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06/04/2012

No trabalho...

...quando estou na vigilância da exposição em vésperas de feriado... Sim, exposição. Trabalho num museu. E sim, faço também vigilância, onde tenho que andar a perseguir desenfreadamente os visitantes... para garantir que têm um acompanhamento, em caso de dúvidas, ou uma traulitada na cabeça, em caso de gostarem de ver com as mãos...
Dizia eu, quando estou na vigilância em vésperas de feriado, que costumam significar montes de gente a entrar a toda a hora, obrigando-me a ficar por longos períodos a circular por lá com ar de quem está de facto a fazer algo de muito interessante e criativo, ou a estudar, ou a examinar as peças... Tudo menos ficar de olhar colado nas pessoas, como acontece nas lojas dos chineses. Odeio. Quando sou olhada dessa forma, fico a pensar se terei ar de terrorista, portanto, não quero incutir essa sensação de desconforto nas pessoas...
Então, pela terceira e última vez, quando estou na vigilância em vésperas de feriado, eu comporto-me como se estivesse numa festa... onde eu sou algo próxima do anfitrião. Vou circulando pela sala, com um meio sorriso nos lábios e nos olhos. Só meio porque, se fosse completo iria parecer uma tolinha; se fosse ausente de todo, iria parecer hostil. Meio sorriso no rosto, vou circulando lentamente, parando para observar algum pormenor  em algum objecto, cumprimentando polidamente as pessoas, oferecendo-me para tirar dúvidas aos velhinhos (já disse aqui que adoro velhinhos!), perguntando aos mais pequenos se sabem o que é isto ou aquilo, para que aprendam de onde vieram e que os museus não são uma seca... Entabulando uma conversa de 2 minutos acerca de alguma curiosidade, ouvindo com genuíno interesse as experiências e conhecimentos que as pessoas estão dispostas a partilhar...
Enfim, o truque para aguentar horas de pé, dentro do mesmo espaço a ser constantemente invadido por pessoas desconhecidas é este: atitude de recepção/evento/festa em que somos próximas do anfitrião. Aprendam comigo. Vão ver que ajuda.

15/10/2010

"Pièce de résistance"


Estou de folga. Durmo até às 10h, tomo o pequeno-almoço enquanto vejo o mail e, por volta das 11h30, vou à Segurança Social (que incursão mais deprimente...).
Quase a chegar lá, num passeio estreito, com um corrimão que impede as pessoas de descer para a estrada, atraso o passo porque vai à minha frente uma senhora muito velhinha, curvada ao peso de dois sacos que leva nas mãos. Inesperadamente, a senhora pára e pousa os sacos; aproximo-me dela e digo "dê-me licença, se faz favor"... Mas a senhora dá um salto, deita uma mão à parede para se tentear, e a outra à cabeça e diz "ai, Nossa Senhora, que susto...". Fico logo toda atrapalhada, "a senhora desculpe, não era minha intenção...". E a velhinha, toda a tremer, a dizer "não se preocupe, menina... Foi só um susto. Eu parei porque venho cansada e os sacos são pesados...". Perguntei à senhora se precisava de ajuda para os carregar. Ela morava logo no prédio adiante, por isso eu nem tinha que me desviar muito do meu caminho... Lá agarrei nos sacos e fui devagarinho com a senhora até ao prédio, subi no elevador com ela e deixei-lhe os sacos à porta. Enquanto isso, a senhora conta de onde vem, o que traz nos sacos, que daqui a dois meses faz 90 anos, que tem um filho, com 62 anos, doente, em casa, e que quase não se mexe...
Despedi-me da senhora e vim embora a pensar que bem posso deitar-me a dormir porque o meu dia já foi produtivo, que já valeu a pena ter-me levantado e que foi uma qualquer intervenção do Big Boss lá de cima que possibilitou que eu estivesse lá, naquele momento... Foi a "pièce de résistance" do meu dia...
E agora estou a pensar como foi tão fácil esta senhora, que nunca me tinha visto, confiar em mim para a acompanhar à porta de casa e dizer-me que está sozinha, com um filho de cama... Como é fácil os nossos velhinhos, na sua fraqueza, confiarem nas pessoas que lhes estendem uma mão e que, tantas vezes, vezes de mais, são mal-intencionadas...

06/09/2009

"Até um relógio parado dá as horas certas duas vezes por dia"

Por acaso, tive esta saída inspirada quando reparei que o colega do lado,no trabalho, tinha o relógio parado.
Há duas semanas, diz ele. "Mesmo assim, o relógio dá-lhe horas certas duas vezes por dia", disse-lhe eu.
Mais do que relógios, esta afirmação reconhece a validade das pessoas.
Isto é tudo muito bonito e toda a gente vale alguma coisa, todas as experiencias, todas as ideias, bla bla bla... A verdade é que, quando me toca a mim sentir-me uma nulidade, o faço melhor do que ninguem. E estas frases são isso mesmo: frases. Mais ou menos grandes, com muitos floreados rococos ou deliciosamente simples, mas todas elas vazias porque não alteram aquilo que eu sinto ou vivo. Mas isto são contas de outro rosário.
É uma frase bonita e é absolutamente verdadeira. E seria infinitamente bom se pudessemos programar o nosso cérebro para memorizar máximas deste tipo e fazê-las piscar como um letreiro quando precisássemos de uma forçazita...
Tenho 22 anos e, às vezes, olho para a minha vida como imagino que um idoso olha para a sua. Para trás. Como se tudo o que poderia haver de bom e bonito estivesse lá atrás. Como se estivesse cansada.
Os velhinhos que olham para trás são relógios parados. Mas duas (ou até mais) vezes por dia, dão-nos as horas certas, dão-nos aquilo que precisamos ouvir, ou aquele olhar sereno que nos conforta.
Adoro velhinhos! Adoro ver a lentidão cuidadosa com que caminham, as rugas que lhes marcam o rosto e as mãos, o brilho sempre presente nos olhos que já viram tanto...! Um antigo colega de trabalho, de qundo eu fazia visitas guiadas a Quintas de Vinho do Porto, dizia-me que eu deixava os velhinhos doidos comigo, porque os rodeava de atenção e porque lhes sorria sempre.
Ri-me, ao início, mas reconheço que é verdade...
Até aqueles que, no comboio, nos falam. Mesmo tendo nós um belo livro para ler, uma revista para devorar, ou música para nos distrair... E eles falam. Desagradável, para alguns. Eu, gosto de os ouvir. Gosto das histórias, da forma como falam, das palavras que usam, da sabedoria muito pouco científica mas cheia de experiência e senso-comum que possuem.
Ninguém é um relógio parado, afinal. Porque até aqueles servem o propósito para o qual foram feitos duas vezes por dia.