01/06/2017

Drive - The Cars


Esta musica tocou no casamento, quase no fim da noite daquele que foi um dos dias mais tristes da minha vida.
Dia que começou desastrosamente quando, ao cumprimenta-lo de manhã, lhe elogiei a beleza e a elegância do fato e em troca recebi um "obrigado" estéril, que não se fez acompanhar de igual retribuição. Gelei até ao fundo da alma, a visão ficou enevoada e o dia tornou-se cinzento, dentro e fora de mim.
No fim da noite passou esta música e, numa das muitas tentativas para restaurar o laço que se ia quebrando irremediavelmente, segredei-lhe que esta é uma das musicas da minha vida, que se algum dia ele quisesse comover-me com um gesto, como o noivo e a noiva fazem para surpreender e agradar um ao outro, aquela música na banda sonora faria metade do trabalho...
Abri-lhe assim o meu coração em poucas palavras. Não esperava ser chamada para dançar, ele não era dessas coisas. Mas também não esperava que as minhas palavras caíssem no vácuo, como aconteceu.
Hoje, mais de um ano depois, vejo a profecia. "you can't go on thinking nothing's wrong. Who's gonna drive you home tonight?"
Naquela noite foi ele. Mas a dor ficou plantada e a seu tempo foi arrancada.

31/05/2017

"Em toda a adversidade do destino, a condição que gera mais infelicidade é o facto de se ter sido feliz." Boécio, De Consolatione Philosophiae

É esta a suprema frustração da humanidade. Carregar memórias que, por comparação, tornam mesquinhas as perspectivas do futuro, se a nosso imaginação e fé não forem suficientemente fortes para crer que há melhor ainda por vir.

Diz que para se saber o que é o doce, tem que se conhecer o sabor do amargo. Mas voltar ao amargo depois de experimentar o doce é intolerável.

22/05/2017

Festinhas na alma

Ligo para um serviço público cá da terrinha e quando a senhora me pede para aguardar um momento enquanto vai ver da minha vida, ouço-a dizer para o lado "é uma senhora muito simpática a pedir que lhe tratemos disto".
Quando a senhora volta e me pergunta o nome para procurar a minha ficha, exclama "ah! já sei quem é! eu vi logo, assim tão simpática!".
E isto num dia em que até estou "com o toco"...

21/05/2017

Tão isto, que podia ser sobre mim

Copiei descaradamente o título de uma das rubricas habituais do "às nove no meu blogue", onde vou de quando em vez espreitar as palavras serenas e as fotos que cheiram a alfazema.
E, como já aconteceu em vezes anteriores com outros textos, desta vez  foi este post que me comoveu. Identifiquei-me. Enfiei a carapuça. Reconheci com familiaridade todos os "poucos" descritos e acrescentei mentalmente os meus próprios, os que me são exclusivos.
São palavras valorosas, e por isso as partilho. Vai fazer-vos bem lê-las. Coragem, vós que andais na busca!

18/05/2017

A super pálpebra!

Tinha que vir partilhar... Porque as minhas pernas foram chamadas de canetas durante toda a minha infância, e ainda hoje, que faço ginásio, me refiro aos meus braços como um belo par de asas de frango... Isto para saberem que sou de uma constituição "ossuda" e fraquita... Mas hoje, ao sentir uma areia no olho, cocei e perdi uma lente de contacto algures nas traseiras do meu globo ocular... depois de irritar muito a vista, a massajar, e a rebolar os olhos e espreitar para dentro das pálpebras, à procura dela sem sucesso, lá me arrastei meio cega até à óptica e pedi que alguém me acudisse... A menina, amorosa, de mãos delicadas, um anjo!...veio de cotonete na mão, levantou-me a pálpebra e com o dito tentou puxar a lente trasmalhada... Vitoriosa, agarrou, tirou e mostrou-me uma metade da lente perdida. Lá se repetiu o processo com o cotonete para se arrancar a metade restante dos recônditos do meu olho esquerdo.
Conclusão, a moça das asas de frango, parte lentes de contacto com as pálpebras. Alguém que dê valor a isto.

16/05/2017

"Cá dentro mora gente"

Ontem tive oportunidade de fazer uma sessão de terapia com uma grande Doutora, juntamente com um pequeno grupo de pessoas de tantas proveniências e experiências diferentes mas que se identificam todas com as dores da mente, da ansiedade, do sentimento de que não se é suficientemente "qualquer coisa", que vai de bom, a bonito, forte, digno, inteligente... Há para todos os gostos.
E foi muito bom estar em paz, ouvir e observar. Não aprendi nada de novo, já li muita coisa, já ouvi muita gente, já escutei sugestões de profissionais e já partilhei experiências com doentes...mas um reforço vem sempre a calhar, principalmente quando vem de uma pessoa que irradia uma aura tão serena e empática.
Todos nós guardamos lixo no nosso interior. Todos nós pensamos volta e meia "não fazes nada de jeito, és sempre a mesma coisa". E além deste mau-trato que nos infligimos, ainda aceitamos o que vem de outros, quando nos sentimos desrespeitados ou humilhados. E relembramos, e lamentamos, e ressentimos.
Mas é tudo lixo. Então, a mensagem que ontem eu trouxe é "aqui dentro não entra lixo, só entra amor. Aqui dentro (e estou a colocar as mãos sobre o coração) mora gente".
Trouxe de lá muita paz. Nem me importei por perder o comboio. Nem dei importância ao facto de ter jantado uma triste sandes de lombo fumado na estação. Dentro de mim, o lixo estava a ser descartado.

08/05/2017

Epifania



Tenho encontrado esta mensagem em pacotes de café há meses. Nunca me convenceu muito, nunca concordei... até há uns dias atrás.
Percebi que a nuvem, sozinha, não esconde muito. Mas se a janela que nós tivermos para o céu for pequena, basta uma nuvem mínima para a obstruir. E esse foi o meu problema durante muito tempo. Janelas estreitas.