02/08/2016

A César o que é de César...

...e a Briseis o que é de Briseis.

Quando o sol se põe, é para mim.
Quando o calor abrasador é cortado por uma brisa leve, é para mim.
E quando os patos ensaiam um voo rasante sobre o Douro, é para eu ver.
Quando a Lua e as estrelas brilham, é a sorrir para mim.
E quando a Natureza simplesmente existe, é para mim.

Por isso, eu saio. Passeio, caminho, sento-me e contemplo. A minha natureza é simples e solitária, recolho-me e entrego-me à indolência doméstica. É-me confortável. Mas também nociva. Por isso, agora, saio. E aproveito.

22/07/2016

Acerca das bananas e da perda de confiança

Há uns anos atrás, ia abrir uma banana e, em vez de a casca se abrir como seria de esperar, dobrou. Eu agarrei no "chapeuzinho" e puxei para o lado e para baixo, como de costume, mas o que aconteceu foi a casca dobrar, em vez de partir; ficou a polpa toda esmagada e mole no interior e a banana fechada. Tive que usar uma faca. A partir daí o feitiço quebrou-se, a confiança perdeu-se. Nas vezes seguintes em que fui para abrir uma banana, pensei no gesto que ia fazer para a abrir e, em vez daquele movimento natural e decidido que toda a gente faz instintivamente, o que fiz foi tão desajeitado que voltei a dobrar e amassar a banana em vez de a abrir. Hoje, se não tiver uma faca por perto, peço a alguém que me abra a banana porque tenho medo de voltar a amassá-la.
E é tudo uma questão de confiança. De fazer as coisas de forma instintiva e natural. Quando o resultado não é o esperado, despertamos para a possibilidade de isso se repetir e, a partir daí, o que antes era natural e resultava, passa a ser temido, programado e, por causa do excesso de zelo, pode acabar por falhar.
Nas bananas, como na vida.

12/07/2016

Nota para mim mesma

...e para quem mais ler, porque acho que toda a gente merece este conforto.
 
Que nunca me arrependa. Sem ligar àquela distinção de "arrepender do que fiz" vs. "arrepender do que não fiz". Arrependimento de qualquer tipo.
Não deveria haver lugar para o arrependimento nas nossas vidas. Tudo o que fazemos é fruto do nosso raciocínio ou da nossa emoção ou da nossa vontade... é fruto de algo que nos move e que nos faz acreditar que será o melhor. Todas as nossas atitudes são feitas tendo em vista o melhor, certo? Não se tomam decisões a pensar "sei que isto é a pior solução mas vou por aqui só porque me apetece sofrer um bocadinho mais  ou perder um bocadinho mais do que é a minha conta".
As decisões são tomadas com base no que temos, seja essa base bem fundamentada ou não, real ou ilusória. Não é isso que está em causa. Em causa está haver uma razão para o que fazemos. Se depois o resultado não é o esperado, não é culpa nossa. Não cabe arrependimento.
Se vier arrependimento é porque estamos a esquecer partes da história. Se parecer que fomos burros ou tontos é porque sabemos mais agora do que no momento.
Mas as decisões que tomamos com base no que nos é dado, são a pensar no melhor.
Não cabe arrependimento. Arrependimento inútil, que só pesa às costas e nos absorve a alegria.
Mudar de rumo, sim. Quando é preciso. Arrependimento pelo caminho feito, não. Nunca deveríamos permitir-nos isso.

04/07/2016

A vida é o que acontece enquanto eu estou ali encolhida a ter uma crisezita de ansiedade.
Não quero mais isto. Porra.

02/07/2016

É esse o espírito!

Hoje acordei a sentir-me triste e magra. Triste porque faz parte de mim. E magra porque é como fico quando a tristeza e a ansiedade me perturbam o apetite. 

Mas passaram algumas horas. Tive momentos em que sacudi a sensação. E momentos em que a sensação voltou.
Fui almoçar com pouca vontade, demorei eternidades a engolir um parco almoço. Em alguns momentos de distracção sinto-me mais tranquila e menos triste, e já não me sinto tão magra.
É este o espírito a manter! Tropeções, sim. Mas arribar sempre!

24/06/2016

A minha irmã é quase 9 anos mais nova do que eu.
Em pequenas, quando nos zangávamos por ela se ter portado mal, ela vinha passado poucos minutos querer brincar outra vez ou pedir mimos. E eu atirava-lhe à cara que ainda estava zangada por causa da atitude anterior dela, e ficava a ruminar esse rancor umas boas horas ou dias.
Da mesma maneira, quando era eu a errar, a vergonha e o orgulho mantinham-me longos períodos de tempo sem me aproximar dela.
Cheguei a comentar com a minha mãe a "lata" da minha irmã, de vir como se nada fosse, toda sorrisos, depois de termos discutido.

Hoje lamento esta minha natureza. Este "solo lunar" que sou, de que já aqui falei antes. Um solo que guarda por tempo indeterminado as marcas que lá se deixam, sendo que eu tenho uma certa selectividade em guardar as marcas negativas.
E carrego esse peso, essas mágoas comigo, que me impedem de sacudir o rancor, de voltar a confiar alegremente.
Não. A marca está lá, como uma nódoa que nunca sai totalmente.
Hoje lamento ser assim e gostaria de ter a natureza mais pura e infantil da minha irmã...

07/06/2016

Pessoas extraordinárias #4 - Terie Leijs

Tive a Sorte de estar a trabalhar no passado domingo, quando este senhor holandês passou lá no Museu. Tem 74 anos mas apresentou-se de botas de caminhada e mochilinha às costas, onde levava o cantil da agua, os documentos metidos num saco de plástico, uma boa câmara fotográfica e um GPS já um bocado danificado pelo uso, pelas quedas e pelas molhas, com botões normais, que ele não gosta de ecrãs tácteis (e mostrou-me os dedos velhos e inchados, pobrezinho!)...
O Terie, e aconselho que procurem este nome no facebook só para verem o ar amoroso de vitalidade deste septuagenário... Dizia eu, o Terie percorre a Europa a pé, já fez o caminho de Santiago, já fez caminhos de Fátima... Esteve na Grécia, na Turquia, no Tijiquistão ou Cazaquistão ou outro país acabado em ão, e faz questão de andar a pé, sair dos circuitos, contactar com os locais que lhe dão de comer o que têm, dorme nos quartéis de bombeiros, gratuitamente, e durante o dia faz trilhos e passeios fora dos circuitos normais.
Diz ele que na Holanda há muito dinheiro e marcar umas férias é um problema muito grande porque as pessoas procuram "o melhor sítio para ir, o melhor restaurante, os melhores pacotes". Diz que o turismo de hoje é feito em bolhas. Bolhas onde as pessoas têm um pacote que inclui todas as experiências, todos os marcos turísticos e onde vêem muito pouco do que é genuíno e real.
Apercebeu-se com grande destreza daquele traço muito português que é ter um grande orgulho no que é nacional e no que temos e fazemos cá, ao mesmo tempo que nos achamos todos tão pouco, tão pequenos e dóceis na nossa labuta diária.
Quando lhe elogiei a energia e as boas pernas, ele abanou as mãos e disse que não "se tem" boas pernas, elas vão-se habituando à medida que o caminho é percorrido.