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24/12/2012

A soothing song

Calma, pequenina...
Tudo passa. Não há mal ou terror que sempre dure, nem as horas negras que se arrastam na noite demorarão indefinidamente... Dá mais uma volta, respira fundo, controla os batimentos desvairados do teu peito e abdomen, acalma os tremores que te desassossegam pernas e braços... Respira e diz para ti todas as palavras confortantes que precisas ouvir... Convence-te do teu Poder. Acredita nele. Acredita na força da tua vontade, na absoluta certeza de que um "não" pronunciado pelos teus lábios tudo pode acalmar.
Ninguém te persegue, ninguém te fustiga... Não temas. Não temas agressores e, sobretudo, não temas o que te querem bem. As palavras amáveis, os gestos grandiosos e os sorrisos reconfortantes não precisam ser "pagos". Eles são-te dados gratuitamente e basta sorrires-lhes para que o dador se sinta recompensado. Não temas, não osciles sob um peso que te convenceste que tens que carregar.
Não penses demais.
 
Eu sei... Eu sei que não funciona assim. Que é doloroso. Fisicamente doloroso. E que o medo do imprevisto é esmagador. E que, para o escorraçares, tentas prever todas as situações possíveis, o que é esgotante. Eu sei que não existe um botão de desligar. Eu sei que quando dás por ti já estás a ser sacudida, sem aviso ou hipótese de recuperação, por um vendaval que te absorve toda a sanidade e dilui as proporções do mundo real. E és enorme e têm um peso maciço todos os teus gestos, todos os aspectos ridículos da tua existência, bem à vista de todos... Oh, poder ser invisível...!
Outras vezes, és minúscula, e o mundo dança a um passo que não és fisicamente capaz de acompanhar... Uma intensiva mascarada que te suga a energia e te cansa os músculos da cara.
Porque é que tão poucas vezes te sentes do tamanho certo??
 
Não temas a noite, não penses que o desassossego escolhe a hora em que te recolhes, indefesa, para te vir incomodar... Nem temas o dia, não fujas da luz nem das pessoas que ela traz...
Tem confiança em ti, pequenina. Não fujas das felicitações, elogios ou abraços que vês virem na tua direcção... Não te vão magoar, nem virar contra ti no último instante.
Olha para ti. Estás um ano mais velha. Sentes a idade que tens?

03/12/2012

Adivinha o que é...

É das coisas melhores do mundo. Das mais naturais e espontâneas.
É inata. E o que é inato é, normalmente, além de bom, necessário também. Que não haja tabus. Travo há anos uma luta morna mas persistente contra a destruição deste tabu. É necessário. É libertador. É uma necessidade, uma inevitabilidade, às vezes.
É um sinal que o nosso corpo se tornou pequeno para conter aquilo a que o forçaram. É um sinal de que o medidor de pressão interno está no nível vermelho, o que indica "PERIGO" e, ao cedermos ao impulso irresistível, vamos fazer esse alarme parar de tocar e folgar um bocadinho.
É um momento muito nosso, de cada um, em que nos concentramos no ritmo da nossa respiração, para não sufocarmos, em que não conseguimos falar... que maravilhosa a certeza de que não nos serão exigidas palavras enquanto dura!
Quando termina é como se uma maré muito cheia vazasse, finalmente. Surpreende-nos a acalmia que se propaga por todo o corpo depois da grande convulsão.

Chorar.

Apercebo-me que, ao lerem o que escrevi, é compreensível que as vossas mentes tenham vagueado por alternativas muito diferentes... Juro solenemente que não escrevi de forma a alimentar essa ambiguidade e paralelismo. Não é interessante, como as coisas são??

29/11/2012

Post que não foi

Eu vinha escrever... Mas não vou. Não vou fazer mais um post cansativo a tentar explicar os meus desvarios mais para minha própria compreensão do que para quem me lê...
Não vou dar tempo de antena a terrores artificiais e ansiedades fúteis de sítios que ainda não vi, de palavras que ainda não ouvi, de gente que não vejo... As pessoas de todos os dias metem-me medo; os cheiros são todos intoxicantes; as cores são todas estridentes; as paredes demasiado apertadas (ou demasiado frágeis, se o objectivo for proteger-me dentro delas); os espaldares das cadeiras, sufocantes; as palavras, plásticas; a minha respiração, ofegante; as minhas mãos geladas; a minha pulsação, desvairada. Ansiedade, pânico, claustrofobia são palavras muito feias mas demasiado leves e curtas para exprimir... E, enquanto tudo isto me passa pela cabeça, por uma ridicularice, só porque um gatilho foi pressionado, as pessoas continuam as suas conversas e interacções e movimentos...
Faltam-me as palavras e esta insanidade indizível, vinda sabe-se lá de onde, paira por aqui, dona do pedaço, mais por sugestão, porque já aconteceu antes, do que por alguma ameaça real e premente...
Quão avariada sou? E, por me ter dado conta disso, de que dou demasiado tempo de antena a esta treta, resolvi não escrever este post... Mas já que aqui estou, não resisto a partilhar um tesourinho do Facebook que, dadas as circunstâncias, parece ser sobre mim:

16/11/2012

Luz...?

(imagem do filme "The New World", retirada de http://filmgrab.wordpress.com/movies-a-z/)

...não é irónico que, sendo tu Luz, sejas também a única responsável pela existência de sombras?
 
Que as sombras onde me movo sejam sempre de protecção, de onde eu possa ver e habituar-me à Luz. Que sejam sempre assim e não sinónimo de escuridão.
 
 
 
Hoje, numa brincadeira, caí e dei uma valente cabeçada no chão... já passaram horas e ainda a sinto latejar, tanto no sítio onde bati (nuca) como no lado oposto (testa)... Qualquer incongruência deve ser, por isso, perdoada...

16/08/2012

Fogo de Artifício

...somos todos nós. Eu apareci, como pediram. E vocês receberam-me com naturalidade, que foi mais e melhor do que eu pedi. Como se eu pertencesse ali ainda. Como se vocês fossem iguais.
Se são iguais, não me interessam. Se me interessassem, não vos teria abandonado.
A nostalgia e as saudades dão comichão, mas longe é o único sítio onde garanto a minha sanidade e poupo o meu âmago a mais dores.
Somos fogo de artifício. Duramos um momento que parece eterno, enquanto as luzes fazem ricochete cá em baixo e o som ecoa em volta, mas logo nos extinguimos. Cada um para seu lado, cada um da sua cor, cada um no seu devido tempo.
Estou cansada. Não de abuso físico mas de exaustão emocional... Desgaste. E saudades de quem fomos antes de sermos o que tornou inevitável o que somos hoje.


23/07/2012

Para a "Adorable One"

Chego à conclusão que isto, isto tudo, a Vida, ou lá como lhe chamam, se assemelha terrivelmente a um bailado. Cada um tem o seu próprio ritmo e o seu próprio estilo a executar e tentamos, até à exaustão, fazê-lo coincidir com o do vizinho do lado, para não termos que enfrentar o terror do som e das luzes sozinhos. Estendemos a mão confiadamente, mas e se outra não estiver lá à  nossa espera? É difícil e desgastante encontrar uma sintonia como a nossa. Temos apenas uma de duas hipóteses: lideramos e esperamos que alguém tenha a humildade de se adaptar a nós, ou andamos nós esquecidos do nosso esquema e procuramos adoptar o de alguém. Queremos um parceiro. Alguém que esteja à espera que terminemos a volta para voltar a segurar-nos com força, não estarmos sujeitos ao escrutínio dos observadores que se encostam nos cantos...
Um tremendo bailado onde cada um ouve a sua própria música. Será legítimo condenar os que não conseguem ou não se esforçam por sincronizar a vida com a nossa?
Eu gosto mais de dançar sozinha. Só sei dançar acompanhada as músicas populares do 14 de Agosto. No mais, a perspectiva de ter um par deixa-me nervosa. É um par de olhos e de mãos e de pés, sabe-se lá o que mais, a quererem coordenar-se com os meus. Danço só, modestamente, sem picos eufóricos mas também sem pisadelas.
Como danças tu?

05/05/2012

Dias assim...

São os dias assim... Os dias em que acordo e começo a tremer ainda antes de sair da cama, em que os olhos pesam e as mãos não aquecem, em que me sinto alerta, com todos os instintos de fuga a gritar; em que respondo mal à minha mãe por coisa nenhuma, só porque ela não sabe adivinhar que estou assim... São os dias assim que fazem de mim a pessoa mais horrível e intratável do mundo. Um bicho do mato. Uma anti-social irremediável. Tenho que lhe pedir desculpa...

29/09/2011

Doentinha

Éééééé... estive com um pé na cova na última semana... Pronto, exagero. Foram só três dias. Quanto à parte do pé na cova, é verdadinha. Era assim que me sentia e, pelos comentários compadecidos dos que me encontravam, o meu aspecto era condizente...
Tudo começou no Domingo, após um faustoso jantar de lombo assado com castanhas em casa da avó, que pode, ou não, ser o culpado do meu infortúnio... Certo, certo é que passei os últimos 3 dias de aparelho digestivo totalmente desarranjado, dores constantes por tudo quanto era lado, fraqueza... enfim... Dizem agora que anda mais gente assim e que é capaz de ser vírus, mas a mim tanto se me dá ser parte da epidemia ou ser caso isolado. A dor dos outros não me conforta.
Foram 3 dias longos e dolorosos, dos quais só hoje acordei com um ligeiro alívio... Mesmo assim, e porque todas as experiências são enriquecedoras, mesmo as dolorosas, aqui vai a lista do que aprendi neste transe:
  1. gosto de apanhar soro. Nunca tinha precisado de nada disso, de modos que pensei "pronto, é desta que me morro" quando, no hospital, a enfermeira, muito simpática, vem com o saquinho na minha direcção... Afinal, foi uma das experiências mais agradáveis da minha vida. Foi a eliminação gradual, mas rápida, de todo o desconforto, cansaço e dores. Um oásis no deserto inóspito que estava a ser o meu dia. 40 minutos de total relaxamento e recarregar de baterias. Maravilha... Viva o buscopan!
  2. sou um bicho solitário. Sofro só. Não quero ocupar os outros com os meus achaques nem quero que me vejam quando não estou no topo da minha forma, física ou intelectual. Não sei qual das duas pesa mais; sei que recusei toda a ajuda e acompanhamento e não avisei ninguém do meu estado. Há quem goste e precise de ser apaparicado. Eu não. Se calhar houve uma pessoa ou outra que ficou um bocadinho sentida comigo, mas que posso fazer? Se sinto que vou virar o barco, dispenso audiência... =)
  3. tenho pouca ou nenhuma tolerância à dor. Pelo menos, já vi várias vezes pessoas com dores que imagino serem piores do que as que senti, e não fizeram nem metade das caretas ou lamúrias que eu fiz... nem passavam o dia a dizer "a vida é dolorosa", como eu.
  4. sou uma péssima doente. Difícil de tratar, quero dizer. Isto porque, todas as comidas que me indicavam que seriam menos agressivas me desagradavam e me enjoavam... Canjas, sopas brancas, arroz cozido e semelhantes... Fico pior com a cura do que da doença em si.
  5. e último: por estar tão fraca, tinha que falar muito baixo, em tom monocórdico, e fazer pausas para respirar de 4 em 4 segundos, caso contrário, sentia tonturas. (Isto é muito contrário ao meu habitual, que é falar alto, de forma muito expressiva e veemente, a gesticular freneticamente e sem respirar durante 2 minutos.) Há aquelas pessoas que falam sempre, SEMPRE, como eu na minha versão doente. Se isso antes me enervava, por achar que eram pessoas frustradas, desanimadas, moscas-mortas e outros nomes feios, agora vou ser compreensiva. Quem sabe se essas pessoas não andarão permanentemente no estado em que eu me encontrava? Tenho que ser mais simpática com elas...

11/09/2011

11 Set - 10º aniversário

No princípio, a Humanidade era una.
E o Homem reconhecia o seu semelhante e distinguia-o dos outros animais pelos dons que lhe haviam sido dados: pela postura erecta, pelas mãos ágeis, pelo sorriso, pela voz.
E o Homem formou tribos, sociedades, uniu-se e trabalhou para o Bem comum.

Depois, chegou o tempo em que o Homem já não se reconhece a si próprio e usa a sua postura para ameaçar, as mãos para esmagar, o sorriso para escarnecer e a voz para amaldiçoar.
Como chegámos a isto?

24/02/2011

Quando choro

...não me olho ao espelho. Não quero ter na memória a imagem de que chorei. Não que chorar seja mau. É purificador e necesário, até. Mas não quero lembrar o motivo que me fez chorar.
Nem tenho o hábito de beber as lágrimas que me caem nos lábios, como alguns. Cada lágrima contém em si um pouco do que nos é tóxico e, bebendo-as, estamos a interiorizá-lo novamente, renovando o ciclo.
Nem deixo que me vejam chorar; não quero um lembrete personificado, piedade ou compreensão.
Choro sozinha e no escuro. Choro sem me ver. Choro de frustração, de revolta e de dores. Tento não chorar de tristeza.
Choro porque quero. Porque preciso. É como tomar um banho regularmente porque, por mais cuidado que tenhamos, vamo-nos sujando...
Choro porque quero, quando posso. E depois as lágrimas secam sozinhas.

24/08/2010

Sobre a Dor

"Dor é uma sensação desagradável, que varia desde desconforto leve a excruciante (...)." in WikipediaComo dizer apenas "sinto dor" quando o que mais precisamos expulsar é um grito?
Como é que um monossílabo pode expressar o monstro que nos rasga interiormente?
Nunca pensamos nela e, no entanto, ela está tão iminente. Sempre.
Na porta que se fecha sobre o nosso dedo, na postura incorrecta que nos massacra as costas, no som perfurante que nos fere os tímpanos, no ardor de uma ponta de cigarro sobre a pele, nas palavras escusadas de alguém... porque ninguém nega que as dores da alma podem ser tão ou mais dolorosas do que as do corpo.
Omnipresente. Omnipotente. A dor tira-nos a ousadia e só pedimos que passe. Rápido.
A dor é desagradável. É dolorosa. Má.
Procuramos refúgio num analgésico envenenado mas não há por onde lhe escapar. Não há alívio ou consolação. Dói. Há sentimento mais redutor e asfixiante?
E será que a dor dói a todos de igual forma?
Eu não sofro quando tiro sangue; fiz uma tatuagem sem me queixar... Mas nem por isso sou muito valente.
A dor é relativa, pessoal e intransmissível.
O mesmo beliscão pode doer-me mais a mim do que a ti. Talvez eu "sinta" mais; ou posso apenas "aguentar" menos. Não importa. A dor não se quantifica.
Eu sofro, queixo-me. E também sofro com os teus queixumes, com as tuas dores.
Físicas ou não, legítimas ou estúpidas, mais ou menos intensas. O que importa isso?
Sofres, eu sofro. E consolo-te. E não me é agradável sentir que, quando eu sofro as minhas dores, alguém as quantifica, relativiza e diz para eu não julgar que sofro mais do que os outros.
Nunca julguei que o meu sofrimento fosse maior. Mas, decerto, é desconhecido de todos.