Amigo querido, a quem falo pouco, e vejo menos ainda... Hoje ligou-me, enquanto estava à espera de algo, resolveu ocupar o seu tempo comigo... Tão bom! Disse-me que comprou uma mota e eu, em tom de brincadeira, fiz-lhe notar que tem que andar sempre com dois capacetes, um para ele e outro para as meninas que hão-de querer dar umas voltinhas. Respondeu-me de forma decidida que tem capacete para ele, quem quiser andar com ele tem que se arranjar...
A conversa derivou para o trabalho, que nos ocupa os dias, para os amores que nos desgostam e deixam um vazio, e aquela ligeira melancolia que nos ataca dez anos depois de sair da faculdade por verificarmos que não estamos no ponto onde imaginámos na altura que estaríamos e que a solidão é companheira mais vezes do que o que seria desejável. E depois ele disse coisas maravilhosas. Coisas que eu já sabia mas que às vezes esqueço... Disse que a aprendizagem mais importante que fez nos últimos tempos (inclusivamente com a ajuda dos seus romances efémeros) foi aprender a estar bem sozinho. A fazer as coisas por si próprio, por decisão e vontade sua, sem andar ao colo ou à boleia de alguém. Em suma, a validar em si próprio a sua vida e os passos que dá. E referiu que a compra da mota é no fundo uma expressão disso mesmo, porque numa mota é só ele sozinho, nao tem, como num carro, 4 lugares vazios à sua volta, ou entao cheios pela conveniência de uma boleia e não por verdadeira vontade de estar com ele.
E então, como um circulo que se fecha, relembrámos o pormenor de andar com um único capacete. Porque ele conta com ele. É inteiro. Quem vier, que venha inteiro também.
