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26/12/2013

Ho ho ho! Já passou o Natal!

...é... acho que este foi dos anos em que estive menos natalícia... Sim, a ausência de presentes ajuda um bocadinho a cortar o espírito, quer queiramos quer não. A parte da expectativa de descobrir o que vamos receber e de ver a reacção ao receberem o que oferecemos é uma das coisas mágicas do Natal. Mas os tempos não andam famosos e cada pessoa recebeu apenas um embrulhinho modesto...
A outra parte, a de estar com a família, saiu também furada... Como hei-de explicar isto sem soar terrivelmente cruel ou cínica? A tia que já todos pensavam que ia ficar solteira arranjou um namorado cujas mentalidade e personalidade se formaram há 500 anos atrás. Não contente com nos (des)agradar com a sua presença na Ceia, ele ainda trouxe a família dele (mãe e irmã e cunhado e sobrinha) que partilham a mesma natureza (ver acima referência sobre a mentelidade do dito). Portanto, a nossa Ceia e jogos e convívio foram feitos de conversa de circunstância puxada a ferros para que os convidados não se aborrecessem ou ficassem a pensar que somos doidos, que é uma das coisas que mais adoro em nós!!... Nada de piadas ou brincadeiras em família, nada de calor, tudo muito formal... Porra, que coisa mais morna.... de modos que não estive lá muito natalícia este ano.
Melhores dias virão. Ou não. Cheira-me que agora o programa vai ser sempre mais ou menos este...

06/11/2013

A minha mana vai trabalhar

A minha mana pequenina vai amanhã ter a sua primeira entrevista de trabalho... a minha mana pequenina que tem 18 anos e é mais alta e mais encorpada do que eu.
E estou tão preocupada e nervosa porque me dou conta que a minha mana que sempre foi negligente na escola, nunca teve o mínimo interesse pelo mundo, pelas suas pessoas, pela sua geografia, pelos seus mistérios e maravilhas, nunca soube ter uma conversa útil ou profunda sobre assunto nenhum, fez um curso profissional por falta de ambição para mais... o seu único interesse foi sempre única e exclusivamente o seu próprio umbigo e a vida (boa ou má) das restantes miúdas e rapazes da escola. A minha mana é da geração facebook, a geração que não sabe nada de coisa nenhuma mas sabe tudo de toda a gente sem na verdade conhecer ninguém. A minha mana é de uma geração fútil e eu sei que todos os irmãos mais velhos têm uma visão infantil dos mais novos. Todas as gerações mais velhas pensam horrores das gerações seguintes... mas eu duvido que alguma vez se tenha olhado com tamanho desalento para os mais novos, porque é um verdadeiro caso de falta de consciência, de falta de interesse ou valores, de falta de respeito, de falta de massa cinzenta a funcionar. Só é importante vestir como os outros, ter o que os outros têm, falar como os outros e criticar fotos e comentários e vidas alheias.
A minha mana tem muito que aprender. Tem que começar por aprender que nada é dado, antes deve ser merecido e ganho com esforço. Mesmo que tenha sorte e lhe dêem algo, não deve olhá-lo como um direito adquirido, antes como uma benção que deve ser valorizada e olhada com responsabilidade...
Ai, estou mesmo a ver a minha mana numa entrevista....

20/03/2013

Dia Internacional da Felicidade

Soa bem. Provoca um sorriso... ou um esgar de escárnio....
Eu sou feliz. Todos os dias. Mesmo naqueles em que sinto que não, porque aquilo que sou, a minha natureza pacata, linda e optimista, dizem-me que vai passar...
Nos últimos dias tenho sido mais feliz do que o costume; porque a minha felicidade era morna e constante. Agora é mais quente e borbulhante. E instável, também.
E aprendo a não a ostentar nem fazer dela alarde. Porque há nódoas, e fios repuxados... e sítios onde o tecido está gasto e frágil... Então convém ser prudente. Aprendi a lição. Mas isso não impede que, em silêncio, eu continue a desfrutar a minha fortuna. Pés assentes.
Num dia qualquer, o nosso cérebro bloqueia; caímos no meio do chão, apagados, e quem sabe se voltaremos a ser o que somos agora?
Por isso, sejam felizes hoje!

30/01/2013

Alguém sabe interpretar sonhos?

Esta noite sonhei que o pai voltava. O meu pai. O que já não vejo há coisa de 6 anos... Não sei como ou porquê. Mas estava cá em casa. E a casa era outra vez pequena demais para fugir... Ele voltava com os olhos raiados de vermelho, o cheiro a destilaria, a agressividade e o ranger de dentes.
Mas, ao primeiro sinal disso, em vez de fugir e esconder, como era hábito, eu pulei e empurrei-o até à porta e gritei-lhe impropérios de esconjuro...
Acordei satisfeita... ainda que um bocadinho abalada. Mas, sobretudo, satisfeita. Porque o meu Eu-Em-Sonhos deixou de ser passivo. E isso leva-me a pensar que o meu Eu-Real é isso e ainda mais.

06/10/2012

Apetecia-me mesmo.... #12


...que chovesse desalmadamente.
Uma chuva torrencial, constante, daquela que torna baças as luzes, que faz parar os carros e deixa as ruas desertas. Daquela que faz do alcatrão uma superfície negra com reflexos de espelhos.
Que caísse primeiro num sussurro e que fosse crescendo, crescendo, até se transformar num rugido. E que a terra, aliviada da seca, soltasse um longo ahhhhhhhhh..., audível só àqueles que, como eu, soubessem apreciar a chuva.
E que houvesse relâmpagos luminosos e, 4 segundos depois, a trovoada... uma trovoada que fizesse vibrar paredes e calasse o chinfrim dos pássaros que gritam lá fora, nas árvores. Uma trovoada daquela que faz toda a gente encolher-se e que me leva, a mim, para a janela...
Trovoada daquela que faz a minha avó dizer:

Santa Bárbara se levantou,
Seus sapatinhos calçou,
Ao caminho se botou
E encontrou um menino que lhe perguntou:
Onde vais, Bárbara?
"Vou espalhar a trovoada,
Lá para a Serra do Marão,
Que não dá palha nem grão,
E onde não há meninos a chorar,
Nem viúvas a rezar..."

Não me lembro do fim... nem sequer sei se as palavras são mesmo estas... Tenho que pedir à minha avó que mas dite...

31/08/2012

Quotidiano...

...a repetição do mesmo milagre.
A minha mãe está a cozer batatinhas, cenoura e a assar uma postinha de bacalhau... a televisão vai regurgitando as mesmas caras e as mesmas crises. Estou a jogar joguinhos da treta no pc e ouço por cima da música a voz da minha irmã que está na cozinha, a observar a minha mãe, a ajudá-la, supostamente, e a fazer comentários disparatados a tudo e mais alguma coisa... a rirem, as duas...
O cheiro que me chega aqui (dos cozidos e do bacalhau assado) faz-me lembrar o Natal. As vozes delas são leves e livres; está tudo sossegado, à excepção do burburinho na cozinha e da televisão que lá vai agitando os seus braços assustadores, mas que nós ignoramos... Fala para aí...

Eu interrompi o meu joguinho da treta porque me dei conta da maravilha que está a acontecer neste momento, deste equilíbrio despreocupado, e tive que vir descrevê-lo... Não preciso de muito mais. Há dias diferentes, em que eu própria sou diferente e exigente, mas esses são raros. Gosto mais destes dias assim...

19/07/2012

Ter uma mana mais nova...

...continua a ser maravilhoso... =)

Lembram-se desta?
Bem mais humilde mas, mesmo assim, adorável foi o presentinho de hoje que, segundo ela, estava lá no cantinho da loja mas como que a chamou e ela não resistiu! Teve que comprar porque sabe que aqui a je delira com os Angry Birds...


Não é fofinho??!
É uma bolsinha para o telemóvel, caso não seja evidente... e é felpudinha por dentro... e é verde. E faz pandam com a minha t-shirt Angry Birds...e tudo e tudo!

02/06/2012

A melhor do dia... quiçá...?

Sabem aquela coisa que nós agora fazemos de, quando desaparece o telemóvel, damos-lhe um toque a partir de outro telefone para ouvir onde ele toca...? Isto está de tal forma entranhado no meu sistema que depois dão-se casos destes: A minha mãe andava à procura dos óculos para ler... Como não os encontrasse, e eu farta de a ver andar para um lado e para o outro, tenho uma ideia que, felizmente, percebi ser absurda antes de a verbalizar... Mas não me impediu de rir e depois, claro, lá tive que a contar na mesma... Pois a minha ideia foi:
Dá-lhes um toque!

22/05/2012

Já dizia o meu querido avô...

(normalmente, quando se referia ao meu pai)

Tu és como a vaca... Pode dar muito leite... Depois vai e dá um pontapé no balde... P*** que pariu a vaca...

05/05/2012

Dias assim...

São os dias assim... Os dias em que acordo e começo a tremer ainda antes de sair da cama, em que os olhos pesam e as mãos não aquecem, em que me sinto alerta, com todos os instintos de fuga a gritar; em que respondo mal à minha mãe por coisa nenhuma, só porque ela não sabe adivinhar que estou assim... São os dias assim que fazem de mim a pessoa mais horrível e intratável do mundo. Um bicho do mato. Uma anti-social irremediável. Tenho que lhe pedir desculpa...

28/04/2012

A batedeira

Hoje já nada se fabrica para durar muito tempo... se o guarda-chuva tem uma vareta partida, vai para o lixo, mas eu ainda tenho memória da infinidade de guarda-chuvas que o meu avô arranjava nos tempos livres... Os sapatos! "Recauchutavam-se" e duravam mais um ano. Hoje, não. Duram uma estação e depois desfazem-se, descolam-se, perdem forma e cor. Nada a fazer...
Cá em casa as coisas até tiveram sempre um período de vida relativamente longo. Tivemos sorte. E também tratávamos as coisas com jeito. A minha mãe mantém tudo limpo e arrumado; nunca desliga as fichas puxando pelo fio e segura sempre a tomada, para que não se solte. Limpa muitas vezes os filtros do exaustor e do aspirador; frigorífico e congelador são limpos a fundo pelo menos duas vezes ao ano. Nunca ficam migalhas do pão na torradeira e não se aquece nada no micro-ondas sem estar tapado.
Mas houve um acontecimento, ou coincidência, engraçado... No ano em que a minha mãe finalmente decidiu pedir o divórcio do meu pai, tudo... repito: tudo cá em casa começou a avariar fatalmente. Ele foi a máquina de lavar a roupa, a máquina do café, o grelhador eléctrico, a torradeira, a picadora, a varinha mágica, o aspirador... Nem sei o quê mais... Num curto espaço de tempo, as coisas foram, uma a uma, dando o berro... Na altura, a brincar, até dizíamos que era praga lançado por ele, por termos ficado com a casa.... "Ficado", é como quem diz. A minha mãe teve que lhe dar em dinheiro metade do valor do apartamento e recheio...
Enfim... foi tudo pró catano... Excepto a batedeira. Hoje olhei para ela de forma consciente, enquanto lavava as varetas pela milionésima vez, depois de ter ajudado a minha mãe a fazer uma mousse de ananás.
A batedeira, que tem escrito na caixa, a caneta azul,

data venda
19/03/88

E a assinatura do vendedor. Esta batedeira chegou à minha casa antes de eu ter um ano e meio. E foi com mãozinhas pequeninas que a segurei pela primeira vez... nem tenho memória disso. Sei que ficava a ajudar a minha mãe a bater os ovos, na esperança que no fim ela me deixasse rapar os restos com o salazar. "Chama-se salazar porque rapa tudo, e o Salazar também era um homem muito poupado... Bate bem no fundo, não levantes a batedeira...", dizia-me ela. Hoje já não preciso de ouvir esses conselhos. Sei-os de cor. Bato claras em castelo bem firme em três tempos. E continuo a chamar o salazar de salazar, embora nas cozinhas fora de casa ouça chamá-lo "rapa". "Passa-me aí o rapa"... Tem alguma graça...?

Esta batedeira é um achado, em tesourinho. Feito para durar uma vida. Ou boa parte dela. Já não se fazem assim...

02/09/2011

Lindo...?

MEU!
Isto de ter uma mana mais nova, às vezes, é maravilhoso...

01/09/2011

Bicho do Mato

Sou.
Eu sei. Eu já sabia, só que não me lembrava.
Ninguém merece viver comigo porque eu também não sei viver com ninguém.
Chegar a casa a pensar que vou comer deliciosos Redon* e descobrir que já foram comidos deixa-me mal disposta para o resto do dia, quiçá da semana? Não estou a ser mesquinha. O jantar foi para dois, a dose dava para quatro, eu comi pouco, e não haver nada no dia seguinte... é de me atirar ao ar!
Chegar a casa e ver que aquela velinha cheirosa que comprei já foi encetada enquanto eu nem estava em casa, põe em desatino os meus instintos possessivos mais básicos.
Já para não falar de chegar a casa e ter uma chave enfiada no lado de dentro da porta... quando a ocupante da casa está de fones... (será que é phones?)
Acabou o sossego, acabou a previsibilidade das coisas, acabou eu deixar algo à mão de semear porque, quando voltar, já terá passado um furacão que mudou tudo de sítio e espalhou meias e sapatilhas e elásticos de cabelo em todas as divisões da casa.
Coisas inúteis como pastilhas elásticas e bandoletes estão em cima da mesinha da sala, quando o que eu queria lá era o meu livro, para lhe pegar quando me sento no sofá... onde é que ela pôs o meu livro?
Sou Bicho do Mato, pronto... Começa a chegar a hora de arranjar a minha própria toca.

* Redon: Forma erudita de dizer "restos d'ontem".

09/05/2011

Ainda quero saber o que acham...

Parece uma canção de namorados... A mim, sempre me pareceu uma canção para a mãe.
A pretexto agora do desafio da Fábrica, sempre quero ver o que acham dela...



"Pelo Céu, às cavalitas
Escondi nos teus caracóis a estrela mais bonita que eu já vi

Eu cresci com um encanto de ser caçador de Sóis
Eu já corri tanto, tanto, para ti

Fui um príncipe encantado, montado nos teus joelhos
O eterno enamorado, a valer

Lancelote de algibeira, mas segui os teus conselhos
Pra voltar à tua beira e ser o que eu quiser

Os teus olhos foram esperança, os meus olhos, girassóis
Fomos onde a vista alcança da nossa janela

Já deixei de ser criança e tu dormes à lareira
Ainda sinto a minha estrela nos teus caracóis."
"Caçador de Sóis", Ala dos Namorados

31/03/2011

Pedido urgente

Querido Deus,

Eu sei que tens sempre muito que fazer. Sei que todos os dias as pessoas Te invocam e se dirigem a Ti a fazer pedidos e promessas, e não raras vezes Te insultam por nem sempre as atenderes.

Tu lá sabes e tens razões que nós não conseguimos compreender e eu tento com todas as minhas forças agradecer o que tenho, mais do que pedir aquilo que quero.

...Mas desta vez precisava mesmo, MESMO, que me desses uma atençãozinha especial. Eu sei que grande parte dos pedidos que recebes têm a ver com isto e porque raio haverias de me dar prioridade a mim desta vez? ...mas esta semana tem mesmo que nos sair um prémio jeitoso no Euromilhões. Tem que ser esta semana. É a última oportunidade. Já temos jogado algumas vezes (não com muita frequência, certo) e nunca Te tenho importunado com estes pedidos reles. Mas desta vez é diferente. Desta vez faria toda a diferença. Desta vez faria com que a minha mãe não se fosse embora novamente na segunda-feira. Faria com que nós não andássemos nesta ansiedade pesada e destrutiva, nem andássemos tristes, nem chorássemos mais. Nem é preiso que seja um grande prémio... Não. É só preciso um pouquinho, só o suficiente. Não me importo que haja 1000 premiados, se entre eles estivermos nós.

E ficaríamos felizes com tão pouco, por tão pouco, e agradeceríamos todos os dias.


Por isso, querido Deus, olha para nós com bondade e aponta para nós a luz abençoadora do Teu dedo. Só desta vez. Tem que ser mesmo desta vez.

Obrigada por caminhares connosco, por tudo o que somos e tudo o que temos... mas que desta vez não é suficiente.

Fica sempre comigo.

15/12/2010

esquisitices

O despertador interrompeu-lhe o sonho a sangue-frio, estridente e irritante como sempre, como todos os dias. O primeiro reflexo foi puxar a manta para cima da cabeça e fingir que não tinha ouvido. Mas isso implicaria ficar por casa... Credo! Levantou-se e dirigiu-se "à casinha" para gelar ao ver a tampa da sanita aberta. Repirou fundo; o dia estava a começar, não vamos amargar logo de manhã... Arrastou-se até à cozinha rogando a todos os deuses, entidades sobrenaturais, vizinhos de cima e carros da rua que ainda ninguém lá em casa estivesse acordado. Preparou o pequeno-almoço em sossego e bebia beatificamente o seu café (Expresso, bem tirado, por Deus! Nada daquela treta de água escura que sai das cafeteiras do tempo da avó!) quando aparece o elemento sénior da família ainda de remelas nos olhos: "Bom dia!", cheio de boa disposição ao antever mais um dia ocioso. Eriçaram-se-lhe todos os pêlos do corpo ante tamanho despropósito e encolheu-se disfarçadamente dentro do pijama coçado a pensar "será que já me viu?". Conseguiu emitir um afectado "hummm" de resposta, que esperou ser suficientemente expressivo para desencorajar réplica. Não haveria de tardar muito a cair ali toda a gente, a esfregar os olhos, de cabelos descompostos, a contarem os sonhos hilariantes que tinham tido. Tinha que fugir. Rapidamente. Vestiu-se. Fez a cama. Ainda estava quente mas melhor assim do que ser outra pessoa a fazê-la, que nunca tinham o cuidado de esticar os lençóis como devia ser e consideravam de bom gosto deixar as almofadas artisticamente tombadas. Que cócegas... Passo seguinte: quarto-de-banho. Oxalá a toalha onde vou limpar a cara esteja seca e limpa e pendurada direita no toalheiro. Oxalá a pasta de dentes não tenha sido apertada pelo meio. Oxalá não haja cabelos alheios na minha escova. Oxalá o tapete esteja alinhado com os riscos da tijoleira. Oxalá todos estes pressupostos se verificassem. Nunca se verificavam.
Saiu, finalmente, de casa! ...não sem antes dar um toque com o pé no tapete da entrada que, invariavelmente, não estava alinhado com a tijoleira. Neste ponto pensava sempre: "a minha casa há-de ter o chão liso. Completamente liso, para não ter a paranóia de alinhar tapetes com tijoleiras... Oh, mas que porra... Se não for pela tijoleira, hei-de alinhá-los pelo rodapé. Mas eu quero enganar quem?".
Paragem do autocarro. Foi um sério teste de resistência tolerar aquele indivíduo com catarro crónico que não cessava de brindar os presentes com sons emitidos directamente do mais fundo da sua garganta. Não encontrou lugar sentado no bus, pelo que se encostou a um canto, mas isso não impediu que passasse toda a viagem a receber toques e encontrões pelos lados. Mais do que com os toques em si, arreliava-se com o facto de nenhum dos agressores mostrar minimamente incomodado com o contacto. "Parecemos botijas de gás, apinhadas numa caixa aberta qualquer", pensou com desconsolo.
Trabalho. Hora de almoço. Trabalho, parte II.
Regressar a casa... Novamente o magote de pessoas enlatadas no mesmo bus, com a agravante de que a frescura matinal já se foi. Os homens já vêm de colarinhos desabotoados, a cheirar levemente a suor e as senhoras com a maquilhagem borrada. O colega, que vem no mesmo autocarro, sussurra-lhe uma piadita desinteressante qualquer ao ouvido e o calor da respiração na pele do pescoço faz-lhe assomar à cabeça uma resolução: "Tenho que arranjar carro... ou uma doença contagiosa qualquer que desencorage este tipo de atrevimentos e invasões de espaços vitais."
Chega a casa para a avalanche de perguntas sobre a jornada, como se fosse de esperar qualquer novidade. "Foi um dia normal...", remata com sorna. A tia andou em limpezas: lá estão novamente as molduras de fotos, jarros com flores, livros e todos os tarecos decorativos artisticamente colocados de viés, em cima dos móveis e estantes. À sua passagem, vai endireitando tudo, de forma a ficar tudo em linhas paralelas ou perpendiculares à borda do móvel.
Conversas. Barulho. Risos. Oh, sorte... Fecha-se no quarto simulando alguma tarefa importantíssima e inadiável, fazendo a sua aparição apenas para jantar. E recomeça tudo.
"Não, pela enésima vez, não quero que me sirvam a salada. Vão encher-me o acompanhamento de pingos de azeite e vinagre. Córror!". A avó, na falta de insulto mais rebuscado, remata com um "ai, estes jovens agora são uns enjoados" que vai alternando com um "é a fartura que faz o galo galego". Para sobremesa, procura uma peça de fruta. Não uma qualquer. Deve ser "A" fruta. Imaculada. Intocada. Sem manchas ou pisaduras ou picadelas de bichos ou pássaros. Madura, sem estar mole. E fresca do frigorífico, sempre. Nova onda de comentários à esquisitice.
Depois insistem em "ajudar", dizem eles, a preparar a banca para lavar a louça. Amontoam os pratos sem terem o cuidado de raspar os graõs de arroz todos (todos, mesmo) para o lixo e sem despejarem as últimas gotas de vinho dos copos. Depois de acabarem de ajudar (?!) sentam-se e, inspirando fundo e expirando lentamente, cabe-lhe a si, passar tudo por água como deve ser, antes de encher a banca, a menos que se queira habilitar a ter grãos de arroz flutuantes na água da lavagem, turva pelo vinho tinto.
Enquanto está nesta faina, vai ouvindo as conversações em português reles que se vão passando na sala. Uma a sugerir preparar umas "hamburgas" para o almoço de amanhã; outra a contar da vizinha que vai fazer uma "biópse"; alguém queixar-se da juventude, que está cada vez mais "remusgona"...
Acaba de arrumar a cozinha a correr e vai agarrar num livro. Fica na sala (para não receber o rótulo de anti-social) com esta desculpa formidável para não responder a comentários ou participar em conversas... Isto, esperando que já tenham desistido dos comentários de "tanto lês! Vê se descansas essa vista! Parece que comes livros!"
Espera que todos vão para a cama. Aí, sim... Silêncio. Paz. Estica-se no sofá...que ainda está quente de toda aquela gente que lá estava plantada há horas. Vai para o quarto. Fecha os olhos. Sente o frio na pele enquanto tira a roupa para vestir o pijama. Deita-se, finalmente. Agarra com força a almofada e, no limiar do sono, toma uma decisão: "Amanhã, compro uma arma..."

06/12/2010

Ira

A ira é um sentimento admirável.
É menos requintada do que o ódio e menos impulsiva que o ciúme, é certo; mas destes três, é a minha favorita. O ódio tem raízes profundas e é destrutivo a longo prazo. O ciúme é um atrofio crónico numa mente doente e é sempre originado em favor de uma outra pessoa ou objecto, o que é desprezível.
A ira, não. A ira fala na primeira pessoa. Eu encho-me de ira por mim. A ira é egoísta e narcisista. Faz um cordeiro rugir que nem um leão; é uma corda que vibra de modo intenso e irracional e que dissolve no seu reverberar toda a razão e bom-senso.
Sinto-me irada. Tem sido a palavra que me electrifica a mente nos últimos dias: IRA. Pelo que não posso, pelo que não quero, pelo que me obrigam. Por revolta, por desprezo, por rebeldia, por simples insubordinação ridícula e teimosa. Sou isto tudo, abominavelmente caprichosa.
E o pior é que não me envergonho. É outro dos requintes da ira: o sentimento avassalador que tudo justifica e legitima, mesmo que não tenha razão nenhuma.

31/07/2010

Tive um sonho

Há duas noites sonhei que a minha mãe estava morta. Não digo "sonhei que morria" porque não me apercebi do quando nem como ou porquê. Só sei que estava na minha vida e a voz de alguém disse "a tua mãe está morta". E pronto. Eu não ia vê-la mais.
Quando, esporadicamente, sonho que alguém me morre, acordo lavada em lágrimas e passo o resto do dia a pensar nisso. Esta vez não foi excepção mas, ao pensar no assunto, apercebi-me que eu não chorava por sentir a falta dela ou por saber que não ia voltar a vê-la. A coisa que não me saía da cabeça era que ela tinha morrido assim, de repente, tão jovem, e sem levar nada da vida. A minha mãe, que sempre se sacrificou tanto, que sempre trabalhou, que teve um mau marido, que teve depressão, que viveu anos reduzida a um frangalho, fraco e aterrorizado sem no entanto poder em momento nenhum baixar os braços e descansar, que me viu a mim definhar todos os dias pelo mesmo motivo, culpando-se por não pôr um ponto final na situação... A minha mãe que foi jovem e bonita e queria ser costureira e que na vida pouco realizou que fosse totalmente seu desejo e de forma totalmente egoísta, para si, para o seu bem, para sua alegria.
Tenho saudades da minha mãe.

27/05/2010

Voltei!

Prontosss... acabou... já deixei a mamãe outra vez. Mas não há-de ser grave. Daqui a menos de 2 meses é a vez de ir a mana e, assim, já fica o fardo mais leve outra vez...
E vim de avião.
"Não rastejes se sentes o impulso de voar", e eu segui à letra... =)
Estou cansada e a actualizar-me... Mas daqui a 2 dias já estou fina...

05/04/2010

Alegria Pascal

Uma semana de imenso trabalho e trabalhos fora do trabalho, as actividades ligadas à Páscoa, a partida da mãe, família para passar a Páscoa cá em casa... E eu aguentei tudo muito bem, diga-se... Gosto da Páscoa. Gosto da alegria, dos Aleluias, da Missa da Ressurreição, longa mas soleníssima... Enfim... Tudo isto terminou hoje. Foram dias frenéticos e, depois, em menos de 2h já toda a gente tinha ido embora.
Precisava ficar só. Precisava de um tudo-nada de egoísmo. Por isso, aproveitando ter ficado sozinha em casa porque a mana foi dormir a casa da avó, fiz duas aulas seguidas no ginásio, cheguei a casa feita num 8, jantei sentada no sofá, tomei um duche ultra demorado, besuntei-me de creme, vesti o pijama e deitei-me no sofá com o computador...
É óptimo assim.
Não o estar sozinha. Não o estar cansada. Mas o não me sentir mal... ou melhor, sentir-me bem por estar assim.
Em dias como hoje, eu sinto-me grande. Sinto-me capaz.