Todos já o ouvimos. É o canto da sereia que nos conduz à perdição, sabemo-lo, mas é tão encantador que fazemos de conta que nunca nos contaram as histórias e os avisos; um canto tão belo e sedutor só pode vir de algo bom e trazer em si a felicidade que esperamos e merecemos.
E depois o encantamento quebra-se, vivemos frustrados, tristes, enganados. Esta não é a vida para a qual nos inscrevemos, houve ali algures uma quebra de contrato. Faz parte da ética do acordo não desistir à primeira contrariedade e é por isso que insistimos, fazemos das tripas coração, ignoramos a azia danada e a revolta que nos morde, e perdoamos, damos a outra face, admitimos que talvez também tenhamos a nossa parte na culpa. Em menos de nada voltamos a dar com a cara no muro frio que é a desilusão. E é nesse momento que o canto da sereia é mais insistente, violento e humilhante, porque nos berra que temos o que merecemos; que é melhor aquilo do que coisa nenhuma; que toda a gente tem problemas e outros também vivem em fingimento: vivem num lar frio mas são vistos em esplanadas com o namorado, passam dias sem um gesto de amor mas passam férias em sítios luxuosos, invejam a simplicidade da vida de toda a gente mas sabem que os outros invejam a fachada que representam.
E eu sei que vocês estão neste momento a pensar num punhado de pessoas próximas que cederam ao canto das sereias, cederam ao canto do "isto é o melhor que consigo arranjar". Mas essas pessoas precisam de cantar, a partir de dentro, "isso não me chega, isso está abaixo de mim, sou melhor do que isso". Às vezes as pessoas não sabem que têm essa voz lá dentro, é preciso alguém ajudá-las a ouvir.
