01/06/2016

Ai, sou tão boa pessoinha, este mundo é demasiado cruel para mim...

Este post pode parecer uma declaração do género da supra citada. E é mesmo. E seria um post de fazer revirar os olhos de indignação por parte dos leitores e por mim mesma, se não fosse de facto uma situação que me traz desconforto e desassossego.
Fui convidada para jantar e passar um tempo com uma rapariga da qual nem nunca fui muito próxima, apesar de os nossos respectivos serem amigos. Às vezes acho que ela tenta uma aproximação um bocado forçada. A rapariga é um amor, nunca me fez ponta de maldade... Mas é um bocado faladora, do género de eu perguntar como está e ela conta-me com pormenor que comprou um móvel há 15 dias, queria tê-lo limpo na semana passada mas não pôde por um qualquer motivo (note-se que eu vos poupo a este motivo mas ela não me pouparia a mim), de modos que estava para ser a limpeza há dois dias mas nessa altura saiu tarde do trabalho, o marido ao jantar engasgou-se e ela teve que sair de casa para fazer uns recados, e a limpeza acabou por ser feita só hoje, com tanta pressa e tantas ganas que se entalou na porta do móvel quando ia buscar o Pronto Limpa-Moveis...
É isto, em resumo.
Não me apeteceu. É uma jóia e um poço de bondade, mas ando numa fase muito introspectiva, mais pro triste do que alegre e não me apeteceu.
Dei uma desculpa frouxa e eis-me agora a sentir culpada.
Porque disse que não. Um não que, embora um nadinha mau ou cruel, era a única resposta capaz de me poupar um sacrifício e um resto de dia muito longo.

E agora que sabeis que me sinto ligeiramente culpada, ligeiramente temerosa que ela descubra, ligeiramente envergonhada perante o meu namorado, a quem relatei o sucedido... Agora que sabeis isto tudo, digam lá se eu não sou tao boa pessoinha...? Tao estúpida pessoinha, a precisar de assuntos mais sérios para se preocupar...

28/05/2016

Eu sou inteligente. Sou uma pessoa inteligente. Aprendo rápido. Leio muito. Decoro muita coisa com alguma facilidade.
Falta-me inteligência emocional. Falta-me perceber a equação que resolve os pensamentos maus, que anula os medos; falta-me decorar a receita para estar bem.

26/05/2016

Pessoas extraordinárias #3 - a Juliana

A Juliana não é muito bonita. Podia ser, se a vida lho permitisse, se fosse mais simples. E acho que deve parecer mais velha do que é na realidade. Não sei a idade dela... A Juliana farta-se de trabalhar. Aceita o que aparece, é empregada doméstica. O marido trabalha na agricultura e recentemente teve que emigrar.
Conheço a Juliana só porque vive no mesmo prédio que eu, mas acho que tem uma vida um pouco difícil ou triste. O filho é algo atravessado e vejo-a várias vezes a ralhar-lhe na rua.
Há bocadinho encontrei a Juliana a entrar no prédio, mais o marido e o rapaz, todos com ar de quem veio da festa da Comunhão. Ao passar por eles, agradeci ela segurar a porta para eu entrar e sorri-lhe enquanto lhe disse "que bonita está hoje!". Ela sorriu e agradeceu. O marido seguiu sempre, nem lhe vi a cara, e disparou escada acima, sem sequer esperar pelo elevador, enquanto ia a falar de modo grosseiro para o rapaz, que levava um dos sapatos na mão... Calçado novo, não há pé que aguente.

Senti tanta pena pela Juliana. Porque no dia da comunhão do filho, o marido veio de visita, ela arranjou-se tão bonita, para ir para casa com um filho infeliz de pé magoado e um marido zangado, que até se recusa ir no elevador com ela.
Senti pena por ela e por todas as lutas que são travadas por cada um de nós; lutas que nos desgastam e destroem mas que nos forçamos a disfarçar e seguir. Seguir sempre.

22/05/2016

"There is no reality"

Sou uma maníaca pela Verdade. Pela forma como as coisas são ou foram, na realidade, não segundo o relato e o ponto de vista de uma ou outra pessoa. E presumo muitas vezes, como sou algo compreensiva e volátil, que consigo ver a Verdade, mesmo entre lados antagonistas. Imparcial, justa, omnisciente, eu. Suprema presunção.

A Verdade não existe. Basta vermos um documentário científico acerca das cores, da nossa percepção delas e do facto de ser a luz a responsável pela nossa visão. As folhas que vemos verdes, não são na realidade verdes.

O que há de mais verdadeiro que um espelho? O espelho reflecte; é o derradeiro equalizador, dá o que recebe, sem filtros.
Mentira! Os espelhos nos provadores das boutiques fazem-nos parecer mais elegantes para não hesitarmos em comprar as roupas. Há um espelho no ginásio onde pareço mais magra. Se olho para o espelho da parade ao lado, pareço mais cheia um bocadinho. Gosto mais desse.
O que se vê ao espelho, não é a realidade. É a realidade reflectida com o defeito que o espelho lhe confere. O espelho não está a mentir propositadamente, ou com malícia. Mas ele, simplesmente, não é uma tábua-rasa; tem um pre-conceito, ou um pre-defeito, e é influenciado por ele que nos devolve o reflexo.

Preciso saber isto. Preciso fazer esta ginástica mental para não levar a sério os pensamentos tristes e fatalistas. Para acreditar que as coisas podem ser, E SÃO, melhores do que aquilo que a minha mente vê. Preciso treinar o riso, o optimismo e a simplicidade.


13/05/2016

Oh, não... Outro post sobre a ansiedade... =)

Depressão é excesso de passado.
Stress é excesso de presente.
Ansiedade é excesso de futuro.

Não sei quem é o autor, encontrei a frase no facebook, e encaixei no diagnóstico. A minha ansiedade acontece quando me esqueço de que estou no presente. Quando me deixo dominar pelas referências erradas do que aconteceu no passado, ou pela grandeza esmagadora e incógnita do futuro e isso me impede de simplesmente estar bem no presente. Carrego excessos que me desregulam e perturbam, e os passos conseguidos ao longo de tanto tempo de esforço, perseverança e desconforto parecem tão pequeninos, tão fáceis de recuar.

Sou uma maratonista, uma ultramaratonista; já fui consultada por N especialidades, tomei medicamentos talvez não de A a Z, mas seguramente de A a F ou G; já falei com pessoas com problemas semelhantes, já falei com pessoas que nunca padeceram de nada deste foro; já li testemunhos deprimidos, já li testemunhos vitoriosos; já fiz muitas coisas para tentar fugir à onda crescente de angústia interior: já cozinhei, já fiz limpezas, já tomei banho, já fui caminhar, já procurei alguém para falar, já fiz ginástica, já me fechei sozinha, já fiz arraiolos, já depilei as pernas!!! (interessantemente, a dor localizada, atenua o mal estar ao nivel da barriga e do peito), já joguei no computador, já pus música calma, já pus música alegre, já tentei exercícios de respiração e relaxamento que aprendi no yoga, já li literatura e também já li historietas ligeiras, já fui às compras, nem que seja só de pão, já fiz sudokus e str8s ( ou lá como se chama o jogo novo que vem na Dica), já pintei desenhos num livro de colorir para adultos, já vim escrever no blog, já escrevi um mail à Mary ( estás aí? Tens tão pouco tempo... Que benção, teres uma vida que amas e te ocupa! =) )... Todas estas coisas me fizeram bem em algum momento, e me falharam noutro. Não há uma receita infalível. Que bom, se houvesse...! Mesmo que fosse muito complicada de executar... A simples tarefa de ter algo complexo a executar serviria de distracção no combate à sensação física avassaladora de perder o controlo. 

04/05/2016

"O Carteiro de Pablo Neruda", de Antonio Skármeta

- Don Pablo, (...) estou apaixonado, perdidamente apaixonado.
A voz do poeta, tradicionalmente lenta, pareceu deixar cair desta vez duas pedras, em vez de palavras.
- Comtra quem?

Fez-me sorrir este pedacito deste clássico da literatura que estou a ler pela primeira vez. Sorri porque compreendi numa fracção de segundo aquilo que já sabia, mas que nunca havia pensado: que o amor e a paixão podem ser brandidos como uma arma, contra o próprio objecto desse sentimento. De tao arrebatador, tao profundo, o sentimento pode ferir o espaço e a natureza do outro. Irá ferir, de certeza, se for correspondido. Vão ferir-se e adaptar-se e repelir-se para se afastarem magoados, ou para regressarem um ao outro com perdões e paciência.
O amor é uma arma, de facto.

29/04/2016

Sobre os sorrisos

No trabalho, um turista australiano velhinho, interrompe-me enquanto lhe falo para perguntar:
How do you know you are in Portugal?
Eu respondi que não sabia... Ele disse-me que sabe que está em Portugal quando vê um sorriso como o meu, porque em todo o lado onde foi, sempre sorrisos assim calorosos, e enquanto ele falava eu sorri mais e ele, cheio de satisfação exclamou "see?! There you go!"
Disse ele que não se vê sorrisos assim noutros sítios. Na Rússia, por exemplo... Respondi que, com o clima de lá, se calhar eu também não teria muita vontade de rir, ao que ele respondeu que na Austrália o tempo é bom e mesmo assim não se vê as pessoas sorrir como em Portugal.

Que velhinho amoroso, que mesmo num dia em que andei com uma nuvem cinzentona a pairar teimosamente sobre mim, viu luz no meu sorriso de olhos tristes.