21/09/2011

Eu finjo




Pois está claro que finjo. Podes condenar-me?! Mas o meu fingimento não é como os demais... O meu fingimento é na proporção do meu amor. Quanto mais te amo, mais preciso fingir.
Finjo que não dependo da visão de ti para respirar, nem de te tocar para ouvir uma melodia que mais ninguém ouve, nem de sentir o teu cheiro para que o doce saiba a doce... Sinestesias, não é como chamam à intersecção de sensações? Finjo para que penses que estou contigo por opção, por vontade, não por dependência.
Finjo gostar de todas as tuas piadas, finjo não me importar que te atrases, finjo não reparar nas bacoradas que dizes, finjo nunca estar cansada para ti, finjo que não sinto o estômago revolto de cada vez que te vejo ou que se diz o teu nome, finjo não sentir um
micro-arrepio de cada vez que ouço a tua voz, finjo não sentir ciúmes do tempo que não passas comigo, finjo alegrar-me efusivamente com as pequenas ninharias que te fazem feliz... Finjo ajustar-me perfeitamente a ti.
Se não te amasse tanto, dava-me tal como sou. Em vez disso, sou uma fraude, mas uma fraude perfeita para ti.
E depois asfixio. Porque "o mundo do fingimento é uma jaula, não um casulo". Finjo por ti, por amor a ti. Finjo para te saber merecer e depois, porque é tudo fingimento, perco-te por não te saber ter.
Escrito para a Fábrica de Letras, mês de Setembro, tema: Fingimento.

11/09/2011

11 Set - 10º aniversário

No princípio, a Humanidade era una.
E o Homem reconhecia o seu semelhante e distinguia-o dos outros animais pelos dons que lhe haviam sido dados: pela postura erecta, pelas mãos ágeis, pelo sorriso, pela voz.
E o Homem formou tribos, sociedades, uniu-se e trabalhou para o Bem comum.

Depois, chegou o tempo em que o Homem já não se reconhece a si próprio e usa a sua postura para ameaçar, as mãos para esmagar, o sorriso para escarnecer e a voz para amaldiçoar.
Como chegámos a isto?

08/09/2011

Coisas que me ficaram na cabeça mais tempo do que seria suposto

Número 1: A minha amiga tem olhos bonitos. Fica conhecida, por quem não sabe o nome dela, como "a menina dos olhos bonitos". Eu sabia isto; eu própria usei isso para a distinguir, quando a conheci! "Fulana de Tal, a dos olhos bonitos!". Mas, mesmo assim, pareceu novidade quando alguém o referiu, ontem. Como se, por convivermos tanto, eu deixasse de "a ver" ou de reparar nesses pormenores.
Pensamento que ficou: neste caso, como em tudo, as coisas boas vulgarizam-se com a convivência e deixamos de as ver e valorizar. (Minha querida, Adorable One, não que tu te tenhas vulgarizado, estou só a estabelecer o paralelismo.) :D

Número 2: Há cada vez mais pedintes por todo o lado. Quando vou buscar o carro ao parque de estacionamento, além dos habituais arrumadores, agora temos pedintes que nem nos ajudam a arrumar o carro; pedem, simplesmente. No parque do Supermercado, uma cigana; dentro do Supermercado, dois membros de uma Associação, com uma banquinha; no mercado, atiram-me um calendário para a mão com AJUDE-ME e coisas mais; pelo telefone, alguém que anda a angariar fundos para construir não sei o quê...
Pensamento que ficou: certo que isto é um sinal de que a crise está aí, pior do que nunca. Mas também um sinal inequívoco de que cada vez mais nos encostamos de mão estendida em vez de fazer algo construtivo com ela.

Número 3: Todas as semanas me ligam para casa, de todas as operadoras existentes, para apresentar um novo serviço de Internet, telefone ou TV por cabo... e cada vez mais eu percebo menos do que me estão a dizer, tal é a fiada de serviços e tecnologias XPTO que esta gente invoca.
Pensamento que ficou: a tecnologia evolui tão rapidamente que, se não me ponho a pau, daqui a nada estou convertida num dinossauro que, como a minha avó, tem que chamar alguém competente para atender este tipo de chamadas.

Número 4: Tenho 24 anos, sei fazer um arroz seco, sequinho, irrepreensível, durinho e que se separa todo no prato... mas sou incapaz de estufar uma posta de peixe que não se desfaça toda dentro do tacho, ficando com um aspecto mais de caldeirada do que de posta estufada.
Pensamento que ficou: aos 24 anos (quiçá antes?) a minha capacidade de aprendizagem congelou. Estou de disco cheio. HELP!

Não gostei de nenhum dos pensamentos que tive hoje.

07/09/2011

Apetecia-me mesmo.... # 9

Imaginem eu a dançar, incorpórea e vaporosa... Que deliciosa visão de mim, hoje que o cansaço físico me fez ceder ao tentador abraço do sofá...!
Como seria fácil estar e ir para todo o lado, ser uma presença leve, literalmente leve... E
esquivar-me instantaneamente, quando sentisse dever ou querer. Sumir-me, eficazmente. Sem precisar de fôlego que me animasse ou chão que me sustentasse. Como seria irresponsável e alegre...!
Hoje queria ser volátil, etérea, surreal. Como os aromas de um cálice de Vinho do Porto. Como o álcool que inebria e depois se evapora, irresistívelmente. Impossível de conter entre duas mãos fechadas ou paredes castradoras. Ser volátil por inteiro, não "ter personalidade ou espírito volátil". Isso eu tenho e não é motivo de orgulho. Além de ser tão útil e frustrante quanto o par de asas que tem uma avestruz.
Não. Eu queria ser era volátil de inconstante, de esquiva, de irreal.
"Porque a recompensa de não existir é estar sempre presente". Fernando Pessoa

02/09/2011

Lindo...?

MEU!
Isto de ter uma mana mais nova, às vezes, é maravilhoso...

01/09/2011

Bicho do Mato

Sou.
Eu sei. Eu já sabia, só que não me lembrava.
Ninguém merece viver comigo porque eu também não sei viver com ninguém.
Chegar a casa a pensar que vou comer deliciosos Redon* e descobrir que já foram comidos deixa-me mal disposta para o resto do dia, quiçá da semana? Não estou a ser mesquinha. O jantar foi para dois, a dose dava para quatro, eu comi pouco, e não haver nada no dia seguinte... é de me atirar ao ar!
Chegar a casa e ver que aquela velinha cheirosa que comprei já foi encetada enquanto eu nem estava em casa, põe em desatino os meus instintos possessivos mais básicos.
Já para não falar de chegar a casa e ter uma chave enfiada no lado de dentro da porta... quando a ocupante da casa está de fones... (será que é phones?)
Acabou o sossego, acabou a previsibilidade das coisas, acabou eu deixar algo à mão de semear porque, quando voltar, já terá passado um furacão que mudou tudo de sítio e espalhou meias e sapatilhas e elásticos de cabelo em todas as divisões da casa.
Coisas inúteis como pastilhas elásticas e bandoletes estão em cima da mesinha da sala, quando o que eu queria lá era o meu livro, para lhe pegar quando me sento no sofá... onde é que ela pôs o meu livro?
Sou Bicho do Mato, pronto... Começa a chegar a hora de arranjar a minha própria toca.

* Redon: Forma erudita de dizer "restos d'ontem".

31/08/2011

Fui Smurfizada...

...mas não muito... q.b. =)