03/06/2011

Um italiano

Ele é italiano... Un italiano vero. Do sul, um terrone... São considerados todos pacóvios mafiosos e preguiçosos dissimulados; por oposição ao norte, chiquéééééérrimo, de gente séria que, talvez da proximidade da Suíça, apanhou um pouco da mania de ser fria e dissimulada, também, mas de forma mais cínica. Qualquer dia rebenta por lá uma guerra civil: Terrones vs. Polentones.

Enfim. Ele é terrone. Falador e aberto, a roçar o tagarela gabarola. Despertou simpatia por isso, mais do que por beleza, que não a tem... talvez um pouco... moderadamente... Mas tem aquele "non so che cosa è" que todos os italianos têm e que os faz, se não irresistíveis, ao menos apetecíveis.

O piercing na sobrancelha agrada-me... o da língua, nem tanto... mas dizem que é interessante de se beijar...

Falador, cruzávamo-nos constantemente. Coabitávamos no mesmo espaço, durante este tempo, e ele falava sempre e perguntava sempre. Às vezes entendia-o, outras nem por isso. Esteve 40 segundos a explicar que o jantar era "anatra", aquela ave, tipo o frango, que anda pelos lagos e enfia a cabeça debaixo de água... Quando percebi que era pato, olhei para ele e disse "quack-quack". Linguagem universal... Se bem que ouvi-lo falar italiano também não fosse perda de tempo.

Perguntou-me, porque gosto de música, que cantores italianos conhecemos cá em Portugal. Claro que lhe atirei com o Ramazzotti e com a Pausini, o velhinho Zucchero, a famosíssima Giana Nannini, os apetitosos Nek e Raf... ainda trauteámos umas coisas, e ficámos por aí. Ele voltou para a cozinha e, nisto, ouço-o cantarolar uma melodia conhecida e adorada, que cantava quando tinha para aí 7 anos e ouvia as K7 do meu pai... E vi-me pequenina, a passarinhar pela casa, tantos anos atrás, tão mais inocente e feliz e leve e sonhadora a cantar segundo a melodia mas a aldrabar completamente as palavras (é que o meu italiano não dava para tanto)... E cantei aquele bocadinho com ele...

E agora vim embora, e tenho uma recordação querida de todos os que encontrei e deixei lá, mas a música que cantei com aquele terrone não me sai da cabeça... Deixo-a aqui. Espero que consigam entender a letra.

31/05/2011

"Livro", de José Luís Peixoto



Foi a primeira vez que li José Luís Peixoto... e que bela figura é o homem, diga-se...!

As críticas dos leitores dizem que é um livro um pouco difícil, principalmente se for o primeiro do autor que se lê. Por este motivo, em vez de o comprar, joguei pelo seguro e fui requisitá-lo à Biblioteca Municipal... E agora, que acabei, vou devolvê-lo e quando o encontrar (a bom preço) vou comprá-lo porque a minha estante não está completa sem este tesourinho de tamanho modesto e capa insuspeita... Seduziu-me completamente. Tudo! Forma e conteúdo. A narração é hipnotizante, vai-nos sugando a atenção e manipula-nos as emoções. Sentimos o calor na cara, o breu da noite, o cheiro do medo e do abandono, o cansaço dos dias. Era capaz de ficar sentada no chão, de braços e queixo pousados nos joelhos do narrador, só a ouvi-lo...

Começa por ser uma narração de uma história passada. Narrador distante, omnipresente e omnisciente... E, de um momento para o outro, tudo muda, e ele passa a ser participante e dirige-se a nós, que o lemos. Trata-nos por tu! É deliciosa esta transição, não é confusa, não é de mau gosto, não é um artifício de alguém sem originalidade...

Adorei conhecer o Ilídio, o Cosme, a Adelaide, o Josué e o Constantino... Podiam ser o Pedro, o João, a Maria, o José e o António, mas não. São Ilídio, Cosme, Adelaide, Josué, Constantino.

Relatório de 8º dia

Positivíssimo... Nem sempre sol, nem sempre chuva. Ocasionais trovoadas fortes, mas eu também gosto da trovoada, e adoooooooro a indiferença das pessoas daqui pelas mudanças radicais de tempo. De manhã saio de t-shirt, ao almoço visto casaquinho, à noite chove... "Ma siamo sulla montagna, è normale il tempo cambiare cosí...", e lá andam todos satisfeitos e não dão "ai Jesus" e "Santa Bárbara valei-nos" quando o céu ruge...

Nos dias de sol passeio, nos dias de chuva fico pelas redondezas, parlo un pó con la gente di qui , como coisinhas boas. Já andei muito a pé. Bastante de comboio, imenso de autocarro, um pouco de teleférico (40 minutos, subida e descida do monte)...

Gosto das cores das casas; em Portugal há leis contra esse espavento mas o certo é que aqui as cidades são lindas vistas de londe e de perto e as nossas até podem ser bonitas de perto, mas de longe parecem blocos de cimento.

Há árvores e plantas em todo o lado. Árvores e plantas, não mato e silvas. Nunca vi tantas sardaniscas, centopeias e aranhas por metro quadrado, e estou feliz por não estar cá nos meses de Verão. Vi dois pirilampos. Apanhei dois trevos de 4 folhas. Conheci gente Suíça-cordial-recta-superior, do norte de Itália-orgulhosa-fria-metódica e do sul de Itália (a Turrónia, como dizem os do Norte)-bairristas-calorosos-malandros-descontraídos.

Mas já só faltam 4 dias...



foto tirada no Monte Tamaro (1530 m)

22/05/2011

Svizzera, sto arrivando!

...e, por isso, vou andar um bocadinho ausente por uns tempos... Não tenho a certeza da frequência com que vou ter acesso à net. E vou andar demasiado ocupada a tirar fotografias aos lagos, às montanhas e às casas lindas para vir escrever... =)

Vou visitar a minha mamã e vou ficar 11 dias... vou comer boa carne de vaca, boas massas, respirar bom ar, melhorar o meu italiano...

No meio disto tudo, tento só abstrair-me do facto de que, para lá chegar vou ter que me enfiar num avião, que no momento da descolagem vou ter aquela sensação horrorosa de estar a ser puxada para a frente e a deixar o estômago para trás, que o avião não pode parar para eu sair se a meio da viagem ficar agoniada ou tiver um ataquezito de agorafobia, que em cada balanço ou turbulência ou curva vou ficar aflita e que no momento de aterrar vou levar um safanão medonho... Fora isto, tou fixe...

Boas férias para mim!

18/05/2011

Acerca da teimosia

Se há coisa que me irrita solenemente (além das pessoas que param a conversar no meio de passeios estreitos, obrigando-nos a ir para a estrada ou a passar no meio delas) é aquela típica sequência de:

- Diz-me qual é o teu pior defeito...

- Hum... deixa cá ver... tenho muitos! ...para começar, sou muito teimosa...

Isto faz-me pele de galinha e deixa-me os cabelos eriçados. Porque por detrás desta "teimosia" está um "tenho convicções firmes, uma personalidade muito vincada, sou uma pessoa de princípios muito fortes, sou tão fofinha!". Ninguém acredita verdadeiramente que a teimosia seja um defeito e é por isso que, quando confrontados com a pergunta desagradável, a pedir podres escandalosos e vícios imperdoáveis, a bota seja muito habilmente descalçada desta forma simples e inocente. "Sou teimosa", pronto.

A Teimosia é feminina. A sua conjugação também: dizemos "é teimosa", mas "teimoso" já não soa bem, porque só as mulheres é que são mesquinhas e picuinhas. Porque é disso que se trata, afinal. Aquilo que parece fofinho coberto pelo véu da teimosia é, na verdade, tacanhez, caturrice irritante, insistir na mesma tecla, bater no ceguinho, ser xato que dói, ter uma atitude sobranceira de "eu tenho sempre razão", ser convencido e arrogante...

Odeio ouvir gente que se diz teimosa, porque parece que a partir do momento em que se reconhecem com esse defeito têm legitimidade para fazer, dizer e insistir em tudo... porque são teimosos.


E o cúmulo, é perguntar a um casal: "qual é o pior defeito da cara-metade?". E qual é a resposta costumada? Ora pois, está claro, a cara-metade é teimosa. E por aqui se vê que a teimosia não é tida verdadeiramente como um defeito, porque se fosse, como ser reles, cínico, mentiroso-compulsivo ou orgulhoso, a cara-metade não o confessaria tão facilmente...

14/05/2011

"O rapaz de olhos azuis". de Joanne Harris

Ora portantos... Posso começar por dizer que as minhas espectativas estavam nos píncaros depois de ler várias críticas e a sinopse... e aumentaram quando vi a entrevista à autora no Bairo-Alto, em que falava do novo livro e das sinestesias. ...além de que a capa é das coisas mais lindas que tenho visto!! =)
E, portanto, comprei o dito. E estou tão triste...

O livro não é mau, atenção. Só é estranho. E é um daqueles casos em que a publicidade e resumos e sinopses feitos nada têm a ver com o produto. A história até anda lá por perto mas envereda por um rumo completamente diferente e acabei por me sentir perdida a maior parte do tempo, já tinha passado do meio do livro quando a coisa começou a fazer sentido, para logo me trocar as voltas novamente.
Uma coisa é haver um mistério que vai sendo deslindado aos poucos e a luz vai incidindo sobre as nossas dúvidas... Outra coisa é haver constantes cambalhotas no enredo que, em vez de esclarecer, confundem mais ainda. Num momento ela aponta-nos o caminho nesta direcção e, no seguinte, ri na nossa cara e diz "lembram-se do que pensaram quando leram isto? nada a ver...!".

O livro é um conjunto de publicações no webjournal de duas das prncipais personagens, o que, além de ser estranho e levar algum tempo para nos habituarmos, deixa obviamente muito por revelar. Não há uma ordem cronológica fácil de seguir; nunca sabemos se as publicações são reais ou ficcionadas... nunca sabemos nada.
Apesar deste nó, ainda acalento a ideia de que talvez, um dia, volte a ler este livro para ver se, sabendo agora o final, a coisa fará algum sentido.
Ainda há esperança... ou não fosse eu sportinguista.

09/05/2011

Ainda quero saber o que acham...

Parece uma canção de namorados... A mim, sempre me pareceu uma canção para a mãe.
A pretexto agora do desafio da Fábrica, sempre quero ver o que acham dela...



"Pelo Céu, às cavalitas
Escondi nos teus caracóis a estrela mais bonita que eu já vi

Eu cresci com um encanto de ser caçador de Sóis
Eu já corri tanto, tanto, para ti

Fui um príncipe encantado, montado nos teus joelhos
O eterno enamorado, a valer

Lancelote de algibeira, mas segui os teus conselhos
Pra voltar à tua beira e ser o que eu quiser

Os teus olhos foram esperança, os meus olhos, girassóis
Fomos onde a vista alcança da nossa janela

Já deixei de ser criança e tu dormes à lareira
Ainda sinto a minha estrela nos teus caracóis."
"Caçador de Sóis", Ala dos Namorados