16/06/2017

Há dias em que a estupidez sai à rua.

As pessoas que me rodeiam vão-me desiludindo.
A besta do facebook recebe-me com fotografias antigas porque acha que eu vou gostar de recordar que neste dia, há 4 anos atrás, estava mais feliz do que estou hoje, a passear e a descobrir sítios novos e acompanhada da pessoa que me fez tão feliz.
Toda a gente faz planos melhores do que os meus, mas sinceramente eu não tenho pachorra nem energia para fazer planos iguais ou semelhantes.
O calor deixa-me rabugenta e irritável, mas a outros parece que lhes diminui as faculdades cognitivas, só me saem empecilhos e monos.
Desespero e desanimo... não sei se o que tenho em mim é mais tristeza ou raiva.
E chafurdo neste mau humor, rebolo e cubro-me toda com ele. Não tenho vontade nem imaginação para mais. Não vou levantar a cabeça e endireitar os ombros só porque me dizem que é o melhor que posso fazer. Se não me apetece, se não estou nesse estado de espírito, vou ao menos ser verdadeira.
Se dentro de mim a luz hoje está apagada, então não vai haver artifícios luminosos nas janelas só para que quem passa de fora pense que está tudo normal. 

12/06/2017

Conheço uma pessoa que conhece um senhor... Por acaso é brasileiro mas isso não concorre para esta história. Esse senhor é casado e diz a quem quer ouvir que não precisa da mulher para nada. Não precisa da mulher para ser feliz. E ela sabe disso. E esse é o maior elogio que ele poderia fazer-lhe.
É que ele, na verdade, não precisa dela. Mas escolheu estar com ela. Ele era já um homem inteiro e pleno e gostou tanto dela que a escolheu para partilhar essa existência serena com ela. E ela aceitou-o de igual modo. Não há ali necessidade, dependência, conveniência, um cobertorzinho quente ou um aquecedor de pés. Há a vontade de partilha, deliberação em ser companheiro, ser mais e melhor do que seria ser sozinho.
Isto parece prólogo para um filme ou um livro, mas é real, segundo ouvi dessa pessoa minha conhecida. E é uma bonita lição.
Quantos de nós se identificam com aquela forma de ser? Algum dedo no ar? O meu não, certamente... Mas se der para aprender este estado de ser, eu vou consegui-lo.

11/06/2017

Sobre viver no presente, por John Steinbeck

Em "As Vinhas da Ira"

"- Mãe... a senhora está com medo da viagem, não está? (...)
- Um pouco, sim - disse. (...)
- E não pensa no que nos vai acontecer quando lá chegarmos? Não tem medo de que não seja tão bom como a gente imagina?
- Não - respondeu ela rapidamente. - Não tenho medo . Não há-de ser assim. nem quero pensar nisso. Seria o mesmo que viver muitas vidas ao mesmo tempo. Há mil vidas que nós poderíamos viver, quando chega o momento de escolhermos uma, apenas.  Se eu me puser a pensar em tudo o que poderá acontecer, não aguento. (...) para mim, o futuro resume-se na estrada que corre a meus pés."

08/06/2017

O terramoto

Há dois dias atrás a terra tremeu. Diz-se que o epicentro foi em Amarante mas o abalo fez-se sentir aqui, a 50 kms de distância, mas nem toda a gente deu por ele. Eu, que estava num segundo andar, com o piso em soalho, senti o rugido em crescendo e aos poucos a sensação gelatinosa debaixo dos pés. Quando desci ao rês-do-chão e comentei o abalo com os colegas que estavam sobre granito, eles disseram que não tinham dado por nada.
Isto fez-me pensar que, nos tremores de terra como nos abalos emocionais, estarmos no mesmo lugar não é sinónimo de sentirmos os mesmos fenómenos. Depende da altitude a que nos encontramos e do que são feitas as nossas fundações.

01/06/2017

Drive - The Cars


Esta musica tocou no casamento, quase no fim da noite daquele que foi um dos dias mais tristes da minha vida.
Dia que começou desastrosamente quando, ao cumprimenta-lo de manhã, lhe elogiei a beleza e a elegância do fato e em troca recebi um "obrigado" estéril, que não se fez acompanhar de igual retribuição. Gelei até ao fundo da alma, a visão ficou enevoada e o dia tornou-se cinzento, dentro e fora de mim.
No fim da noite passou esta música e, numa das muitas tentativas para restaurar o laço que se ia quebrando irremediavelmente, segredei-lhe que esta é uma das musicas da minha vida, que se algum dia ele quisesse comover-me com um gesto, como o noivo e a noiva fazem para surpreender e agradar um ao outro, aquela música na banda sonora faria metade do trabalho...
Abri-lhe assim o meu coração em poucas palavras. Não esperava ser chamada para dançar, ele não era dessas coisas. Mas também não esperava que as minhas palavras caíssem no vácuo, como aconteceu.
Hoje, mais de um ano depois, vejo a profecia. "you can't go on thinking nothing's wrong. Who's gonna drive you home tonight?"
Naquela noite foi ele. Mas a dor ficou plantada e a seu tempo foi arrancada.

31/05/2017

"Em toda a adversidade do destino, a condição que gera mais infelicidade é o facto de se ter sido feliz." Boécio, De Consolatione Philosophiae

É esta a suprema frustração da humanidade. Carregar memórias que, por comparação, tornam mesquinhas as perspectivas do futuro, se a nosso imaginação e fé não forem suficientemente fortes para crer que há melhor ainda por vir.

Diz que para se saber o que é o doce, tem que se conhecer o sabor do amargo. Mas voltar ao amargo depois de experimentar o doce é intolerável.

22/05/2017

Festinhas na alma

Ligo para um serviço público cá da terrinha e quando a senhora me pede para aguardar um momento enquanto vai ver da minha vida, ouço-a dizer para o lado "é uma senhora muito simpática a pedir que lhe tratemos disto".
Quando a senhora volta e me pergunta o nome para procurar a minha ficha, exclama "ah! já sei quem é! eu vi logo, assim tão simpática!".
E isto num dia em que até estou "com o toco"...

21/05/2017

Tão isto, que podia ser sobre mim

Copiei descaradamente o título de uma das rubricas habituais do "às nove no meu blogue", onde vou de quando em vez espreitar as palavras serenas e as fotos que cheiram a alfazema.
E, como já aconteceu em vezes anteriores com outros textos, desta vez  foi este post que me comoveu. Identifiquei-me. Enfiei a carapuça. Reconheci com familiaridade todos os "poucos" descritos e acrescentei mentalmente os meus próprios, os que me são exclusivos.
São palavras valorosas, e por isso as partilho. Vai fazer-vos bem lê-las. Coragem, vós que andais na busca!

18/05/2017

A super pálpebra!

Tinha que vir partilhar... Porque as minhas pernas foram chamadas de canetas durante toda a minha infância, e ainda hoje, que faço ginásio, me refiro aos meus braços como um belo par de asas de frango... Isto para saberem que sou de uma constituição "ossuda" e fraquita... Mas hoje, ao sentir uma areia no olho, cocei e perdi uma lente de contacto algures nas traseiras do meu globo ocular... depois de irritar muito a vista, a massajar, e a rebolar os olhos e espreitar para dentro das pálpebras, à procura dela sem sucesso, lá me arrastei meio cega até à óptica e pedi que alguém me acudisse... A menina, amorosa, de mãos delicadas, um anjo!...veio de cotonete na mão, levantou-me a pálpebra e com o dito tentou puxar a lente trasmalhada... Vitoriosa, agarrou, tirou e mostrou-me uma metade da lente perdida. Lá se repetiu o processo com o cotonete para se arrancar a metade restante dos recônditos do meu olho esquerdo.
Conclusão, a moça das asas de frango, parte lentes de contacto com as pálpebras. Alguém que dê valor a isto.

16/05/2017

"Cá dentro mora gente"

Ontem tive oportunidade de fazer uma sessão de terapia com uma grande Doutora, juntamente com um pequeno grupo de pessoas de tantas proveniências e experiências diferentes mas que se identificam todas com as dores da mente, da ansiedade, do sentimento de que não se é suficientemente "qualquer coisa", que vai de bom, a bonito, forte, digno, inteligente... Há para todos os gostos.
E foi muito bom estar em paz, ouvir e observar. Não aprendi nada de novo, já li muita coisa, já ouvi muita gente, já escutei sugestões de profissionais e já partilhei experiências com doentes...mas um reforço vem sempre a calhar, principalmente quando vem de uma pessoa que irradia uma aura tão serena e empática.
Todos nós guardamos lixo no nosso interior. Todos nós pensamos volta e meia "não fazes nada de jeito, és sempre a mesma coisa". E além deste mau-trato que nos infligimos, ainda aceitamos o que vem de outros, quando nos sentimos desrespeitados ou humilhados. E relembramos, e lamentamos, e ressentimos.
Mas é tudo lixo. Então, a mensagem que ontem eu trouxe é "aqui dentro não entra lixo, só entra amor. Aqui dentro (e estou a colocar as mãos sobre o coração) mora gente".
Trouxe de lá muita paz. Nem me importei por perder o comboio. Nem dei importância ao facto de ter jantado uma triste sandes de lombo fumado na estação. Dentro de mim, o lixo estava a ser descartado.

08/05/2017

Epifania



Tenho encontrado esta mensagem em pacotes de café há meses. Nunca me convenceu muito, nunca concordei... até há uns dias atrás.
Percebi que a nuvem, sozinha, não esconde muito. Mas se a janela que nós tivermos para o céu for pequena, basta uma nuvem mínima para a obstruir. E esse foi o meu problema durante muito tempo. Janelas estreitas.

04/05/2017

O apelo da mediocridade

Todos já o ouvimos. É o canto da sereia que nos conduz à perdição, sabemo-lo, mas é tão encantador que fazemos de conta que nunca nos contaram as histórias e os avisos; um canto tão belo e sedutor só pode vir de algo bom e trazer em si a felicidade que esperamos e merecemos.
E depois o encantamento quebra-se, vivemos frustrados, tristes, enganados. Esta não é a vida para a qual nos inscrevemos, houve ali algures uma quebra de contrato. Faz parte da ética do acordo não desistir à primeira contrariedade e é por isso que insistimos, fazemos das tripas coração, ignoramos a azia danada e a revolta que nos morde, e perdoamos, damos a outra face, admitimos que talvez também tenhamos a nossa parte na culpa. Em menos de nada voltamos a dar com a cara no muro frio que é a desilusão. E é nesse momento que o canto da sereia é mais insistente, violento e humilhante, porque nos berra que temos o que merecemos; que é melhor aquilo do que coisa nenhuma; que toda a gente tem problemas e outros também vivem em fingimento: vivem num lar frio mas são vistos em esplanadas com o namorado, passam dias sem um gesto de amor mas passam férias em sítios luxuosos, invejam a simplicidade da vida de toda a gente mas sabem que os outros invejam a fachada que representam.
E eu sei que vocês estão neste momento a pensar num punhado de pessoas próximas que cederam ao canto das sereias, cederam ao canto do "isto é o melhor que consigo arranjar". Mas essas pessoas precisam de cantar, a partir de dentro, "isso não me chega, isso está abaixo de mim, sou melhor do que isso". Às vezes as pessoas não sabem que têm essa voz lá dentro, é preciso alguém ajudá-las a ouvir.

26/04/2017

O que se faz com os desenganos? E com o sentimento que eles destroem, o que se faz?
O que se faz quando aquela colina que amámos e admirámos por nos parecer harmoniosa é afinal, nas palavras de quem a viu de perto, um aterro fedorento e artificial?
Ou quando uma história que ouvimos e interiorizámos e com cuja recordação nos deleitamos, se revela afinal falsa, errada, mal contada. Não foi assim que aconteceu. Não existe.
O que fazemos com aquele carinho, com o sentimento que alimentámos? Onde é que guardamos a realidade desenganada? Foi falsa mas existiu em nós, no nosso coração e no nosso imaginário. E onde colocamos a nova realidade, a que é "realmente real"? Pomo-la em lugar de destaque e à vista, para nos lembrarmos de que não devemos deleitar-nos outra vez com a ilusão que tínhamos? Ou ignoramo-la, não pensamos nela e deixamos o nosso instinto fugir para a ilusão que se habituou a aceitar como verdadeira, apesar de ser tudo uma historieta barata?
Não sei a resposta a estas perguntas. Não sei o que vou ser capaz de fazer com a minha "tralha" mental... Mas sou muito, MUITO organizada e metódica. Sei que, de uma forma ou de outra, vou arrumar isto num isntante!

12/04/2017

A mota

Amigo querido, a quem falo pouco, e vejo menos ainda... Hoje ligou-me, enquanto estava à espera de algo, resolveu ocupar o seu tempo comigo... Tão bom! Disse-me que comprou uma mota e eu, em tom de brincadeira, fiz-lhe notar que tem que andar sempre com dois capacetes, um para ele e outro para as meninas que hão-de querer dar umas voltinhas. Respondeu-me de forma decidida que tem capacete para ele, quem quiser andar com ele tem que se arranjar...
A conversa derivou para o trabalho, que nos ocupa os dias, para os amores que nos desgostam e deixam um vazio, e aquela ligeira melancolia que nos ataca dez anos depois de sair da faculdade por verificarmos que não estamos no ponto onde imaginámos na altura que estaríamos e que a solidão é companheira mais vezes do que o que seria desejável. E depois ele disse coisas maravilhosas. Coisas que eu já sabia mas que às vezes esqueço... Disse que a aprendizagem mais importante que fez nos últimos tempos (inclusivamente com a ajuda dos seus romances efémeros) foi aprender a estar bem sozinho. A fazer as coisas por si próprio, por decisão e vontade sua, sem andar ao colo ou à boleia de alguém. Em suma, a validar em si próprio a sua vida e os passos que dá. E referiu que a compra da mota é no fundo uma expressão disso mesmo, porque numa mota é só ele sozinho, nao tem, como num carro, 4 lugares vazios à sua volta, ou entao cheios pela conveniência de uma boleia e não por verdadeira vontade de estar com ele.
E então, como um circulo que se fecha, relembrámos o pormenor de andar com um único capacete. Porque ele conta com ele. É inteiro. Quem vier, que venha inteiro também.

09/04/2017

"médico, cura-te a ti mesmo"

...ou, já que estamos na Quaresma, "Jesus, salvaste os outros, salva-te a ti mesmo".
Sou perita em confortar outros, em fazer-lhes ver que, apesar das tristezas que vêm regularmente, como marés, as suas vidas estão cheias de beleza, de tesouros... As oportunidades perdidas são, na verdade, escolhas feitas. Os erros são manifestações de humanidade e a aprendizagem que deles vem é valiosa. As cicatrizes são património histórico. À custa das muitas terapias que já fiz, em busca da serenidade para mim, aprendi muito e presumo muitas vezes compreender as feridas emocionais de cada um...
E depois fico só. E reparo em mim. E às vezes a beleza do dia não é suficiente. Não chega para sentir que vale a pena estar aqui. Às vezes, a beleza do dia parece exactamente o contrário, parece ser uma afirmação irónica contra o meu estado de alma tantas vezes melancólico. Os meus próprios tesouros e as escolhas que fiz parecem mesquinhos. Não me sinto corajosa, sinto-me pequena. Sinto o peso do que me falta. E não há distracção que me valha, porque em todas elas sinto a pena do que já não tenho, do que está ausente.
E assim, veio-me esta ideia... Preciso fazer comigo, aquilo que faço pelos outros. Levantar-me a mim mesma.

02/04/2017

Meditação de hoje

Como me ensinou um amigo, "não procures a felicidade no mesmo sítio onde a perdeste". Como tanta gente cita, "tolice é fazer as mesmas coisas e esperar um resultado diferente". Como hoje reflectiu a minha mãe, acerca do seu próprio infeliz casamento, "uma pessoa deixa quase de ser ela própria, deixa as suas alegrias, por outra pessoa, e para quê? O que é que isso nos traz?".
É muito fácil, é quase irresistível, perdermo-nos no labirinto destas cogitações... Mas depois de sairmos do labirinto, sacode-se os ombros, respira-se fundo, limpam-se as lágrimas e segue-se em frente. Está sol e cheira a flores na estrada.

19/03/2017

Isto é onde vivo


Há quem diga "se não estás bem, muda-te. Não és uma árvore". Eu às vezes não estou bem... mas mudar-me nunca me passa pela cabeça. Não nasci árvore, mas não me vejo a abandonar isto de ânimo leve...

10/03/2017

Gostei tanto que vou partilhar

...este POST do Pedro Coimbra, do Devaneios a Oriente. Uma lição para todos, para um mundo mais justo.

08/03/2017

É Dia Internacional da Mulher...

...e eu não gosto. Estão a estragá-lo. Tornou-se no dia em que as mulher censuram as poucas que não ligam à data, que não vão arranjar cabelos e unhas e jantar com ruído, beber demais e fazer piadas de que os homens estão abandonados e que não são nada sem elas... Tenho cá para mim que eles estão é todos reunidos algures a celebrar uma noite de sossego...!
As mulheres exigem louvores, flores e chocolates porque sim, porque são mulheres, porque Deus lhes deu essa felicidade? A maioria não pensa nas Sufragistas, no incêndio da fábrica em Nova Iorque em 1911, no gigantesco protesto na Rússia Czarista tão violentamente reprimido... E também não pensam no que há ainda por fazer, no nosso mundo dito moderno e desenvolvido, para se chegar à verdadeira igualdade e justiça sem ligar a géneros.