06/11/2017

Cada qual tem aquilo que merece

...ou aquilo que aceita.
Tenho um casal de canários. Ela é uma marota. Ele é um banana. Quando lhes vou pôr dois pedacinhos de maçã, se puser o primeiro pedaço junto ao poleiro onde ele está, ela salta para lá, expulsa-o e, quando coloco o segundo pedaço no poleiro onde ela estava anteriormente, agora ocupado por ele, ela regressa para lá, expulsando-o novamente, e ele lá regressa ao poleiro inicial e ao pedaço de maçã que ela rejeitou.
Imagino que quando se encontra no café com os amigos ele tome uma de duas atitudes: ou mente descaradamente, dizendo que lá em casa é ele quem manda, e basta-lhe a admiração dos outros, mesmo sabendo lá no fundo que é um banana cobardolas. Ou então assume o papel de vítima, porque ela é uma tirana e nem lhe dá hipótese e açambarca sempre o melhor poleiro.
Em qualquer um dos casos, o meu canário é um banana desprezível, que não é perseguido pelo azar. Ele é perseguido pelas escolhas que faz ou pelas escolhas que os outros fazem por ele e ele aceita.
O mundo está cheio de canários como o meu. E, um dia destes, eu cometo um suicídio social porque vou abrir a boca e chamar banana quando os ouvir queixar e choramingar que têm azar na vida...

30/09/2017

Há coisas maravilhosas!

Sou tão pragmática que às vezes lamento insistir em descobrir as engrenagens que fazem as coisas acontecer, ou atribuir os milagres do dia-a-dia ao acaso puro, em vez de ser daquelas pessoas sonhadoras que vêem a fada Sininho despejar os seus pós mágicos sobre as coisas comuns.
Mas hoje, escolhi acreditar na magia e recebi como um sinal do Universo o gesto aleatório de abrir um livro de citações para ver o que ele me diria.
Hoje é um dia que já foi especial no meu calendário. A pessoa que o fazia especial não faz parte da minha vida há tanto tempo mas inevitavelmente recordo-o e questiono-me, sempre!, estará bem? Estará melhor ou pior do que comigo? Lembrar-se-á de mim com o mesmo carinho com que me lembro dele? Ou ter-me-à rancor? Seguirá o mesmo caminho, um caminho de agocentrismo, ambição e vaidade, que foi em ultima análise, o que nos separou? Ou terá aprendido com o erro e não voltará a cometê-lo com o seu novo amor?
Todas estas questões. A resposta que recebi do livrinho foi:
"E então, enquanto os outros se entregam à insaciável busca de ambição e à sede de poder, eu estarei na sombra, a cantar." Fray Luis de León
Até me arrepiei.

08/09/2017

10 de Setembro - Dia do Vinho do Porto

...ou, como gostamos muito de mostrar como falamos bem inglês, Port Wine Day!

Ao contrário do que é meu hábito, hoje não vou fazer um post egocêntrico. Hoje, só hoje, abandonemos o meu Sistema Brisar (para quem aqui venha parar pela primeira vez, é o Sistema  Planetário do qual Briseis é o centro), e vamos reflectir sobre este lodo vergonhoso que vem emporcalhar a história de uma das jóias nacionais.
A Região Demarcada do Douro, primeira região demarcada e regulamentada do mundo (se forem leigos no assunto, vão lá perguntar ao tio Google o que é que isto quer dizer), foi criada por um decreto do Ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, que ficaria para a História como Marquês de Pombal, assinado a 10 de Setembro de 1756. Exactamente. No ano a seguir ao Terramoto. Assim nunca mais se esquecem.
Logo por aqui, o dia deveria ser o Dia da Região Demarcada do Douro. Mas pronto, a demarcação foi para servir e defender a qualidade daqueles que viriam a ser mais tarde baptizados oficialmente de vinhos do Porto, por isso, podemos simplificar. Não quero ser picuinhas.
Em pleno final de semana celebratório, eis que a Região em festa recebe jornalistas, bloggers, gente gira dos mais variados países. Vêm para ser recebidos pelos donos de organismos e agências, quintas e operadores, directores e RPs, servidos com todas as cerimónias e regalias, fazer programas charmosos e exclusivos, e ter uma experiência que vão relatar lá nas suas revistas, blogues, livros, publicações, com palavreado finório a elogiar a generosidade da natureza, o labor do homem, a doçura do vinho e o dom de bem servir destas gentes.
Hipócritas. Se querem avaliar, venham sem se fazer anunciar. Paguem o bilhete de entrada. Misturem-se com os turistas ocasionais, ouçam o que os guias têm para oferecer. Às vezes são cassetes gravadas, mas há sítios com contadores de histórias maravilhosos. Serão servidos com menos pompa mas é isso que o turista que vem vai ter. Em vez disso, a região patrocina as viagens de um punhado de privilegiados que vão relatar experiências artificiais, para não dizer, enganosas.
Isto, no dia em que vi a notícia sobre algo que toda a gente desconfia que vai acontecendo, mas que não se menciona, porque se não se falar é como se não fosse verdade. Acerca da exploração dos trabalhadores nas empresas marítimo-turísticas. No rio, como em terra.
A notícia está aqui https://www.publico.pt/2017/09/08/local/noticia/denuncia-de-medo-e-escravatura-nos-barcos-do-douro-sai-a-rua-1784736

30/08/2017

Fui vítima de bullying. Claro que no meu tempo não se chamava assim, nem era um flagelo reconhecido ou que merecesse atenção. Era simplesmente um fenómeno natural como a sobrevivência do mais forte: a maioria unia-se e fazia banquetes da vergonha e humilhação dos membros da minoria. Fossem esses membros os que tinham boas notas, os que não tinham dinheiro para comprar as calças da moda ou os que não tinham a vontade ou coragem para fumar atrás dos pavilhões da escola.
Fui ridicularizada pelas músicas de que gostava. Pelas séries que via. Pela forma de falar. E de vestir. Por algum tique inócuo. Pelos dias de "mau cabelo". Tantos anos depois, com o impacto destruidor sobre a autoconfiança já bem cimentado, e sem qualquer hipótese de cuspir redentoramente na cara daquelas cabras maldosas, apercebi-me que as ofensas não eram dirigidas especificamente aos meus gostos ou gestos. Tanto fazia eu gostar de verde como de azul, haveria sempre troça porque o motivo de escárnio não era a beleza ou fealdade das minhas inclinações, mas a própria necessidade de atacar alguém. No caso, eu.
Uma pessoa maravilhosa ensinou-me: Quando se atira carvão negro aos outros, mais depressa ficam sujas as mãos de quem atira do que a pessoa visada. Serve de pouca consolação.

29/08/2017

Diz-se que os índios na América do Norte recusavam posar para fotografias, por temerem que o seu espírito ficasse aprisionado naquela imagem estática.
Se houver alguma verdade naquela crença, gosto de pensar que as milhentas fotografias onde apareço a sorrir, nos sítios onde fui feliz, onde a minha mão foi segurada e onde os meus ombros foram abraçados, guardam em si um fragmento do meu espírito, que continua a existir feliz, como se num universo paralelo, eterno.
Também tenho fotografias onde o meu sorriso não se estendia aos olhos. O sorriso só surgiu porque faz parte, sorrir para a fotografia, mas os olhos não enganam. Não consigo resistir à tentação de comparar umas com outras, como naqueles jogos de "Descubra as Diferenças". O rosto é o mesmo, mas há meia dúzia de diferenças entre as imagens. Essas, eu não acredito que contenham o meu espírito. Nessas, onde estou triste, acho que foi o meu Espírito Original, aquele que permanece comigo, que lascou e preserva a memória triste daquele momento de sorriso de faz-de-conta.

21/08/2017

Manifesto anti-gente que diz "seja pelas alminhas"

...ou "seja pelo amor de Deus", ou "é preciso sofrer porque Nosso Senhor também sofreu", e outros chorinhos lamentosos do género.
Nunca gostei de ouvir tais coisas mas ultimamente têm-me tirado mesmo do sério! Não só porque acredito que quem governa isto tudo, seja Deus ou o Karma ou a Natureza, não precisa nem deseja ver-nos sofrer para nos amar mais, ou para nos infligir menos penas. Não precisa ser aplacado. Não vou ter um lugar melhor no lado de lá por me sujeitar aqui a dores ou incómodos que posso evitar. É ridículo pensar assim. Eu acredito num Deus/Karma/Natureza que me devolve o que eu lanço no mundo. Acredito que as coisas se obtém pela acção, por uma acção boa e construtiva, não pela paciência inerte que demonstro quando outros me estão a provocar.
Além disso, vou-me apercebendo que este tipo de ladainha também sai muitas vezes da boca das pessoas que precisamente vão beneficiar com a nossa "penitência" auto-imposta.
Não me lixem. Eu não sofro por ninguém. Nem pelas almas, nem por Deus, nem por amor de ninguém. Uma relação que se paga com sofrimento, logo à partida não merece que se sofra por ela.

07/08/2017

Ser mais uma sensação do que um pensamento

Foi a lição de hoje e vou transforma-la num mantra. Busquei segurança em palavras, regras, etiquetas e protocolos. Ser irrepreensível, ser paladina da boa conduta, assertiva, falar claramente e escrever ser erros ortográficos e colocar todas as vírgulas onde devem estar. Sem esquecer o acento no i de vírgulas. Não é corrector ortográfico. Sou eu que o ponho.
Vou-me transformando numa máquina. Sempre gostei de catalogar coisas, até a mim mesma. Fazia aqueles testes de personalidade para ver qual era o meu tipo, a minha personalidade escondida, a figura pública que é a minha alma gémea, quem eu seria se tivesse vivido na Idade Média, ou se fosse uma personagem dos Simpsons, ou uma cor, ou uma bebida... Fiz esses testes todos e mais alguns. Se eu fosse uma princesa da Disney, seria a Mulan. Se bem que, como a Bela gosta muito de ler, gosto de pensar que nos intervalos das batalhas, a Mulan se possa transformar numa Bela que devora livros na biblioteca que lhe foi oferecida pelo seu amado Monstro. Sempre atrás de rótulos, de regras e Leis Universais. Caixinhas. Tudo enfiado em caixinhas. Eu própria. E se algo não servir em caixa nenhuma, alarga-se o critério de uma das caixas existentes ou arranja-se uma nova... Ficar algo desarrumado é que não!
Refugio-me no pensamento porque me parece mais fiável e seguro. A emoção abana-me e sufoca-me. Mas sem ela também não se vive, não é verdade?