05/2016

Oh, não... Outro post sobre a ansiedade... =)

Depressão é excesso de passado.
Stress é excesso de presente.
Ansiedade é excesso de futuro.

Não sei quem é o autor, encontrei a frase no facebook, e encaixei no diagnóstico. A minha ansiedade acontece quando me esqueço de que estou no presente. Quando me deixo dominar pelas referências erradas do que aconteceu no passado, ou pela grandeza esmagadora e incógnita do futuro e isso me impede de simplesmente estar bem no presente. Carrego excessos que me desregulam e perturbam, e os passos conseguidos ao longo de tanto tempo de esforço, perseverança e desconforto parecem tão pequeninos, tão fáceis de recuar.

Sou uma maratonista, uma ultramaratonista; já fui consultada por N especialidades, tomei medicamentos talvez não de A a Z, mas seguramente de A a F ou G; já falei com pessoas com problemas semelhantes, já falei com pessoas que nunca padeceram de nada deste foro; já li testemunhos deprimidos, já li testemunhos vitoriosos; já fiz muitas coisas para tentar fugir à onda crescente de angústia interior: já cozinhei, já fiz limpezas, já tomei banho, já fui caminhar, já procurei alguém para falar, já fiz ginástica, já me fechei sozinha, já fiz arraiolos, já depilei as pernas!!! (interessantemente, a dor localizada, atenua o mal estar ao nivel da barriga e do peito), já joguei no computador, já pus música calma, já pus música alegre, já tentei exercícios de respiração e relaxamento que aprendi no yoga, já li literatura e também já li historietas ligeiras, já fui às compras, nem que seja só de pão, já fiz sudokus e str8s ( ou lá como se chama o jogo novo que vem na Dica), já pintei desenhos num livro de colorir para adultos, já vim escrever no blog, já escrevi um mail à Mary ( estás aí? Tens tão pouco tempo... Que benção, teres uma vida que amas e te ocupa! =) )... Todas estas coisas me fizeram bem em algum momento, e me falharam noutro. Não há uma receita infalível. Que bom, se houvesse...! Mesmo que fosse muito complicada de executar... A simples tarefa de ter algo complexo a executar serviria de distracção no combate à sensação física avassaladora de perder o controlo. 

04/05/2016

"O Carteiro de Pablo Neruda", de Antonio Skármeta

- Don Pablo, (...) estou apaixonado, perdidamente apaixonado.
A voz do poeta, tradicionalmente lenta, pareceu deixar cair desta vez duas pedras, em vez de palavras.
- Comtra quem?

Fez-me sorrir este pedacito deste clássico da literatura que estou a ler pela primeira vez. Sorri porque compreendi numa fracção de segundo aquilo que já sabia, mas que nunca havia pensado: que o amor e a paixão podem ser brandidos como uma arma, contra o próprio objecto desse sentimento. De tao arrebatador, tao profundo, o sentimento pode ferir o espaço e a natureza do outro. Irá ferir, de certeza, se for correspondido. Vão ferir-se e adaptar-se e repelir-se para se afastarem magoados, ou para regressarem um ao outro com perdões e paciência.
O amor é uma arma, de facto.

29/04/2016

Sobre os sorrisos

No trabalho, um turista australiano velhinho, interrompe-me enquanto lhe falo para perguntar:
How do you know you are in Portugal?
Eu respondi que não sabia... Ele disse-me que sabe que está em Portugal quando vê um sorriso como o meu, porque em todo o lado onde foi, sempre sorrisos assim calorosos, e enquanto ele falava eu sorri mais e ele, cheio de satisfação exclamou "see?! There you go!"
Disse ele que não se vê sorrisos assim noutros sítios. Na Rússia, por exemplo... Respondi que, com o clima de lá, se calhar eu também não teria muita vontade de rir, ao que ele respondeu que na Austrália o tempo é bom e mesmo assim não se vê as pessoas sorrir como em Portugal.

Que velhinho amoroso, que mesmo num dia em que andei com uma nuvem cinzentona a pairar teimosamente sobre mim, viu luz no meu sorriso de olhos tristes.

20/04/2016

Pessoas extraordinárias #2 - a Elisa

A Elisa é amiga de infância da minha mãe. É uma amiga daquelas a sério, que brincaram juntas na infância, que se atreveram juntas na adolescência, que se viram casar e ter filhas e que, hoje com 50 anos se vão encontrando às vezes, quando a rotina diária quer, e param sempre um pouco a conversar, a perguntar pela vida e pela família...
A Elisa conhece a minha mãe, e ficou do lado dela quando, na altura do divórcio, meio mundo se virou contra ela porque uma mulher é desgraçada quando o marido a faz infeliz, mas é uma cabra que "de certeza já tem outro" se decide pôr fim a isso e lutar pela sua saúde.
Foi a Elisa que segurou a minha mão durante a homilia, neste dia.
Foi também ela que, por trabalhar no laboratório de análises onde nós éramos clientes alertou a minha mãe para o facto de eu precisar de um acompanhamento, de eu não estar bem, apesar de o médico de família me mandar sucessivamente para casa com suplementos de ferro, porque isto é só uma anemia ligeira, está tudo bem... Foi no seguimento do alerta da Elisa que a minha mãe me levou a um hematologista que me diagnosticou um traço talassémico e que me ajudou a ter uma vida saudável.

A Elisa hoje está desempregada, porque o laboratório mudou de administração, as lambe-botas foram mantidas mas ela não... É uma mulher de quase 60 anos, que nunca fez mais nada na vida e que se vê agora demasiado jovem para a reforma mas demasiado velha para a aceitarem noutro lado.
Passeia muito a pé aqui pela terra. Continua a ir à missa. Às vezes vejo-a passear com o marido, um grande companheiro, e a sua netinha, de 1 ano.
Pergunta-me sempre como ando, como anda a minha cabecita e a ansiedade, e se ando a comer bem.

14/04/2016

Ainda a Invicta

...ainda tem a mesma aura que desperta em mim um sentimento como o que algumas pessoas descrevem ao pisar, por exemplo, o chão sagrado de Fátima.
Fui lá a uma consulta, ainda na busca para a minha Cura, para a saída desta escravatura do meu corpo que se submete aos caprichos da minha mente e da ansiedade. Tive algum tempo para deambular pela baixa, antes de partir, e é sempre um assombro olhar do alto da 31 de Janeiro e ver já tão perto os Clérigos, a Torre recortada no céu cinzentão do dia de hoje, virada para o que parece ser um abismo onde o mundo termina. Desci a rua, e voltei a subir em direcção à Torre, e tive a sorte de ver a Praça da Liberdade animada por um senhor de porte teatral que tocava melodias tristes num trompete. 
Dá-me a sensação que lá tudo é eterno; tudo vem de muito longe, de muitas outras vidas, e existe uma continuidade em todas as pedras e uma pequenez comovida em todos os que sobre elas caminham. Fui fazer a vénia à Fonte dos Leões, em cuja água a minha cabeça ja se molhou, e voltei para a estacão...
Fui turista sem câmara fotográfica, só preocupada em gravar na retina mais uma visita a um sítio que para mim é tão especial.

07/04/2016

7 de Abril - Dia da Mulher Moçambicana



Aqui, a minha homenagem às mulheres Moçambicanas e, através delas, à História do país e da sua Libertação. Não posso dizer que conheça muitas, mas também só precisei ver um narciso uma vez para saber que gosto de todos eles e são a minha flor favorita. Conheço uma mulher moçambicana que é conselheira e amiga, admirável.

A wikipedia, como tudo, está muitas vezes cheia de informações imprecisas, gralhas ou erros crassos, mas serve para uma rápida contextualização acerca deste dia. Podem ver aqui.