31/08/2012

Quotidiano...

...a repetição do mesmo milagre.
A minha mãe está a cozer batatinhas, cenoura e a assar uma postinha de bacalhau... a televisão vai regurgitando as mesmas caras e as mesmas crises. Estou a jogar joguinhos da treta no pc e ouço por cima da música a voz da minha irmã que está na cozinha, a observar a minha mãe, a ajudá-la, supostamente, e a fazer comentários disparatados a tudo e mais alguma coisa... a rirem, as duas...
O cheiro que me chega aqui (dos cozidos e do bacalhau assado) faz-me lembrar o Natal. As vozes delas são leves e livres; está tudo sossegado, à excepção do burburinho na cozinha e da televisão que lá vai agitando os seus braços assustadores, mas que nós ignoramos... Fala para aí...

Eu interrompi o meu joguinho da treta porque me dei conta da maravilha que está a acontecer neste momento, deste equilíbrio despreocupado, e tive que vir descrevê-lo... Não preciso de muito mais. Há dias diferentes, em que eu própria sou diferente e exigente, mas esses são raros. Gosto mais destes dias assim...

30/08/2012

Sobre a ansiedade

Há uma diferença subtilíssima entre fugir e escapar... tão subtil que, às vezes, usamos as palavras como sinónimos.
Fugir é pânico desenfreado. É descontrolo... Run for your liiiiiiiives...!!!
Escapar é discreto e confiante. É uma jogada, uma exigência de paz e sossego, de distância.
Quando eu fujo, a luta está perdida. E então corro, para evitar males ou vergonhas maiores.
Se eu tivesse escapado antes, se tivesse escutado a mim própria, à minha vontade, em vez de ao meu desejo, eu não teria caído e não teria necessidade de fugir.
Devo ser ardilosa e previdente. Escapar, antes de ser forçada a fugir.

16/08/2012

Fogo de Artifício

...somos todos nós. Eu apareci, como pediram. E vocês receberam-me com naturalidade, que foi mais e melhor do que eu pedi. Como se eu pertencesse ali ainda. Como se vocês fossem iguais.
Se são iguais, não me interessam. Se me interessassem, não vos teria abandonado.
A nostalgia e as saudades dão comichão, mas longe é o único sítio onde garanto a minha sanidade e poupo o meu âmago a mais dores.
Somos fogo de artifício. Duramos um momento que parece eterno, enquanto as luzes fazem ricochete cá em baixo e o som ecoa em volta, mas logo nos extinguimos. Cada um para seu lado, cada um da sua cor, cada um no seu devido tempo.
Estou cansada. Não de abuso físico mas de exaustão emocional... Desgaste. E saudades de quem fomos antes de sermos o que tornou inevitável o que somos hoje.


15/08/2012

14 de Agosto: o que aprendi

Primeiro que tudo, aprendi (mais uma vez e, decerto, não a última) que se deve ter muito cuidado com aquilo que se deseja, porque pode, de facto, acontecer. Pedi um pouco de chuva. O céu guardou-se durante semanas para me conceder o desejo em grande.
Aprendi que quanto maiores são as expectativas, os sonhos, os planos, maiores são as possibilidades de a coisa dar para o torto.
Aprendi também que, às vezes, é mesmo necessário cortar amarras de alguém, para que essa pessoa, à distância, nos veja por inteiro e respeite a nossa integridade.

Dancei um pouco à chuva. Menos do que queria. Choveu mais do que eu desejei. Tudo fugiu e o14 de Agosto não aconteceu este ano.
Mas disseram-me "aparece amanhã".
E isso valeu milhões. Valeu a minha vitória.

E, por todos os motivos, por coincidência e também por consciência da letra, a música do dia, todo o dia na minha cabeça e nos meus lábios:



Things will never be the same, Still I'm awfully glad I came
Resonating in the shape of things to come, Never waiting when I know there's only one
Messed it up but rest assured, No one ever thinks they're cured
Just a minute while I reinvent myself, Make it up and then I take it off the shelf

Over the laws of light
Over the moon by midnight
Let's do it all this time
Everyone wishing well, we go and
Everyone knows, anything goes
and now
We are the lotus kids
All better take note of this
For the story

The rising moon is on the shine, The blood of scorpio's a nine
Like the fear that's in eyes of every doe, Say it now 'cause John and Jane would like to know
Is it safe inside your head? Songs to serenade the dead
All along I said I know no enemies, Mix it up until there are no pedigrees

Over the laws of light
Over the moon by midnight
Let's do it all this time
Everyone wishing well, we go and
Everyone knows, anything goes
and now
We are the lotus kids
All better take note of this
For the story

Over the laws of light
Over the moon by midnight
Let's do it all this time
Into the shadows showing
Enter the rolling tide
Over the ocean so wide
Let's do it all this time
Everyone wishing well, we go and
Everyone knows, anything goes
and now
We are the lotus kids
All better take note of this
For the story

14/08/2012

14 de Agosto... again.


E é isto. Tá tudo dito.
Oxalá encontre "as minhas pessoas". Oxalá consigamos concretizar o brinde que fizemos no ano passado. Oxalá chuvisque. 14 de Agosto debaixo de chuva seria novidade para mim e, desde que a música não parasse, eu juro que não arredaria pé...


Eu sou avariada, agorafóbica, egocêntrica, anti-social e essas coisas todas que já ouvi tantas vezes que, em vez de defeitos, até já me começam a soar bem... Mas o 14 de Agosto tem uma qualquer influência em mim... Como a lua. Uma lua que brilha só uma vez por ano. 

It's on, people!

12/08/2012

I'm Tracy Jordan...

Dizem que é dia de festa hoje... Que a festa é esta semana... Para mim, não. Foi ontem... também há-de ser amanhã... mas hoje não. Hoje não acordei para aí virada. Dei folga à energia e à boa disposição, para irem curtir o dia juntas e, coincidentemente, parece que uma data de gente com quem me cruzei se lembrou de mandar a decência e a inteligência para o mesmo destino... Encontrar-me com essas pessoas hoje não foi um golpe de grande sorte.
Pelo que estou retirada do mundo. Recolhi-me no meu casulo escuro e lá fora as ruas podem inundar de gente, as colunas podem rebentar, as luzes podem estourar, que eu estou em retiro e daqui a nada vou comer umas colheradas de gelado de capuccino...
Queria dormir. Mas sem a parte do "adormecer". Não quero deitar-me e fechar os olhos e ouvir o silêncio ser cortado pelas vozes na minha cabeça. Apetecia-me estalar os dedos e....pumba. A dormir.
Por isso, fico recolhida, não a dormir mas em vigília.
... e como eu sou profundamente egocêntrica, lá tive que vir pôr aqui alguma coisa, porque se eu não estou na festa lá fora, então é porque a festa não existe. E algo tem que existir. Alguma coisa tem que receber os raios luminosos da minha atenção e brilhar com o meu génio... Because I'm like Tracy Jordan... 


Querido blog... Bloggers giros que me seguis... sois vós os contemplados!

10/08/2012

"Nenhum Olhar", de José Luís Peixoto


(suspiro).........e pronto... É o Peixoto.
É um dos seus primeiros romances, desse longínquo ano de 2000. O que lhe valeu o Prémio Literário José Saramago e o catapultou.
Eu conheci o JLP numa fase madura. Li o "Livro" e o "Abraço" e neste "Nenhum Olhar" percebi uma avidez, um esforço, uma tempestade criativa, muitas ideias, muitas ideias... tantos símbolos! Tantos pormenores, tantos elementos a desenrolarem-se ao mesmo tempo, tanto na trama de que trata a história, como na pena/caneta/teclado de quem a relatou.
Gostei muito deste livro. Gosto mais do JLP que conheci no "Livro" e reencontrei no "Abraço".
É brilhante, realmente. E triste, muito triste. Uma tragédia, um fado. E, mesmo no meio da tragédia, as imagens pintadas pelas palavras escritas são belas... E são as repetições melodiosas que nos embalam...que fazem com que, a dada altura, sejamos capazes de terminar as frases antes de as ler...

Talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele

Talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros.

No corredor maior, a voz fechada numa arca, a repetir, a repetir, e a avisar...

E o homem que está fechado dentro de um quarto sem janelas a escrever parou de repente a meio de uma frase e o fim, para ele, foi a tinta que desapareceu das páginas que tinha vivido...

É um romance onde reconheci razão naqueles que dizem que JLP é de uma escrita difícil, complexa... Aliás, a escrita, em si, é encantadora; difícil é digerir e processar tudo o que os olhos absorvem numa frase e estar fresco e limpo para a próxima.
Nesse aspecto, é um livro frustrante. Mas frustrante-bom. Um desafio, algo que temos que desbravar. Não aconselhado a leitores-light.

Nota: A capa.... a capa.... não a percebo.... além de que é medonha!