08/10/2016

Dia dos cuidados paliativos

Não sou muito de assinalar aqui no blog os dias disto ou daquilo... Mas este fez-me cá vir. Tenho um sentimento muito forte quando ouço a expressão "cuidados paliativos". Já vi dois avôs beneficiarem deles. São cuidados que associamos a situações extremas, situações irremediáveis, em que se desiste da luta contra o mal, investindo no bem-estar e conforto da pessoa que padece, enquanto consegue resistir. Mas nem sempre estas doenças são fulminantes ou muito "activas"; um paliativo pode ser simplesmente o acompanhamento do envelhecimento e das doenças que naturalmente dele advêm, tendo sempre em vista a dignidade e a qualidade de vida do doente.
Todos temos, infelizmente, alguém que já precisou ou que já beneficiou destes cuidados. Todos. É ou não é verdade?
E, sem querer desconsiderar nenhuma outra área da medicina, esta merece a nossa solidariedade, as nossas contribuições, e os seus profissionais merecem todo o nosso respeito, carinho e gratidão. São profissionais de saúde, com os seus conhecimentos científicos e técnicos, mas também são profissionais de amor, de compreensão, que muitas vezes devem ver ou ouvir coisas que nem me atrevo a imaginar.
Vivemos vidas cada vez mais longas, mas nem sempre melhores. Num país com a natalidade decrescente, com escolas que fecham, precisamos não esquecer que no extremo oposto da linha está a doença e a velhice. E este é o dia desses cuidadores.

29/09/2016

Estou a vencer

...e pronto, é isto. Mas não quis deixar de assinalar.
Quando chego às consultas de terapia já não digo "ando benzinho". Quando eu própria penso para mim e faço o balanço dos meus dias, já não penso que ando a passar por entre as gotas da chuva, a escapar às situações difíceis, temente do que possa vir por aí...
Ainda tenho os meus momentos sufocantes, sim. Todos os dias há pelo menos um minuto em que, por qualquer motivo, temo as pessoas que me rodeiam, temo a hora da refeição porque o apetite nunca abunda, temo o encontro marcado, a conversa que se aproxima, o por do sol, que nesta altura começa a vir cedo demais. Temo os dias tristes de outono, a chuva cinzenta, o frio que se entranha, a fraqueza física que nos é própria nestas estacões mais frias...
Temo tudo isto, mas só por um minuto, ou por uma meia hora. Porque a seguir vou conversar, vou respirar para a rua, vou olhar o cair sereno da noite; lembro-me que o frio também é sinónimo de aconchego e mimos. Lembro-me que o frio faz apetecer as comidas quentes e confortantes. Lembro-me que as depressões de outono não é a estacão que as traz, mas antes a nossa memória de outros outonos: os da natureza e os da nossa alma. E a minha está a curar-se. Quando me lembro do meu valor e da minha dignidade. Quando me lembro que peço desculpa demasiadas vezes, que me faço pequena, para não incomodar ninguém, que espero instruções e opiniões de toda a gente, que muito poucas vezes confio no poder do meu "sim" ou "não"... Quando me lembro destas coisas, ganho mais confiança no meu poder. Quando sou menos exigente com a realidade que me rodeia, mais receptiva, ganho satisfação e serenidade. Quando olho os outros com mais amor, ganho paz.
E tudo isto são ganhos. São vitórias. Não tenho a ilusão que há nao haverá dias difíceis. Ou dias maus. Todos os temos. Mas os restantes são dias de vitória. E o meu  peito enche-se de ar, dilata-se de plenitude e aceitação. As minhas costas endireitam-se. E eu sinto-me em paz.

O meu pai fez anos e eu, ao contrário do que pensava, não senti vontade de lhe falar ou de o fazer sentir melhor. E, por isso, não o fiz. Fiz o que eu queria, em vez de fazer o que achava que esperavam de mim. E respiro devagar.

10/09/2016

Mais amor

... Preciso adoptar este lema. Repetir este refrão. Escrever num post-it e colar em todas as paredes. Escrever nas mãos, para ver quando olho para elas, sinal de que estou desconfortável ou triste.
Mais amor nos olhos com que vejo o mundo faria com que eu fosse ainda mais feliz. Sem ceder tanto lugar ao medo e à desconfiança que tantas vezes me tiram o ar e o apetite.
Mais amor tiraria lugar ao julgamento que automaticamente faço, que todos fazemos, daquilo que vejo. Eu julgo muito. Mea culpa.
Mais amor pelo momento presente, que é tao precioso e a única coisa que temos de certo. Mais amor pelos que partilham esse momento comigo, dia após dia, segundo após segundo.
Ser mais amor. Ser melhor pessoa. E ter fé em mim, no facto de eu ser boa pessoa, de ser estimada, de ser um encontro agradável ou uma palavra amiga no dia dos que se cruzam comigo.
Amor vai fazer com que eu não tenha dias rabugentos com tanta frequência. Amor vai fazer com que eu seja mais tolerante. Porque o Amor tem uma face meio escondida que é a Gratidão, e cultivando um, a outra virá também.
Estou a aprender também que, tal como o optimismo, o Amor não tem que vir assim espontaneamente e, se não vier, estamos condenados. Não. Eles podem e devem ser cultivados, alimentados, estimulados. Devemos lembrar a nossa Mente de os sentir, até que eles se tornem um hábito.
Quero criar hábitos de amor. =)

02/08/2016

A César o que é de César...

...e a Briseis o que é de Briseis.

Quando o sol se põe, é para mim.
Quando o calor abrasador é cortado por uma brisa leve, é para mim.
E quando os patos ensaiam um voo rasante sobre o Douro, é para eu ver.
Quando a Lua e as estrelas brilham, é a sorrir para mim.
E quando a Natureza simplesmente existe, é para mim.

Por isso, eu saio. Passeio, caminho, sento-me e contemplo. A minha natureza é simples e solitária, recolho-me e entrego-me à indolência doméstica. É-me confortável. Mas também nociva. Por isso, agora, saio. E aproveito.

22/07/2016

Acerca das bananas e da perda de confiança

Há uns anos atrás, ia abrir uma banana e, em vez de a casca se abrir como seria de esperar, dobrou. Eu agarrei no "chapeuzinho" e puxei para o lado e para baixo, como de costume, mas o que aconteceu foi a casca dobrar, em vez de partir; ficou a polpa toda esmagada e mole no interior e a banana fechada. Tive que usar uma faca. A partir daí o feitiço quebrou-se, a confiança perdeu-se. Nas vezes seguintes em que fui para abrir uma banana, pensei no gesto que ia fazer para a abrir e, em vez daquele movimento natural e decidido que toda a gente faz instintivamente, o que fiz foi tão desajeitado que voltei a dobrar e amassar a banana em vez de a abrir. Hoje, se não tiver uma faca por perto, peço a alguém que me abra a banana porque tenho medo de voltar a amassá-la.
E é tudo uma questão de confiança. De fazer as coisas de forma instintiva e natural. Quando o resultado não é o esperado, despertamos para a possibilidade de isso se repetir e, a partir daí, o que antes era natural e resultava, passa a ser temido, programado e, por causa do excesso de zelo, pode acabar por falhar.
Nas bananas, como na vida.

12/07/2016

Nota para mim mesma

...e para quem mais ler, porque acho que toda a gente merece este conforto.
 
Que nunca me arrependa. Sem ligar àquela distinção de "arrepender do que fiz" vs. "arrepender do que não fiz". Arrependimento de qualquer tipo.
Não deveria haver lugar para o arrependimento nas nossas vidas. Tudo o que fazemos é fruto do nosso raciocínio ou da nossa emoção ou da nossa vontade... é fruto de algo que nos move e que nos faz acreditar que será o melhor. Todas as nossas atitudes são feitas tendo em vista o melhor, certo? Não se tomam decisões a pensar "sei que isto é a pior solução mas vou por aqui só porque me apetece sofrer um bocadinho mais  ou perder um bocadinho mais do que é a minha conta".
As decisões são tomadas com base no que temos, seja essa base bem fundamentada ou não, real ou ilusória. Não é isso que está em causa. Em causa está haver uma razão para o que fazemos. Se depois o resultado não é o esperado, não é culpa nossa. Não cabe arrependimento.
Se vier arrependimento é porque estamos a esquecer partes da história. Se parecer que fomos burros ou tontos é porque sabemos mais agora do que no momento.
Mas as decisões que tomamos com base no que nos é dado, são a pensar no melhor.
Não cabe arrependimento. Arrependimento inútil, que só pesa às costas e nos absorve a alegria.
Mudar de rumo, sim. Quando é preciso. Arrependimento pelo caminho feito, não. Nunca deveríamos permitir-nos isso.

04/07/2016

A vida é o que acontece enquanto eu estou ali encolhida a ter uma crisezita de ansiedade.
Não quero mais isto. Porra.