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09/07/2014

"Memoirs of an Imaginary Friend", de Matthew Green


Já tinha visto o título e a capa em várias das páginas e fóruns literários por onde vou passando. A sinopse é chamativa, a conhecida escritora Jodi Picoult escreve que já há muito que não era absorvida da forma que este livro a absorveu, e a crítica compara-o a "O Quarto de Jack", que não li (nem quero, credo! já viram bem a sinopse daquilo???)...

Surgiu a oportunidade de o conseguir através de uma troca combinada num grupo do facebook criada para esse efeito... E ainda me entusiasmou mais o facto de se tratar da edição em inglês.
Budo é o narrador. E é um amigo imaginário. Não pode tocar no mundo real, não pode ser visto ou ouvido por outro humano além do que o imaginou. Esse menino é Max. O Max tem 8 anos, que é idade em que a maior parte dos meninos já deixou de acreditar nos seus amigos imaginários, fazendo com que eles deixem de existir. Mas Max é um menino especial. Através das descrições tão simples e quase infantis, mas tremendamente verdadeiras, que Budo faz do seu amigo, percebemos que ele será autista, com todos os problemas e limitações que as crianças autistas enfrentam.
A história do dia-a-dia pacato e monótono de Max e Budo (feita de fugas a demonstrações de carinho por parte dos pais e das pessoas em geral, idas para a escola e ter que lidar com meninos maldosos, e discussões tidas pelos pais, a que Budo assiste, acerca de Max não ser normal e precisar de ajuda) sofre uma alteração radical no dia em que Max é raptado por uma professora, cujo filho morrera. Budo é o único a assistir ao rapto e a saber quem é a culpada. É a partir daí que, o que era um conto fofinho e enternecedor, passa a ser uma história comovente e frustrante porque nos vemos confrontados com as limitações de um amigo imaginário, incapaz de comunicar com as pessoas ou de tocar seja o que for no mundo real.
É um livro diferente de tudo o que já li, sem dúvida, onde questões como "o que é correcto" versus "o que é a nossa vontade", o próprio sentido da existência ou o que exisitrá (ou não existirá) para além da morte, pairam a todo o momento.

28/06/2014

Acácia - 3 em 1

E, de uma assentada, aproveitando uma inacreditável promoção  da editora, consegui os 2º, 3º e 4º volumes da saga (que normalmente custariam um total de 49, 44€) por 23 euros e trocos, já com portes... Só acreditei quando os livros chegaram às minhas mãos...
 
Li o primeiro volume há já algum tempo e escrevi a minha opinião aqui...
 
Inicialmente, vi-me um pouco perdida, tentando retomar o fio à meada e relembrar quem era quem na história. Como a cada volume da versão original correspondem dois volumes em português, o ideal é que se leiam aos pares (o 1 e o 2; o 3 e o 4)... e agora mal posso esperar por ver o 5º e 6º volumes...
 
Presságios de Inverno
O segundo volume. Sendo o primeiro tão claramente introdutório, escrito naquela fórmula quase cinematográfica de uma existência idílica, uma família feliz, mas um passado e uma herança sórdidos que ameaçam irromper à superfície... e irrompem mesmo... É neste ponto que o 1º volume nos deixa, num caos em que a família invasora amaldiçoada há tantas gerações regressa para usurpar o trono. O Rei Akaran é morto e os seus quatro filhos separados e levados para pontos distantes do Reino para tentarem sobreviver escondidos até estarem prontos a regressar.
"Presságios de Inverno" vai reencontrar os nossos desafortunados herdeiros nove anos depois da fuga e é maravilhoso ver de que forma tão inesperada e surpreendente eles cresceram e se revelam na sua nova existência. Agora, jovens adultos, sentem o apelo de se reunirem e tentarem recuperar o domínio de Acácia, vingando o Pai. É um volume intenso, de guerras e intrigas crescentes e um final surpreendente.
 
 
Outras Terras
O terceiro volume. Após o desfecho algo inesperado da guerra travada no volume anterior, temos Acácia de novo sob o poder da família Akaran. No entanto, a existência está longe de ser pacífica ou idílica, como era anteriormente. A nova jovem rainha, endurecida pelas circunstâncias, enfrenta as perigosas intrigas da corte, enquanto os irmãos, ambos destroçados pela recente guerra, a ajudam na manutenção da paz e recuperação do território destruído.
Surge um novo e perigoso desafio que é a necessidade de conhecer melhor e reforçar alianças com o desconhecido povo que habita as "Outras Terras", para lá das fronteiras do Mundo Conhecido. Há acções muito diversas, passadas em palcos muito distintos, mas todas elas ligadas entre si. É de grande habilidade conseguir narrar desta forma sem confundir o leitor. A trama adensa-se, aparecem muitas novas personagems e é quase hipnotizante ir absorvendo as revelações que dão a conhecer melhor os pormenores deste mundo imaginado.
 
 
O Povo das Crianças Divinas
Este volume lê-se de um fôlego, porque é pura acção, descoberta, terror e fascínio do princípio ao fim. Se o volume anterior é a viagem para um novo continente, neste temos a chegada e confrontação com algo totalmente inesperado. O que se temia é afinal pior, e o que se desconhecia é maravilhoso.
Desde o primeiro volume sabemos que a paz no Império de Acácia se mantém graças a uma droga que o povo consome e o mantém dócil e anestesiado. Essa droga, Bruma, é produzida nas Outras Terras, vendida ao Mundo Conhecido em troca de uma Quota: crianças que são retiradas dos pais e enviadas para esse continente para fins obscuros. Este volume mostra o destino dessas crianças, algumas delas tornadas Crianças Divinas...
É um óptimo desvendar do mistério que se alimentou nos 3 volumes anteriores.
Há traições até dizer chega, magia e feitiços com os quais não se deveria brincar, e aproxima-se uma nova guerra. A maior de sempre. Só faltam dois volumes!
 
 
 

01/06/2014

"A Sétima Porta", de Richard Zimler

 
...e com este livro tomo a firme resolução de que não vou ler mais sobre a Guerra, Nazis, Judeus, Holocaustos, Pogroms e afins... este ano tenho tido tendência para me interessar, por um motivo ou outro, por livros com esta temática e já tive a minha dose. Agora só quero livros fúteis e ligeiros e felizes...
 
Encontrei-o com 20% de desconto no Fnac e, como tem mais de 600 páginas, foi irresistível, já que representaria leitura para muito tempo.
Richard Zimler, americano naturalizado português e a viver no Porto, atingiu maior reconhecimento após a publicação do Romance "O Último Cabalista de Lisboa", que não li. Sei, no entanto, que a personagem central desse livro, Berequias Zarco, é um antepassado de uma das personagens chave d'"A Sétima Porta", Isaac Zarco. Berlim é o centro da acção, que principia em início dos anos 30 e que continuará durante a ascenção inexorável no Nacional-Socialismo alemão e os horrores da Guerra.
Neste livro não há combates. Há o interior de lares berlinenses e as lutas secretas que cada um trava com a sua consciência e a sua vontade. Não há heróis fardados. As personagens que acompanhamos são, na sua maioria, pessoas com um qualquer tipo de deficiência física ou mental e judeus, ambos alvos favoritos do extermínio nazi.
A contadora da história é Sophie que, nonagenária e a viver em Nova Iorque na actualidade, relata os pormenores gravados a fogo na sua memória dos amores e amizades, perigos, dores e revoltas da sua adolescência e juventude.
Zimler é brilhante na forma como dá voz a dúvidas e anseios femininos. Tem sentido de humor requintado. E oferece-nos um leque de personagens maravilhosas, tão ricas.
 
Mas não quero mais ler sobre a guerra nos próximos tempos. Pronto.

05/04/2014

"Marina", de Carlos Ruiz Zafón


Continua a ser imperdoável, tal como foi em "A Sombra do Vento" e "O Prisioneiro do Céu", a mania que este homem tem de contar histórias sobrepostas a outras histórias, isto é, há duas personagens centrais, Óscar e Marina que, além de viverem o seu próprio drama e tragédia, investigam por auto recreação a história mais trágica e horripilante ainda de outras duas personagens, neste caso, Mikhail e Eva... isso faz com que metade do livro seja constituído por relatos de diversas personagens, envelhecidas e decadentes, que viveram a dita tragédia 30 anos antes.
Fora este pormenor medonho (irrita-me, pá, esta tendência que o homem tem de contar história atrás de história, sobrepondo umas às outras...como se as tivesse a borbulhar lá dentro e tivesse que as mandar cá para fora, sob pena de rebentar se não o fizer)... dizia eu, fora isto, gostei do livro... Gostei tanto que li coisa de 200 páginas num dia. Gosto das metáforas que ele usa para descrever os sons que as coisas fazem ou o céu de Barcelona, gostei da história horripilante que ele criou... A dita Marina ficou um pouco aquém do que eu esperava, já que é ela que dá o nome ao livro... Lá está, aquilo que eu dizia de ele criar histórias tão densas sobrepostas umas nas outras... Em suma, o gajo desagrada-me mas é certo que já nem me lembrava da última vez que li tantas páginas no mesmo dia...

25/03/2014

"The Book Thief", de Markus Zusak


O livro de que se fala. De quem toda a gente fala... e que deu um filme. De quem toda a gente fala também...
Comprei-o no aeroporto de Gatwick, enquanto esperava pelo avião que me traria de volta e paguei umas inacreditáveis 7,99£ apenas...
E, agora que terminei a leitura, acredito naquela crítica que li, que dizia que quem lê este livro não volta a ser a mesma pessoa.
Talvez tenha ajudado um pouco associar à personagem de Hans, o Papá, a figura bonacheirona do Geoffrey Rush, que é quem interpreta o papel no filme, e conhecer a doçura do rosto da actriz que dá vida à fascinante Liesel Meminger... talvez isso tenha ajudado. Mas o livro vale por si só.
O narrador que nos conta a história é a Morte. E acreditem que é, talvez, o narrador mais charmoso e amável que já conheci, cheio de respeito pelo leitor, dando as respostas rapidamente, nada de artificialismos que fazem crescer o suspense...
A nossa "book thief" (porque "book thief" soa infinitamente melhor do que "ladra de livros" ou "rapariga que roubava livros") vive com os seus pais adoptivos nos arredores de Munique, em plena Segunda Guerra Mundial e a Morte, que ocasionalmente, no meio do circo que é a Huminadade, encontra alguém que a faz parar e interessar-se, cruza-se com Liesel diversas vezes e observa-a e admira-a. E dá-se ao trabalho de nos contar a sua história, e a do homem com o coração no acordeão, da mulher com rosto de papelão e a palavra Saumensch sempre na ponta da língua, do Judeu que ficou encandeado pela luz das estrelas numa noite de bombardeamentos, e do rapaz que teria para sempre cabelo cor de limão.
Vi o filme na véspera de terminar a leitura. É belíssimo e, ainda assim, sabe a tão pouco! É um livro maravilhoso! E é o meu souvenir de Londres!

23/03/2014

"Ao Sabor do Momento", de Melissa Bank

Ouviram falar da loucura da Editorial Presença? Pois eles publicaram na sua página do Facebook que havia livros grátis...e era verdade... fazia-se Like, seguia-se algumas instruções, partilhava-se com os amigos e eis uma lista com dezenas de livros, dos mais variados géneros, que podíamos escolher e só teríamos que pagar os portes de envio (2,80€). Eu ganhei três. O meu respectivo ganhou outros tantos e teve a fineza de mos oferecer... quem tem um Amor maravilhoso, quem é? =)
É certo que a esmagadora maioria dos livros não eram best-sellers ou de escritores muito conhecidos... mas eram livros grátis, bolas! E escandalizou-me um pouco a lata de algumas pessoas que postaram comentários a desdenhar dos livros disponíveis... Enfim...
 
Este livro foi um dos que veio parar cá a casa à conta do dito passatempo. E que deliciosa leitura, foi... Tão ligeiro e bem disposto. Estava a precisar de um livro pouco absorvente, leve e alegre e deu-me um enorme gosto lê-lo... A nossa personagem principal e narradora é muito pouco "heróica", muito pouco admirável, muito pouco coerente... É uma rapariga oriunda de uma família judia, mas que não é muito dada nem à religião, nem às pessoas, nem a coisa nenhuma, para dizer a verdade... É incongruente, mas é carente e cheia de boas intenções e desejos de auto-aperfeiçoamento... Uma personagem que podia ser qualquer das pessoas que encontramos na rua todos os dias. Ainda assim, é uma narrativa interessante e calorosa. Viva a Editorial Presença! =)

08/03/2014

"Vôo Final", de Ken Follett

 
Este senhor, o mestre, o rei, o supra-sumo dos thrillers (e dos Pilares da Terra)... este senhor deixou-me muito mal. Abandonei o livro. Eu nunca faço isto. Mas teve que ser. Abandonei a leitura à página 180, não se pode dizer que não lhe dei uma oportunidade... Mas se a história está a ser reles até à página 180, desconfio que não vá melhorar.
Não me puxava. Não vi uma história ou trama ou o famoso frio na barriga que os thrillers provocam. As personagens não me despertaram simpatia ou interesse.
Segunda guerra mundial; uma Dinamarca ocupada e uma fina rede de espiões que tenta apurar se os nazis têm no país ocupado alguma espécie de radar ou tecnologia que lher permite saber informações acerca dos movimentos da RAF britânica. Até aqui tudo muito bem, mas aquilo é uma novela. Um jovem Harald Olufsen, que é irmão de Arne, piloto da força aérea dinamarquesa, noivo de Hermia, que está na Inglaterra e lidera as operações de espionagem aos nazis, comunicando com Poul, que é namorado de Karen, por quem Harald se apaixona... Uma salgalhada! Medonho!

07/03/2014

"A Herança Bolena", de Philippa Gregory

 
Desta senhora já li "Duas Irmãs, Um Rei", "A Rainha Vermelha" e "A Rainha Branca"... A mulher é uma doida, especialista em literatura do sex. XVIII, mas com uma panca tremenda pela história da Inglaterra, sobretudo o período da Guerra dos Primos e da dinastia Tudor...
Todos os livros dela que li até aqui tinham o condão de nos transportar para a respectiva época; as narradoras sempre participantes, sempre contando a história na primeira pessoa, sempre femininas, num mundo governado por homens quase sempre cruéis.
Neste caso particular, a história é contada a três: após a tragédia da morte de Ana Bolena, segunda mulher de Henrique VIII, Ana de Cléves vem para Inglaterra para ser a nova rainha; ela é uma das narradoras; as outras são duas das suas damas de companhia, Jane Bolena e Catarina Howard que, por motivos diferentes, desempenham papéis importantes nos acontecimentos históricos narrados.
Há sempre uma mistura subtil de História e ficção, é muito envolvente e mesmo emocionante penetrar nos dramas e traições desta corte maravilhosa e cruel.
Desconfio que seja particularmente do agrado de leitoras femininas... digo eu... =)

23/02/2014

"Memórias de Um Mestre Falsário", de Graham Joyce

Participei num passatempo do Facebook cujo prémio era este livro; vi-lhe a capa e li a sinopse que encantam pelo despretenciosismo e graça:

 
William Heaney é uma fraude. Ainda assim, uma fraude cheia de charme. Escritor de talento, prefere escrevinhar poesia para um amigo (que se torna famoso à conta disso). Produz também primeiras edições falsas de obras de Jane Austen para espoliar os tolos e ambiciosos coleccionadores de primeiras edições. Mas não é maldoso. O dinheiro vai direitinho para um lar de sem-abrigo, e os seus crimes na verdade não fazem mal a ninguém. Há razões para não ter chegado mais longe. Quando jovem fez algumas coisas de que se envergonha.

Ah, e vê demónios!

Esta é a sua história. A história de um homem que vive com remorsos, que bebe demais, que é refém do seu demónio e é capaz de ver os dos outros: figuras sombrias, indistintas, esperando, alcandoradas no ombro das pessoas. À espera de um erro, de um momento de fraqueza… Entretanto, William aguarda sem saber bem o que aguarda. Algo que o resgate dos sofrimentos do mundo? O amor? Mas até lá, toma-se mais um copo?...


Fiquei à espera de uma narrativa mirabolante, cheia de salas escuras a cheirar a químicos e fugas apressadas às autoridades, assim ao estilo de "Apanha-me se puderes"... Apesar de não estar nem próximo disso, o que encontrei não me deixou insatisfeita. O palco é a cidade de Londres e são dadas, quase sem notarmos, todas as coordenadas, ruas e bares duvidosos onde o nosso protagonista se desloca, tendo uma especial preferência por bares ou pubs obscuros onde algum escritor famoso costumasse destilar a sua inspiração. Pode-se fazer um roteiro desses locais. É um pormenor engraçado...
William Heaney é narrador e protagonista; charmoso, sem dúvida, com um humor e sarcasmo muito tipicamente masculinos. Gosto disto. Gosto de romances que gritam que foram escritos por homens; falta-lhes algo de pegajoso que as escritoras femininas costumam ter.
Conhecemos o seu círculo de amigos e conhecidos, personagens muito diferentes, muito bem caracterizadas, correspondentes cada um ao seu próprio tipo. E pela voz de William são contadas, mais ou menos em simultâneo, três histórias diferentes: a do seu presente de mestre falsário, que afinal não o é assim tanto. É mais como um Robin dos Bosques da actualidade. A da sua juventude sombria, na Universidade, de onde vem a sua familiaridade com os demónios (que mais não são do que os medos e os fantasmas de cada um), e ainda a história de Seamus, um veterano da guerra do Golfo que tem um impacto brutal na vida de William.
 
O livro devora-se e, lamento dizer, mas o final luminoso e optimista deixou-me tremendamente insatisfeita. Não é que eu goste que aconteçam desgraças às minha personagens, atenção. Mas a história que se constrói ao longo do livro é densa e esperava um final a condizer, em vez de um em que tudo se sana e fica leve e feliz... Só tenho pena deste pequeno pormenor... pequenino...

14/02/2014

"Acácia - Ventos do Norte", de David Anthony Durham


Ora porra...gostei mesmo. E digo "ora porra" porquê?
Porque esta saga, composta de 3 volumes, foi transformada pela editora portuguesa em 6 volumes, sendo que cada um dos originais, foi dividido em 2. Deste modo, a curiosidade pela capa e pela sinopse levou-me a ler o primeiro volume, na esperança de não gostar da fantochada de um mundo todo alternativo e coiso... mas afinal gostei. E agora cá estou eu à caça dos seguintes volumes... Quem me manda pôr-me a jeito??

Acácia é a ilha a partir da qual é governado todo o Mundo Conhecido. As suas várias nações vivem em paz há 22 gerações, governadas pela família Akaran. Mas uma disputa antiga, que enviou uma velha família nobre de Acácia para o exílio nas terras geladas do Norte, é reacesa quando o Rei é assassinado e os seus 4 filhos separados e escondidos em locais seguros.
A aparente paz de Acácia é mantida graças a um pacto feito pelo primeiro rei com um povo vizinho, comprometendo-se este último a fazer entrar drogas no reino, que mantêm o povo dócil e fácil de manipular, em troca de um tributo de crianças acacianas que lhes são entregues periodicamente, para serem usadas presumivelmente como escravas.
É contra este sistema que os rebeldes do Norte se insurgem e o leitor é confrontado com um dilema moral acerca de quem são os bons e os maus da fita.

A elaboração desse Mundo Conhecido, diferente de tudo o que existe no nosso mundo, das suas culturas, tradições, religião, língua, foi feita de forma fascinante. Senti-me realmente "absorvida" por algo de diferente, cheia de curiosidade e empatia pelas diversas personagens... e não sei quanto tempo irá durar a angústia da procura dos volumes seguintes... Espero que não dure muito!

05/02/2014

"O Leitor", de Bernhard Schlink


Já vi o filme há bastante tempo, e desde essa altura me ficou uma curiosidade por ler o livro.
Talvez tenha escolhido um tempo um bocadinho infeliz, pouco depois de terminar a leitura de "Ele está de volta", que relata um hipotético regresso de Hitler e a retoma dos seus planos para dominar o mundo, e na semana em que se celebrou o Dia Internacional de Recordação das Vítimas do Holocausto, a 27 de Janeiro...
"O Leitor" é um livro que se sente. No período do pós-guerra, uma geração jovem vê-se a braços com o dilema de perdoar, ignorar ou condenar abertamente os crimes levados a cabo, activa ou passivamente, pelos seus pais.  Michael é um jovem invulgar, que conhece uma mulher invulgar em circunstâncias invulgares também. Começam uma relação que se pauta por encontros regulares em que ele a visita em casa, lê para ela páginas e páginas de livros e, depois, fazem amor... Este romance quase idílico tem um fim repentino, quando ela, Hanna, desaparece sem uma palavra. Anos mais tarde, enquanto frequenta o curso de advocacia, Michael volta a vê-la, numa sala de tribunal, sendo acusada, com um grupo de mulheres, de crimes contra os judeus nos velhos campos de concentração.
O livro é uma reflexão profunda do significado dos sentimentos e das emoções, do peso do nosso passado e da nossa capacidade de ocultar um segredo a todo o custo. É uma história de redenção e rancor e perdão. Um livro onde, me pareceu, a palavra mais repetida é "embotado". Parece uma contradição, um livro onde o narrador, o próprio Michael, afirma tantas vezes ter os sentimentos ou o pensamento embotado e que, no entanto, reflecte tão profundamente sobre os temas apresentados.
É pequeno. Lê-se bem. Leiam.

24/01/2014

"Onde Crescem Limas Não Nascem Laranjas", de Amanda Smyth


Comprei o livro em 2010... Sim, a sinopse agradou-me mas confesso, envergonhada, que me deixei levar assim que vi a capa... =)

Na altura, a leitura revelou um livro frouxo, como acontece tantas vezes. As ilhas de Trindade e Tobago são o palco onde se desenrola a história. Celia foi criada pela tia Tassi, porque a sua mãe morreu ao dá-la à luz e o pai é um inglês que nunca a conheceu. Sentindo-se sempre desajustada daquela vida, sonhando com o pai e uma vida em Inglaterra, decide fugir de casa, na aldeia de Black Rock, em Tobago, depois de ter sido violada pelo tio, um homem cruel e alcoólico. Parte para Trindade e ao longo do livro vamos acompanhando os seus dias, o trabalho, a descoberta do amor, das suas alegrias e da infelicidade do abandono... Sempre com uma previsão dada pela velha adivinha da aldeia a pairar sobre a sua cabeça como uma nuvem negra: o seu destino seria infeliz; quem amasse, iria partir-lhe o coração, assim como ela partiria o coração de quem se interessasse por ela.
Voltei a lê-lo nestes dias. Tinha a firme convicção de que me desagradaria igualmente e o destinaria a alguma venda ou troca pela internet. Mas soube-me bem!
A narrativa é lírica, quase noveleira. Encanta a descrição da natureza do arquipélago, das plantas, do calor, do quotidiano dos trópicos. Embora a heroína não desperte particular admiração ou empatia, fui-lhe seguindo os passos com certo interesse e compadeci-me do seu infortúnio. Quem sabe? talvez me tenha comovido por agora, ao contrário da primeira vez que li, saber o que é ter um amor e sentir o terror de o ver desmoronar? quem sabe?
Para já, não o vou vender ou trocar. Vai continuar na minha estante. A sua bela capa.

12/01/2014

"Ele está de volta", de Timur Vermes


Adolf Hitler acorda num baldio no meio da Berlim contemporânea, meio desorientado e com a farda a cheirar a querosene. Rapidamente se apercebe que algo de muito estranho aconteceu porque não há bombardeamentos ou ruínas; é ajudado pelo dono de um quiosque ali perto, que pensa tratar-se de algum vagabundo que se desentendeu com a mulher, embora se pareça muito com certa personagem histórica, até nos modos, e aquela farda que não lembra a ninguém...E assim começa esta história, narrada na primeira pessoa.
Desconheço os pormenores da vida de Hitler, mas li que o livro está muito bem escrito, num estilo que se assemelha ao do Mein Kampf , tornando-o arrepiantemente verosímil.
E é mesmo assombroso eu ter acabado por "simpatizar" com este herói involuntário que vê na segunda "oportunidade" que lhe foi dada de cá vir a prova de que ele iniciou uma demanda que só ele próprio pode concluir, desta vez servindo-se das tecnologias, a televisão e a internet. Nunca assumindo abertamente a sua verdadeira identidade, deixa as pessoas pensarem que é um comediante que leva o seu papel de interpretar o führer demasiado a sério e, num tom meio brincalhão, meio de mau gosto, vão sendo partilhadas connosco as interpretações que ele faz do modo como vivemos hoje, desde as nossas relações pessoais, até à economia europeia e a revolução tecnológica. É um livro de duras críticas e ironias aos nossos dias, feitas por um homem que, historicamente, cometeu das maiores atrocidades na tentativa de criar a raça e o mundo perfeitos.
Apesar disso, merece respeito por ser uma análise cuidada e quase minuciosa dos aspectos ridículos com que estamos habituados a lidar no nosso dia-a-dia, sobretudo no que respeita à falta de seriedade ou carácter da classe política.

26/12/2013

"A year in the merde - Um ano em França", de Stephen Clarke


Para contrastar com a seriedade das anteriores leituras, resolvi reler esta sátira bem disposta, acerca do ano* que Paul West**, um Londrino orgulhoso, passou em França com a missão de instalar uma cadeia de Salões de Chá ingleses em Paris.
Cada capítulo corresponde a um mês e, em cada um deles é explorado, ou denunciado, um aspecto da vida dos franceses, nomeadamente hábitos sociais e familiares, habitação, trabalho, as intermináveis greves, o sistema de saúde, a política corrupta e imoral...
É uma narrativa feita de clichês e ironias, mas era mesmo o que estava a precisar e, nesse aspecto, foi uma leitura refrescante...
É bem disposto, é leve... e aparece lá pelo meio uma porteira (ou concierge) portuguesa, Madame da Costa, senhora prestável, conhecedora de todos os mexericos das redondezas...

* O ano Francês, como é explicado no livro de forma bastante jocosa, começa em Setembro e acaba em Maio;
** Péssimos a falar inglês, os parisienses passam todo o livro a chamar-lhe Pol Wess

"O Velho e o Mar" de Ernest Hemingway

 
Primeiro livro que leio deste colosso... e confesso não ter ficado impressionada.
Do que tinha lido acerca do livro, nomeadamente o prefácio escrito pelo tradutor, tinha ficado com a ideia que seria uma espécie de "O Principezinho", tão simples de despretencioso mas, ou por isso mesmo, tão encantador, muito profundo, inesquecível e edificante.
Li mais de 100 páginas da luta absurda entre um velho pescador e um peixe gigantesco que morde o anzol mas se recusa a deixar-se pescar. É, mais do que perseverança, obstinação; o poder da experiência e da paciência, o respeito pelo mar e pela natureza, pelo próprio peixe que quer matar q«mas que ama, porque é irmão... É assim muito profundo, muito lindinho... mas não me tocou.
Alguém teve opinião diferente?

16/12/2013

"O Memorial do Convento", de José Saramago


Nunca tinha lido. Não fazia parte das leituras obrigatórias da área de humanidades quando fiz o Secundário. Ainda apanhei "os Maias", com a graça de Deus. Antes de mais nada, tenho pena, muita pena dos meninos que estudam esta obra. Não que ela seja má, mas é de uma eloquência e profundidade que, acho sinceramente, os nossos jovens desmiolados, a geração facebook, que só compreende abreviaturas, se vê muita à rasca para tirar algum sumo dali...
O senhor Saramago, como sabemos, era poupadinho com a pontuação. Não se vê nesta obra um ponto de exclamação, de interrogação ou um simples travessão... É só pontos finais e vírgulas. Considero questionável a qualidade de uma escrita assim, mas não quero entrar por aí. Maravilhei-me com o contador de histórias e História que narra esta acção. Uma acção simples, acerca da construção do grandioso Convento de Mafra, mas que se enrola e desenrola à volta do Rei que o mandou construir, como "paga" ao deus que lhe deu herdeiros, dos homens e das mãos que fizeram a obra e (tantos) morreram nela, do caso particular do Sete-Sóis e da Sete-Luas, amantes improváveis, e do frade Voador, que personaliza tanto uma revolução na velha incompatibilidade entre a Fé e a Ciência.
Gostei muito, em suma. E gostei de ver tão bem confrontados o poder do Destino e do que parece inevitável, com a Vontade dos Homens.

03/12/2013

"O Impressionista", de Hari Kunzru


Diz a crítica que este é o melhor primeiro romance inglês dos últimos tempos... Por muito despropositada que esta distinção possa parecer, o título, e a sinopse ajudaram-me a decidir lê-lo.
E e, realmente, uma narrativa magnifica. Acompanhamos a fabulosa vida de Pran Nath, nascido no seio de uma abastada família indiana, nos anos 20, um príncipe branco numa nação onde quão mais escuro tom da pele, mais miserável e desprezada a condição social. Inesperadamente, Pran vê-se mendigo, a viver nas ruas fétidas e imundas povoadas de mendigos e malfeitores, e assim começa a sua caminhada, primeiro rastejante, por alcançar um lugar digno na sociedade e no mundo. Este "impressionista" vai assumindo diversas formas e identidades, torna-se um ser frio, calculista e dissimulado e comove, por ser um anti-herói tão desafortunado. Este livro levanta algumas questões profundas sobre a importância real daquilo que valorizamos e ensina que, tantas vezes, o que pensamos querer é, na verdade, o oposto daquilo que nos fará felizes. Pelas peripécias, pela mestria com que aborda as emoções e mesquinhices do homem, pelo documento da sociedade indiana e inglesa do inicio do século XX, tão semelhantes ao que são hoje, vale a pena a leitura deste livro.

05/11/2013

"Cal" de José Luís Peixoto


Sim... tenho uma coisinha pelo Peixoto... Gostei muito do "Livro" e do "Abraço" e do "Nenhum Olhar"... este foi muito morninho...
Gostei dos contos, das mãos, dos tons cinza e da forma como ele vê a velhice, fazendo questão de nos mostrar que as mãos que hoje são cinzentas e velhas foram um dia jovens e delicadas. Fala sempre sob uma voz feminina. Encanta-me a sensibilidade de se colocar no corpo de uma mulher idosa. Fala do tempo e da solidão que ele traz. Gostei dos contos, alguns mais autobiográficos do que outros.
Não gostei da peça de teatro que vem lá pelo meio.
Abomino os poemas dele.
Mas, de resto, é o Peixoto... (suspiro do costume)
O livro é uma reedição de diversos textos que ele havia publicado anteriormente em revistas literárias, algumas delas traduzidas. Entreteu um pouco. Nada de extraordinário.

23/10/2013

"Sapatos de Rebuçado", de Joanne Harris

 
Antes de mais, siiiiiiiiiiiiim... vou voltar a escrever sobre os livros que leio... embora me tenha dado a preguiça nos últimos tempos (muito por culpa de agora ter um livrinho fofíssimo oferecido pelo mais-que-tudo para anotar todas as impressões deixadas pelos livros), confesso já sentir um bocadinho de saudades da troca de opiniões sobre as leituras...
 
Acabei há poucos dias de ler "Sapatos de Rebuçado", da Joanne Harris... Essa senhora com quem eu tenho um problema de indefinição, porque gostei muito do "Vinho Mágico" e do "Valete de Copas, Dama de Paus", mas achei "O Rapaz de Olhos Azuis" e "A Praia Roubada" enfadonhos... Toda a tremer, lá me atirei a este livro, obtido através de uma troca feita numa página do Facebook dedicada  a isso... E gostei muito... Gostei tanto que, enquanto leio o livro que estou a ler agora (e que ainda não vou dizer qual é) sinto saudades da atmosfera calorosa, colorida e com cheiro a trufas que encontrei neste livro.
Eu não li o famosíssimo "Chocolate", apenas vi o filme, mas este livro é como que uma continuação. Trata da nova aventura vivida por Vianne e Anouk, depois de terem deixado Lansquenet, levadas pelo sempre caprichoso vento do norte. Há magia, rituais, amuletos e "tsk tsk" na dose certa, que encantam sem roçar a fantochada. Surge uma nova e misteriosa personagem, Zozie, que vive a roubar identidades de pessoas mortas. E é ela, com a sua obsessão em roubar a história de Vianne, quem provoca um reencontro desta última com o passado e com o seu verdadeiro Eu, de quem havia fugido há muito tempo.
De forma bastante original, a história é contada a três vozes, sendo Vianne, Anouk e Zozie narradoras alternadas entre capítulos, o que nos oferece três perspectivas sobre uma mesma história.
Gostei, senti-me absorvida. E agora, se a tradição se mantiver, o próximo livro que vou ler desta senhora vai ser um rotundo desastre. Tremo.

09/09/2013

A Feira do Livro

Acontece normalmente no início de Setembro, cá no Burgo. No ano passado tivemos o Júlio Magalhães e o Ruy de Carvalho... Este ano o cartaz é mais modesto. Sinal dos tempos de crise.
Outro sinal é também o facto de a banca assinalada como PROMOÇÕES ou SALDOS ou LIVROS A 5€ ser cada vez maior. E acho bem. A Feira, normalmente, só é Feira de nome e os preços praticados não sofrem alterações relativamente ao normal. Acho bem que nas Feiras do Livro haja alfarrabistas e não apenas as livrarias XPTO do costume. Acho bem que haja saldos e rebaixas. Ao preço a que estão os livros, ler é considerado luxo...
Também é verdade que se lê por aí muito disparate e Sombras e coisas do dark side, vampirescas e sanguinárias e muito sensuais... (falta algo na vida desta gente, cá para mim...) A senhora da biblioteca costuma dizer que, nem que seja o rótulo do champô, o que é importante é que as pessoas leiam. Eu não acho isso muito bem. É como comer a sopa mas tirar as couves... Perde-se o objectivo principal. A ler, que se leia algo que edifique.
Fui à feira e por mais que fareje em todas as barraquinhas e sorria para as capas, venho sempre embora com uma pontadazita na alma. Porque olho tantas lombadas e fico a interrogar-me se ali estará algum potencial grande amor da minha vida... Dá vontade de agarrar nos livros todos, um por um, encostá-los ao ouvido para ver o que eles nos dizem, se nos atraem. Como fazemos com as pessoas. Quase. =)