30/12/2012

Para o novo ano...

"São as casas mais grandiosas e as árvores mais altas que os deuses deitam abaixo com raios e trovões. Porque os deuses gostam de contrariar o que é maior do que o resto. Não suportam o orgulho, a não ser em si próprios.", em "A Regra de Quatro"
 
Que, contra todos os vaticínios, o Amanhã não nos amedronte. E que não tenhamos medo de nos levantar. Não queiramos pôr-nos em bicos de pés, usar plataformas elevatórias ou subir degraus casuais. Sejamos apenas capazes da humildade de andar direitos e que, dessa forma, tenhamos a altura de que somos dignos e o reconhecimento correspondente.
Feliz ano novo para todos!

24/12/2012

A soothing song

Calma, pequenina...
Tudo passa. Não há mal ou terror que sempre dure, nem as horas negras que se arrastam na noite demorarão indefinidamente... Dá mais uma volta, respira fundo, controla os batimentos desvairados do teu peito e abdomen, acalma os tremores que te desassossegam pernas e braços... Respira e diz para ti todas as palavras confortantes que precisas ouvir... Convence-te do teu Poder. Acredita nele. Acredita na força da tua vontade, na absoluta certeza de que um "não" pronunciado pelos teus lábios tudo pode acalmar.
Ninguém te persegue, ninguém te fustiga... Não temas. Não temas agressores e, sobretudo, não temas o que te querem bem. As palavras amáveis, os gestos grandiosos e os sorrisos reconfortantes não precisam ser "pagos". Eles são-te dados gratuitamente e basta sorrires-lhes para que o dador se sinta recompensado. Não temas, não osciles sob um peso que te convenceste que tens que carregar.
Não penses demais.
 
Eu sei... Eu sei que não funciona assim. Que é doloroso. Fisicamente doloroso. E que o medo do imprevisto é esmagador. E que, para o escorraçares, tentas prever todas as situações possíveis, o que é esgotante. Eu sei que não existe um botão de desligar. Eu sei que quando dás por ti já estás a ser sacudida, sem aviso ou hipótese de recuperação, por um vendaval que te absorve toda a sanidade e dilui as proporções do mundo real. E és enorme e têm um peso maciço todos os teus gestos, todos os aspectos ridículos da tua existência, bem à vista de todos... Oh, poder ser invisível...!
Outras vezes, és minúscula, e o mundo dança a um passo que não és fisicamente capaz de acompanhar... Uma intensiva mascarada que te suga a energia e te cansa os músculos da cara.
Porque é que tão poucas vezes te sentes do tamanho certo??
 
Não temas a noite, não penses que o desassossego escolhe a hora em que te recolhes, indefesa, para te vir incomodar... Nem temas o dia, não fujas da luz nem das pessoas que ela traz...
Tem confiança em ti, pequenina. Não fujas das felicitações, elogios ou abraços que vês virem na tua direcção... Não te vão magoar, nem virar contra ti no último instante.
Olha para ti. Estás um ano mais velha. Sentes a idade que tens?

18/12/2012

Metamorfose

...aquela vontade que dá de ousar. De "seguir a minha estrela". De telefonar. De ir. De dizer. De abraçar. De me perder.
 
Depois acordo do devaneio, no dia seguinte, e sinto o peso do que não aconteceu, do que não fui... e respiro agradecida pela minha falta de impulsividade. Como se a noite anterior tivesse sido uma metamorfose, alguma Lua que me deu, desvarios de uma imaginação recheada de histórias de terceiros roubadas de livros e filmes... Como se à luz do dia eu não pudesse suportar a farsa que a noite me inspira.
Então rastejo a minha rotina diária e, à noite, acorrento-me à rocha firme que é a certeza de que o que farei se der asas àquela inspiração insana se voltará contra mim no dia seguinte...
 
Quantas noites mais me atreverei eu a ser igual?
 

12/12/2012

The Words - As Palavras

Este é uma daqueles filmes extarordinariamente simples, tão leves e despretensiosos, que começamos a ver numa de "a ver o que sai daqui", e aos 6 minutos já estamos completamente agarrados...
Eu tenho muito a mania de falar na primeira pessoa do plural, porque acho (oh, doce egocentrismo) que toda a gente vai ter a mesma reacção e opinião que eu.



O filme é belíssimo. O trailler levanta uma pontinha do véu... mas só vendo. Só vendo, porque não há floreados, nem reviravoltas, nem cenas de suster a respiração...o filme vê-se enquanto se respira devagar... e se inspira o que se vê e o que se ouve da boca das personagens, lindas, todas!
 
Este filme cai-me no colo sem eu pedir... pela mão de um amigo. E eu vi-o, para passar tempo, mas fui apanhada desprevenida... E agora penso... penso no peso das palavras. No poder que passa pelos dedos de quem escreve. Como tecem uma teia (às vezes com o coração, outras vezes com a inteligência eloquente), uma teia que envolve os que lêem... Se só se passar os olhos pelas palavras, o feitiço não funciona. É preciso lê-las. Ler o que elas dizem e saber ir escolher entre os seus mil significados aquele que o escritor lhe quis imprimir.
 
As palavras têm peso. Os gestos têm peso. A mim pesam-me. Pesam-me no peito a ponto de me fazer dificil inalar o ar e aflitivo exalá-lo.
Tenho medo de palavras e gestos que possam vir das mãos do amigo, que sejam apresentados como dádivas, como um agradecimento pelo meu sorriso, que é sempre grande, como uma brincadeira, como um laço... Tenho medo que venham muitas coisas...e que eu não suporte o seu peso.

11/12/2012

O pequenote foi ao doutor

Levar o pequenote à oficina, é terrível, parece-me sempre uma ida ao hospital... chego porque ele se queixa e tem sintomas cuja causa desconheço e entrego-o nas mãos dos senhores que são sempre simpáticos (são sempre estranhamente simpáticos com as meninas, os senhores mecânicos, não são??)... Enfim, entrego o pequenote e eles lá vão com ele lá para dentro daquela garagem ampla, fria e cheia de correntes de ar, abri-lo todo, e eu fico sozinha, na salinha de espera ou cá fora a cirandar para um lado e para o outro... e cada senhor que passa de bata ou macacão ou mãos sujas me parece muito sério e temo que venham dirigir-se a mim para anunciar alguma doença grave, terminal, ou o óbito... E depois aparece um conhecido e, para matar tempo, explicamos um ao outro as maleitas dos nossos veículos, tentamos adivinhar causas, pomo-nos a tentar calcular de quanto poderá ser "o tombo" e terminamos com a frase "um carro é pior que uma amante"...
Lá vem, por fim, o senhor que está a cuidar do nosso pequeno, com uns papelinhos na mão que eram como que um electrocardiogarma da bateria e do alternador e mais não sei o quê... e era mau. Era muito mau... "Podemos prosseguir com a substituição da bateria?", pergunta ele, e eu tenho a certeza que já vi alguem dizer aquilo num episódio da Anatomia de Grey...
Pois bem, espero mais uns vinte minutos e saio de lá com o pequenote (quase) como novo, e a prometer a partir de agora tratá-lo melhor, protegê-lo dos elementos e das pancadas nos passeios... e com a conta bancária ligeiramente amortizada.
Ainda bem, estava a começar a incomodar-me ter tanto dinheiro para gastar em compras de Natal...

09/12/2012

Não é para perceber

Conhecem a história do cão?
O cão esfaimado fechado numa jaula e a quem colocam, do lado de fora, claro, um bifinho suculento... O cão desunha-se a tentar alcançá-lo, em vão. Está tão vidrado, tão obcecado com o bife quenem repara que alguém abriu a porta da jaula atrás dele e que, para alcançar o seu objectivo, só precisa de se distanciar, de olhar em volta, de perder a obcessão. Quando fizer isso, facilmente verá o caminho que o leva ao seu objectivo.
Eu tenho sido esse cão.
Desequilíbrio insano. E depois preparo-me para sair, como se para uma batalha ou um teste... e noto, surpreendida, que cada peça de roupa cuidada que coloco, me sinto mais "apta" e "aceitável". A cada camada de sombra que espalho nas pálpebras e cada linha firme traçada com o lápis sobre a linha das pestanas a minha máscara protectora ganha consistência.
Pareço-me com os outros, sou igual a eles e é assim, camuflada de acordo com o ambiente circundante que me apresento, mais vacilante do que aparento.
Fumar um cigarro no escuro faz-me mais arrojada do que nunca e bastou um baralho de cartas para me esquecer de mim.
Passei uma noite fora daquilo que sou. Como a Cinderela. Quando regressei a casa voltei a ser Gata Borralheira, mas tive sonhos bonitos.
De manhã, fui à missa sozinha. Uma velha amiga da minha mãe chamou-me para o lugar vago a seu lado e, vindo do nada (que teima tenho eu em buscar motivos para as coisas??) segurou a minha mão, sob pretexto de a aquecer, durante toda a homilia.
Isto são "coisas", para mim. Coisas fora do que eu sou. Às quais às vezes pareço ter alergia, outras vezes, terror... Outras vezes, sabem-me bem...

07/12/2012

"A Solidão dos Números Primos", de Paolo Giordano

 
Este é um daqueles que constaria da lista restrita de livros "A tua casa está a arder e só podes levar meia dúzia deles".
Comprei-o e li-o em Fevereiro de 2010. No final, lida a última frase, fechei-o e abracei-o com força. É a forma mais simples e mais directa que tenho para caracterizar o efeito que teve em mim.
 
Guardei-o e agora cedi à vontade de o reler, de o re-sentir. Porque este livro não se pensa ou lê, simplesmente. Tem que ser absorvido e respirado.
 
Os números primos são números solitários. Singulares. Divisíveis apenas por si próprios ou pela unidade. E há pessoas, como Alice e Mattia, que são como esses números primos. Especiais e inconfundíveis, inevitavelmente isolados, cheios de segredos e encantadores, se os soubermos olhar com atenção. Basta ler a sinopse para ficar com uma ideia, muito ligeirinha:
 
Alice é obrigada pelo pai a frequentar um curso de esqui para ser forte e competitiva, mas um acidente terrível deixará marcas no seu corpo para sempre. Mattia é um menino muito inteligente cuja irmã gémea é deficiente. Quando são convidados para uma festa de anos, ele deixa-a sozinha num banco de jardim e nunca mais torna a vê-la. Estes dois episódios irreversíveis marcarão a vida de ambos para sempre. Quando estes “números primos” se encontram são como gémeos, que partilham uma dor muda que mais ninguém pode compreender.
 
E é isto. Tão simples, mas tão profundo. Já o recomendei e emprestei a algumas pessoas e não me pareceu que ficassem tão tocadas como eu... Acredito que seja uma questão de sensibilidade. E de compreensão. Porque me sinto às vezes como um número solitário, sem gémeo... Não nos sentiremos todos, de vez em quando?
 
Só uma notazinha, sobretudo para as meninas... Vale muito a pena ir espreitar o escritor... Este Paolo Giordano é um regalo...

03/12/2012

Adivinha o que é...

É das coisas melhores do mundo. Das mais naturais e espontâneas.
É inata. E o que é inato é, normalmente, além de bom, necessário também. Que não haja tabus. Travo há anos uma luta morna mas persistente contra a destruição deste tabu. É necessário. É libertador. É uma necessidade, uma inevitabilidade, às vezes.
É um sinal que o nosso corpo se tornou pequeno para conter aquilo a que o forçaram. É um sinal de que o medidor de pressão interno está no nível vermelho, o que indica "PERIGO" e, ao cedermos ao impulso irresistível, vamos fazer esse alarme parar de tocar e folgar um bocadinho.
É um momento muito nosso, de cada um, em que nos concentramos no ritmo da nossa respiração, para não sufocarmos, em que não conseguimos falar... que maravilhosa a certeza de que não nos serão exigidas palavras enquanto dura!
Quando termina é como se uma maré muito cheia vazasse, finalmente. Surpreende-nos a acalmia que se propaga por todo o corpo depois da grande convulsão.

Chorar.

Apercebo-me que, ao lerem o que escrevi, é compreensível que as vossas mentes tenham vagueado por alternativas muito diferentes... Juro solenemente que não escrevi de forma a alimentar essa ambiguidade e paralelismo. Não é interessante, como as coisas são??

01/12/2012

"Cem anos de solidão", de Gabriel Garcia Márquez


Primeiro livro que li deste colosso... o pouco que li de escritores hispano-americanos não me cativou muito, daí ter demorado um tempo a dar oportunidade a este. Mas gostei.
A história é complicada, tal como me tinham avisado, muito por culpa da quantidade de membros e das várias gerações da família Buendía que se cruzam e se relacionam às vezes de maneira estranha, mais ou menos animalesca, mais ou menos incestuosa... a edição que eu tenho vem com um esquema da árvore da família, que consultei uma boa dúzia de vezes e que ajudou imenso...
De alguma maneira, fez-me lembrar a escrita de Mia Couto, no sentido em que dei por mim a pensar "sei que esta frase/parágrafo/capítulo tem muito sumo e simbolismo para se retirar e pensar", mas não me dei muito ao trabalho de o fazer. Deixei passar essa parte mais "profunda" ao lado e li apenas pelo prazer de ler...
Tem tristeza e destino, tem loucura e descontentamento, também tem resignação... Tem sonhos e utopias, tem dores e mortes e ascenções luminosas. Tem guerras e amores inadiáveis... E termina com um arrepio poderosíssimo.
Encanta a facilidade com que as palavras surgem e nos sugerem imagens tão nítidas na mente, e entretém a multiplicidade de histórias secundárias, pequenos eventos e pormenores da personalidade das muitas personagens.
Percebo, agora percebo que se diga que este é um dos mais notáveis escritores do nosso tempo.

29/11/2012

Post que não foi

Eu vinha escrever... Mas não vou. Não vou fazer mais um post cansativo a tentar explicar os meus desvarios mais para minha própria compreensão do que para quem me lê...
Não vou dar tempo de antena a terrores artificiais e ansiedades fúteis de sítios que ainda não vi, de palavras que ainda não ouvi, de gente que não vejo... As pessoas de todos os dias metem-me medo; os cheiros são todos intoxicantes; as cores são todas estridentes; as paredes demasiado apertadas (ou demasiado frágeis, se o objectivo for proteger-me dentro delas); os espaldares das cadeiras, sufocantes; as palavras, plásticas; a minha respiração, ofegante; as minhas mãos geladas; a minha pulsação, desvairada. Ansiedade, pânico, claustrofobia são palavras muito feias mas demasiado leves e curtas para exprimir... E, enquanto tudo isto me passa pela cabeça, por uma ridicularice, só porque um gatilho foi pressionado, as pessoas continuam as suas conversas e interacções e movimentos...
Faltam-me as palavras e esta insanidade indizível, vinda sabe-se lá de onde, paira por aqui, dona do pedaço, mais por sugestão, porque já aconteceu antes, do que por alguma ameaça real e premente...
Quão avariada sou? E, por me ter dado conta disso, de que dou demasiado tempo de antena a esta treta, resolvi não escrever este post... Mas já que aqui estou, não resisto a partilhar um tesourinho do Facebook que, dadas as circunstâncias, parece ser sobre mim:

24/11/2012

The Girl With The Dragon Tattoo

...ou "Os Homens que odeiam as mulheres".

ADOREI!
...e que bom de se ver no quentinho...
...no quentinho do cobertor, ou do sofá, não no aconchego do lar com a família à volta.
O filme não é lá muito "familiar"...
Eu já me calo...

22/11/2012

O quadro de cortiça

Tenho-o há anos... uma daquelas reivindicações inofensivas da adolescência. Para pôr fotos minhas... muitas... e algumas com amigos...
Há anos que está ali, na parede aos pés da cama. Já perdi a conta às vezes que lhe limpei o pó... Já lhe alterei a disposição tantas vezes que, em alguns sítios, os pioneses já ficam soltos.
Hoje, enquanto me calçava, os meus olhos foram lá parar e, pela primeira vez reparei que a maior parte das fotos está parcialmente coberta por... coisas. Bilhetes de cinema, de entrada em Museus, em Teatros, da Queima, escritos por amigos, duas folhas secas de plátano de dois Invernos diferentes, o enfeite que vinha na taça de gelado gigante que comi na Suíça...
Papeladas, velharias que, à medida que chegam a casa são ali postas, sem outro citério que não seja terem um espaço adequado à sua dimensão e um pionés de uma cor que combine bem.
Tralhas, a taparem fotos... Surpreendentemente, não me escandalizei.
Retratos imaculados onde sou só eu seriam uma visão bonita, digna de catálogo de casas modelo. Mas, na vida, o que preenche são as coisas que vimos, que tocámos e saboreámos. Essas coisas são o que somos.
 
 

16/11/2012

Luz...?

(imagem do filme "The New World", retirada de http://filmgrab.wordpress.com/movies-a-z/)

...não é irónico que, sendo tu Luz, sejas também a única responsável pela existência de sombras?
 
Que as sombras onde me movo sejam sempre de protecção, de onde eu possa ver e habituar-me à Luz. Que sejam sempre assim e não sinónimo de escuridão.
 
 
 
Hoje, numa brincadeira, caí e dei uma valente cabeçada no chão... já passaram horas e ainda a sinto latejar, tanto no sítio onde bati (nuca) como no lado oposto (testa)... Qualquer incongruência deve ser, por isso, perdoada...

10/11/2012

007 - Skyfall

Mas o que é isto, meu Deus??!
Like a Boss, o Daniel Craig emborca um copito com um escorpião pousado no pulso... Uma de muitas cenas brutais (por brutal, entenda-se "SEXY!!!!") do filme...
 
Pois... eu não sou muito fã dos filmes do 007... Não me lembro do Sean Connery no papel. O Roger Moore pareceu-me sempre aquele velhinho que tem a mania que ainda tem 20 anos, e o Pierce Brosnan foi talhado para papéis como o do Mamma Mia, não tanto para super-super-espião-ultra-secreto-e-sensual. Nisso, o Daniel Craig é um achado.
 
O filme está um espanto. Não tem aquela espectacularidade (plástica e demasiado pomposa, quanto a mim) quase ao estilo "Missão Impossível", que caracterizava os anteriores filmes do famoso James Bond. O filme é feito de detalhes deliciosos,  tem um elenco notável e é tocante em tantos momentos. A famosa cena da queda da ponte faz-nos suster a respiração e depois lá vem a música fenomenal da Adele, qual cereja gigantesca no cimo de um bolo de chocolate e massa folhada e gomas e marshmallows... É bastante emocional e mostra um lado mais pessoal da história das personagens centrais, a M e o próprio Bond.
 
Enfim... blá blá... Falo sempre melhor sobre livros, não sei porquê...

09/11/2012

Inimigos, são como flores

...cultivam-se. Com carinho e dedicação...
Ai, ter inimigos! Dá mais trabalho do que manter os amigos. Os amigos são gente boa, gente que está lá, apesar da distância ou do desinteresse. A amizade subsiste, durante anos, toda uma vida. E vive sempre que um dos amigos se lembra de uma história ou faz um telefonema só para perguntar "como vão as coisas" e "o que contas"... A inimizade é mais frágil. Ela tem que ser acalentada regularmente, caso contrário, murcha e morre. É logo substituída pelo ligeiro desdém ou a simples indiferença... Não. A inimizade precisa de cuidados constantes para não se desvirtuar nem esquecer motivos, injúrias, insultos despropositados, faltas de consideração ou mesquinhices obtusas. É uma troca constante, incessante e persistente de farpas, estocadas e coices. Silenciosa (entre sujeitos discretos e polidos) ou ruidosa (quando entre pessoas de temperamento mais aceso), a inimizade é, apesar de não parecer, uma relação frágil.
Ter inimigos é uma questão de higiene pessoal, li eu não sei onde... Nunca ouviremos verdades tão sinceras como da boca de um inimigo. Nem nunca nos sentiremos tão livres como quando estamos na sua presença. 
 
Atenção... Desengane-se quem já pensa por esta hora que andei a cultivar inimigos nos últimos dias. Nada disso, nada disso! Não tenho perfil, estofo ou vontade para isso... Mas há aquelas pequenices tão ridículas que nem merecem ser mencionadas que me fazem pensar, às vezes: "se algum dia a Anarquia tomar conta dos nossos destinos ou a Lei Marcial reinar sobre a Terra, tu, malando/a, és bem capaz de me vir infernizar... e, se não vieres, eu própria me encarregarei de te perseguir e aniquilar."

05/11/2012

A Fábrica de Letras

A Fábrica tem paredes feitas de papel. Papel pautado, papel liso, papel quadriculado, amarrotado, imaculado, de todas as cores, com cheiros distintos, onde se misturam caligrafias diferentes.
A Fábrica tem uma chaminé muito alta que fumega especialmente nos primeiros dias de cada mês, quando cozinha um novo desafio. Os bloggers que têm janelas viradas para a Fábrica apercebem-se do bulício e atiram-se cheios de garra ao novo tema... Tantas ideias, tantas palavras se cruzam e chocam... e os caminhos para a Fábrica ganham vida e, aos poucos mas certamente, lá vão chegando participações, contribuições, partilhas, dádivas. E as paredes da Fábrica ganham uma nova cor e são ricas, muito ricas!
Eu sou uma operária. Vim aqui parar por intermédio da Fabi. Observei os operários mais antigos, aprendi e, depois de ganhar confiança, comecei a contribuir com as minhas palavras...
A Fábrica não está sujeita a greves, nem a ataques de sindicatos. A Fábrica é liberal. É uma entidade patronal simpática, muito lá à frente.
É uma Fábrica de Letras e Palavras, onde se fabricam também elos de ligação entre bloggers desconhecidos que, por um momento, se detêm numa mesma palavra ou tema e se atrevem a deixar a sua alma, os seus olhos e o seu coração abertos para quem os quiser ler, nas paredes da Fábrica.
A Fábrica é linda!
 
 
Como é mais do que evidente, este texto é feito para a Fábrica de Letras, cujo tema para o mês de Novembro é ela própria, a Fábrica.
 

My Super Special Power


Às vezes, por um momento, um momento muito fugaz, que não dura mais que uns minutos, eu sinto o meu Poder. Sem me esmagar, nem me tirar o ar ou dar vertigens. Eu ostento-o, em vez de o carregar.
Por um momento eu sou capaz de sentir o meu Poder, como uma vibração no ar à minha volta, um peso e cor especial nos objectos que toco, um brilho novo devolvido pelo espelho.
O poder não vem de mim. Eu sou igual. O poder vem da admiração, adoração até, que outros me oferecem. Normalmente, nego-o. Irrita-me a pele e os sentidos.
Mas às vezes, só durante uns minutos, eu sou capaz de o acolher e de me sentir protagonista na minha própria história, em vez da personagem secundária que prepara a entrada das personagens principais.
Não sei de onde vem, o que o despoleta... Se é algo no ar que respiro, se a música que ouço, se algum especial alinhamento de todos os chakras nos quais não acredito...
"É uma receita para o desastre", diz a figurazinha que tem as minhas feições mais angelicais e veste de branco, cabelos de ouro encaracolado e uma aureolazinha flutuante sobre a cabeça...
"É um intervalo na tua vidinha de rotinas e carpe diems da treta", sussurra uma outra, a mesma cara, feições mais  decididas, vestida de cores chamejantes e uma dança ululante.
Se eu aprender a convocar o meu Poder, se aprender a controlá-lo, sem temer que ele me controle a mim... Tremam!

31/10/2012

Pessoas, Livros

(a imagem foi-me enviada por um amigo que sabe o quanto gosto de ler. Não sei onde a foi buscar...)
 
As pessoas são muito como os livros.
Escolhe criteriosamente aqueles que te rodeiam, porque sabes bem que existem no mundo mais do que aqueles que poderás ler em duas vidas, quanto mais numa. Por isso, não há tempo a perder com livros vazios.
Não sejas mesquinha ao ponto de pensar que só os livros que te interessam merecem existir. O livro certo para ti pode ser lixo para um milhão de outros, assim como o livro que mais desprezas pode ser exactamente a praia de outros tantos.
Avalia bem a capa. Ela costuma ser sugestiva. Mas não te surpreendas se o conteúdo não for exactamente a condizer. É inevitável a sensação de que foste enganada se o conteúdo for mais pobre, mas é maravilhosa a sensação de descobrir que uma capa que não vale nada esconde um conteúdo riquíssimo. Hás-de passar pelos dois sabores.
Há um livro certo para cada momento. E o facto de este te parecer intolerável agora, porque não vai bem com a tua disposição, não significa que amanhã, ou depois, não seja o livro perfeito para ti, aquele que mais precisas para te confortar.
Os livros são muito como as pessoas. Podem até ser sempre os mesmos, mas os teus olhos e a tua consciência irão fazer-te olhar para eles de forma diferente de cada vez...
Como as pessoas, podes tê-los à cabeceira, à mão, para todos os momentos. Ou podes pô-los numa estante, entre os outros, sujeito ao pó, até que o teu capricho guie a tua mão até ele e o retire do anonimato outra vez. O livro estará lá, as suas palavras serão as mesmas.
Serão? Há sempre a possibilidade de as encontrares comidas pelas traças, borradas por alguma humidade ou meio apagadas pelo pó e pelo tempo. Mas o livro está lá e basta uma ação tua para o abrir.
Os livros e as pessoas existem, independentemente de ti. Mas existem de uma maneira diferente quando te ligas a eles.

30/10/2012

Prémio Dardos

A Poppy teve a generosidade de me oferecer um selinho, em reconhecimento e apreço pelas altas intelectualidades que eu aqui vou postando... Cofff, cofff... (isto é um tossicar afectado, caso não tenham percebido...)


Ora, o Prémio Dardos foi criado pelo escritor espanhol Alberto Zambade que, em 2008, concedeu no seu blog, Leyendas e el pequeno Dardo, os primeiros Dardos, destinados a quinze blogues, que deveriam indicar outros blogues igualmente merecedores e por aí fora. Assim o prémio se espalhou pela internet, e destina-se a reconhecer os valores e empenho demonstrados por cada escritor de blogue. 
As regras do Prémio Dardos são:
1 - Exibir o selo;
2 - Linkar quem o premiou;
3 - Escolher outros blogues para indicar o prémio;
4 - Avisar os escolhidos.

Portantosss.... O selinho cá está. O link para a mui generosa Poppy também. Os blogues a quem eu reconheço valor e, por isso, acho merecedores de o ostentarem (mesmo sabendo que alguns não irão partilhar...) são (por ordem alfabética):

1 - A minha travessa do Ferreira, embora, por motivos incontornáveis, o caro Ferreira ande um pouco por fora destas blogosferas;
2 - À esquina da tecla, onde há sempre um passeio, uma fotografia, um pensamento ou um silêncio inspiradores;
3 - Blog do Otário, por tantas e tantas Otarices incansavelmente partilhadas;
4 - Crónicas do Rochedo, lugar de tantas crónicas, algumas passadas, outras actuais, algumas doces, outras mais amargas, mas sempre boas de se ler;
5 - El Matador, cujas histórias (ou estórias) e heresias muito me entretêm;
6 - Just a Woman, que, não fosse já o conteúdo do blog do mais rico e são, o selo seria merecido só pela autora que, com tanta assertividade e generosidade sempre me vem comentando. Obrigada!
7 - Love at Sight, que proporciona sempre visitas agradáveis aos olhos, aos ouvidos e à mente;
8 - Lágrimas em Ré Maior, que é escrito pela Fabi, uma menina muito "real", muito "normal", muito "como eu";
9 - Mundo Catso, pelas gargalhadas e bom humor que sempre provoca, mesmo sobre os assuntos mais corrosivos. Porque rir é mesmo o melhor remédio;
10 - Os meus óculos do mundo, porque vale bem a pena dar uma espreitadela através dos óculos simpáticos e sensíveis da Teresa;
11 - Utopia Realista; porque ser Utópico não faz mal a ninguém; ainda por cima, estas são Utopias Bem  Realistas;
12 - Val'nada, Johnny, tenho imensas saudades dos teus escritos! Enquanto não regressas às postagens regulares, vou de vez em quando dar uma vista de olhos às passadas. Vale sempre a pena!

São, no geral, os blogues onde perco a maior parte do meu tempo porque,por um ou outro motivo, me encantaram. Espero que, mesmo que não partilhem o selinho (já ouço alguns meninos ao fundo a dizer "só paneleirices..."), sintam com isto que os valorizo milhões. Obrigada por escreverem!

27/10/2012

Scar Tissue, de Anthony Kiedis


Man... Isto foi muito bom.
Se a minha apreciação geral foi influenciada por eu ser doida por este homem? Siiiim...
Se compreendo as críticas que li que diziam que aquilo é repetitivo e sem grande estrutura, apenas uma sucessão de "then this happened, then this happened, but this had happened in the meantime and then this happened"...? Compreendo perfeitamente, embora não o tenha sentido assim.
Se a minha opinião seria a mesma caso eu não fosse doida pelas músicas dos Red Hot? Provavelmente não.
O que gostei mais? De perceber o processo criativo que está por trás de alguns dos grandes álbuns desta banda genial e a inspiração para algumas músicas. As letras escritas pelo Anthony têm muitas metáforas e muitas referências sublimes ao mundo das drogas, ao amor e ao sexo, aos amigos: elementos que estiveram sempre muito presentes na sua vida, que lhe deram momentos de euforia e bem-estar mas também muitos momentos miseráveis e degradantes.
Para quem gosta dos Red Hot, para quem quer perceber um pouquinho melhor de onde toda esta exuberância veio, do que significam verdadeiramente algumas das melhores músicas que eles produziram, para quem quer conhecer um exemplo daquilo que uma pessoa não deve fazer/ser, ao ponto de criar uma relação amor-ódio com este ídolo hedonista e caprichoso, imaturo e imprudente, bondoso, humilde e despretensioso... que conheceu e cantou com os Nirvana e os Pearl Jam, que teve uma paixão desenfreada por todo o tipo de mulheres e deixa uma bênção e um obrigado a todas elas, independentemente do que causou a sua separação, que conversou e apertou a mão do Dalai Lama, que partiu as costas por saltar de uma varanda para uma piscina e acabar por cair no lado de fora, que ficou com a mão direita desfeita por um acidente de mota, que viu alguns dos seus melhores amigos morrerem jovens e estupidamente... Este é um ídolo verdadeiro. Um que é igual a nós, ou mais miserável ainda mas que, apesar disso, teve a força e a perseverança de emergir e buscar conforto fazendo-se ele próprio conforto para aqueles que passaram pelo mesmo ou, simplesmente, para os que o ouvem, através de milhões de CDs vendidos. Um herói tão verdadeiro que admite não se arrepender do caminho que calcorreou, da experiência de vida e histórias incríveis (improváveis, até) que, com toda a humildade nos conta, num tom muito simples e ligeiro.
Em suma, e porque o post já vai longo, é GRANDE livro.

nota: li a versão em inglês, porque nem sei se existe traduzido para português...

23/10/2012

Ontem ouvi...



"És um amor.
Estão a bater-te e tu pensas que é a brincar..."
vindo de uma voz leve, séria e acariciadora.

Hesitei.
Depois ri.
Depois, mais tarde, pensei no assunto.
Fiquei incomodada. ISTO É UM ABR'OLHOS!

Hoje voltei a pensar no assunto.
Olhei bem nos olhos da pessoa que me falou assim.
...e decidi reconciliar-me comigo.
Não é ideal. Mas é o que se arranja.




21/10/2012

A Manta


Todos temos uma manta. Aquela da infância era fofinha, felpuda, tinha o nosso cheiro e nós usámo-la até os cantos começarem a desfazer-se e as cores serem irreconhecíveis.
A manta protege-nos do frio. E dos papões. Basta puxá-la até nos cobrir a cabeça, segurá-la com força, prender o fundo com os pés, entalar os lados debaixo do corpo. Estamos hermeticamente protegidos e dormimos sossegados.
E é horrível o dia em que nos vêm dizer, ou descobrimos por nós próprios, que a manta... é só uma manta. E que, se o frio aumentar, nós vamos congelar, apesar dela. E que, se os papões vierem mesmo, muito facilmente eles nos arrancam da nossa protecção fingida.
O que será de nós, quando isso acontecer?
E, enquanto não acontece, como poderemos continuar a apreciar a nossa manta e a dormir descansados com ela?

14/10/2012

Apontamentos...

Às vezes penso que sou solitária porque não acredito que alguém possa gostar de mim sempre.
A maior parte das vezes penso que sou solitária porque sou incapaz de gostar dos outros sempre.

O futuro é mais fácil de encarar se estiver longe, tipo "ah e tal, daqui a um ano ou dois, coiso..."
O futuro é assustador se tivermos que o colocar a curto prazo, tipo "daqui a uma semana aquilo que hoje é o meu futuro incógnito vai estar a acontecer".
O futuro assim colocado assume o papel de mãe que nos apanha em flagrante a comer Cola Cao às colheradas.

Naquele limiar do sono, em que ainda nos apercebemos dos sons e luz à nossa volta mas já não os conseguimos "processar" ou reagir, imaginei/sonhei que morria, que via uma cova... Eu, morta, via uma cova. E só pensava "vai estar escuro ali dentro e vou estar lá muito tempo... se ao menos tivesse alguma coisa para fazer, para não me aborrecer"... Vagamente pensava que a minha mãe devia estar muito triste mas a minha principal preocupação era aborrecer-me pelos séculos dos séculos... nem ao menos um livrinho...!
Arrepiei-me quando me lembrei deste "sonho".

11/10/2012

"O Ditador"


Vi hoje...
...sim, já sei que venho tarde, mas também nunca ninguém me ouviu dizer que vejo os filmes todos logo que saem, ainda quentes...

A minha apreciação?
Ficaram a doer-me os maxilares e até fiquei com dor de barriga e costas... de tanto me rir, entenda-se...

09/10/2012

Ping'Amor Por Aí


Pois hoje Pingou Amor aqui para os meus lados... Não fui eu quem encontrou o Pingo, mas a pessoa que encontrou encarregou-me a mim de lhe dar seguimento, porque não é muito dada a essas coisas... De qualquer forma, cumpriu a sua missão de deixar um sorriso nos lábios de toda a gente que o viu!

Em dias cinzentos como os que temos tido, em que me é difícil respirar por tantos motivos, em que me comovo com tudo, em que me assusto por nada... foi apaziguador...

06/10/2012

Apetecia-me mesmo.... #12


...que chovesse desalmadamente.
Uma chuva torrencial, constante, daquela que torna baças as luzes, que faz parar os carros e deixa as ruas desertas. Daquela que faz do alcatrão uma superfície negra com reflexos de espelhos.
Que caísse primeiro num sussurro e que fosse crescendo, crescendo, até se transformar num rugido. E que a terra, aliviada da seca, soltasse um longo ahhhhhhhhh..., audível só àqueles que, como eu, soubessem apreciar a chuva.
E que houvesse relâmpagos luminosos e, 4 segundos depois, a trovoada... uma trovoada que fizesse vibrar paredes e calasse o chinfrim dos pássaros que gritam lá fora, nas árvores. Uma trovoada daquela que faz toda a gente encolher-se e que me leva, a mim, para a janela...
Trovoada daquela que faz a minha avó dizer:

Santa Bárbara se levantou,
Seus sapatinhos calçou,
Ao caminho se botou
E encontrou um menino que lhe perguntou:
Onde vais, Bárbara?
"Vou espalhar a trovoada,
Lá para a Serra do Marão,
Que não dá palha nem grão,
E onde não há meninos a chorar,
Nem viúvas a rezar..."

Não me lembro do fim... nem sequer sei se as palavras são mesmo estas... Tenho que pedir à minha avó que mas dite...

03/10/2012

"Os Retornados - Um amor nunca se esquece", de Júlio Magalhães


O Juca esteve na semana passada na feira do livro cá da terrinha... Fui-me plantar lá para assistir à apresentação do "Não nos Roubarão a Esperança", com o objectivo de lhe ir pedir um autógrafo para uma colega que o adora e que não podia estar presente, já que a mim os seus livros nunca me despertaram interesse..
Fui... e gostei! Gostei de o ouvir, da simplicidade, do cómico despretensioso... de admitir simplesmente que foi convidado a escrever o seu primeiro livro porque, disseram-lhe, o que quer que as caras conhecidas da TV escrevam, as pessoas compram! Por isso, ele escolheu um tema que lhe era querido, que viveu, e sobre o qual muito pouco há escrito. Gostei de o ouvir gracejar acerca do facto de a editora o ter aconselhado a acrescentar ao simples título "Os Retornados", que ele tinha escolhido, a parte do "Um amor nunca se esquece", porque são as mulheres que compram livros e as mulheres gostam destes títulos assim... Gostei tanto de o ouvir  que, no final, fui a correr comprar o livro "Os Retornados" e lá fui pedir dois autógrafos: um para mim, que confessei humildemente ainda não ter lido nenhum livro dele, e outro para a colega Lu.
Escolhi este livro, entre todos os que ele escreveu e que resumiu durante o seu discurso, porque é o primeiro, porque trata o tema doloroso e recente da Ponte Aérea feita em 1975 entre Portugal e Angola e porque me quis parecer que foi o livro do qual ele falou com mais carinho.
E não senti as minhas expectativas defraudadas... Ele garantiu que os seus livros não eram literatura. Ele é um jornalista que escreve, logo, as suas histórias são contadas de forma muito simples, os acontecimentos vão-se sucedendo e o intimismo com que são revelados é delicioso e absorvente.
A história é comovente de todas as formas: pelo período conturbado que retrata, pelas personagens cativantes que são inspiradas em pessoas reais, pelos pormenores lindos que são revelados acerca daquela pérola do Império Português que foi brutalizada e destruída, por mostrar a verdadeira história dos "retornados", que nós, no continente, sempre desprezámos.
A Joana e o Carlos Jorge existem. Há milhares deles por aí... Cada um com a sua própria história e a sua adaptação dos ovos com açúcar... mas são tão reais. Tão lógicos. É um livro maravilhoso. Muito doce! Que se lê a correr, porque praticamente não o lemos: ouvimo-lo, numa voz interior que, comovida, faz uma partilha... Aconselho! Muito!

02/10/2012

Amazing moments in life

Às vezes penso que há algo de errado comigo...
Não penso que sou única, mas penso que sou parte da minoria, sou parte do grupo de poucas pessoas que não querem (ou não sabem) VIVER com os outros.
O meu convívio com os outros faz-se em minutos bem precisos e contados, em certos locais e contextos e um deslize para fora desses limites deixa-me, às vezes, desconfortável, outras vezes, em pânico.
Às vezes penso que me falta algum químico no sistema, alguma ligação no circuito, que me faz tão singular. Tão incapaz de ser NÓS num par ou no meio de um grupo; ser sempre Eu e os Outros.
Como se fossem extraterrestres, todos. Ou eu... como se fosse eu a extraterrestre e não me possa desconcentrar em momento nenhum, dar nenhuma resposta errada, fazer nenhum gesto estranho, destacar, sob pena de ser descoberta, exposta, devassada...
Há dias em que penso que há algo de errado comigo mais insistentemente do que noutros... Hoje é um dos dias mais...
E eis que, já a preparar-me para me recolher (uma das minhas horas favoritas do dia!), a internet me atira com esta: 

(imagem retirada daqui)

...e dei-me conta que, nesta lista, só 4 pontos estão directamente dependentes de outros..
E comovi-me. Comovi-me até às lágrimas, por ridículo que possa parecer... porque, afinal, a monotonia inóspita que é a minha vida deve-se, afinal, ao facto de eu saber aproveitar maravilhosamente os meus momentos sem ninguém. Isso preenche-me. Isso faz com que eu não sinta (quase nunca) falta de gente à minha volta..

E, quando sinto, normalmente sento-me e espero que passe...

28/09/2012

Acrescenta-me um ponto...


A Poppy lançou-me o desafio (malvadaaaa!!!)... (tou a brincar, ser desafiado é bom. É sinal que alguém quer espicaçar algum lado mais arrojado de nós...) O desafio chama-se ACRESCENTA-ME UM PONTO e orienta-se da seguinte forma:


1 - O texto, constituído por vinte parágrafos, terá início no blogue "O Sabor da Palavra" (http://osabordapalavra.blogspot.com), segundo o seu autor Gonçalo Cardoso.

2 - Cada bloguista terá direito a um parágrafo do texto com o máximo de cinco linhas. Não é taxativo, tanto pode ser mais ou menos, mas sem exageros.

3 - Após a realização do parágrafo respectivo, cada bloguista terá que seleccionar outro bloguista que cumpra a continuidade do texto, segundo as regras mencionadas.

4 - Cada bloguista terá o limite máximo de três dias para realização do parágrafo, estando sujeito a desclassificação da rubrica e seleccção de novo bloguista por parte do seu autor.

5 - Cada bloguista assinará o seu nome e respectivo blogue na lista dos participantes.

6 - O último participante ou autor do vigésimo parágrafo, finalizará o texto e partilhará com o autor do blogue "O Sabor da Palavra" para a sua divulgação no blogue inicial.

7 - Sejam criativos.

Lista de Participantes:
 1 - Gonçalo Cardoso (O Sabor da Palavra)
 2 - Buxexinhas (Pedacinhos de mim...)
 3 - Karochinha (O Meu Eu)
 4 - A Minha Essência (Roupa Prática)
 5 - Olívia Palito (Olívia Palito no País das Maravilhas)
 6 - L'Enfant Terrible (L'Enfant Terrible Lx)
 7 - Utena (Os meus idealismos)
 8 - Alexandra Martinho (Ouso Escrever)
 9 - AC ( nadadecoisanenhuma)
10 - Poppy (Apontamentos de Luz)
11 - Briseis (do meu pedestal)
12 -
13 -
14 -
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16 -
17 -
18 -
19 -
20 -

E começa assim:

"Já tinha dobrado as duas da manhã. Estava a sair da emissão de rádio, incomodado com um ouvinte que alegava a minha falta de isenção jornalística. Segundo ele, apenas dava voz aos ouvintes do sexo feminino e os temas escolhidos revelavam uma tremenda homofobia. Estapafúrdio, dizia para mim! Mas para o exterior resolvi o problema com a introdução de uma música de intervenção social. E assim fechei o programa. Peguei na mala, desci as escadas em direcção ao parque subterrâneo e ao chegar junto do carro encontrei um segredo envenenado..."

“No seu vestido vermelho delineado na pele, ela olhava-me intensamente recostada no capô do meu carro, como um lince que espera a sua presa. Por momentos o meu coração parou de bater. ‘Voltou…’, pensei angustiantemente. Fantasmas do passado e segredos escondidos no recanto mais negro do meu ser… Renascidos da minha cinza. Em passos lentos, dirigi-me a ela. As palavras silenciosas do seu olhar disseram-me para onde ela me levaria. Entrámos no carro seguindo para o local temido…”

"...por ambos.
Aquela falésia onde, alguns anos antes, a tragédia se abatera sobre as suas vidas alterou os seus futuros para sempre. E todos os anos, no mesmo dia, encontravam-se antes do amanhecer, naquela pedaço de rocha que se erguia sobre o mar, numa esperança vã de expiarem os seus pecados mais profundos. Chegados ao local, saíram do carro e mais uma vez, as suas mãos encontraram-se e uniram-se, os seus corpos aproximaram-se e ela disse-lhe:"

"... Com a voz tremida, sussurrada, gélida, com a postura hirta e consciente do momento, Amanda começa a debitar desenfreadamente como tudo aconteceu, naquela fatídica noite...
... "Não tive culpa! Não tive! Acredita em mim, por favor! Foi um acidente. Foi ele que escorregou da falésia, ele!" - Sedutora mas ao mesmo tempo frágil, ela sabia exactamente como emaranhar um homem na sua teia. Sabia exactamente a palavra certa a ser usada, o gesto proveniente, o olhar mais assertivo para a ocasião. Manhosa, laça-o num envolvente abraço onde o choro compulsivo é o senhor do momento. Entre soluços mas, com uma voz doce, repete incessantemente, "não fui eu! Não fui eu!" - Com o rosto apoiado no peito de Edmundo, via-se claramente o sorriso dissimulado que fazia. Ele, estava completamente rendido à fragilidade dela mas, ao contrário do que ela pensava, que o tinha nas suas mãos, Edmundo, também tinha algo a dizer..." 

 "...  acerca daquela fatídica noite.  Edmundo fixou o olhar na falésia e ficou em silêncio por alguns segundos, enquanto os braços de Amanda o envolviam. De repente,  ficou tudo absolutamente claro na cabeça de Edmundo, as peças do puzzle mental começavam a encaixar-se na perfeição. Lembrou-se da conversa off record que tivera com o inspector da polícia acerca do relatório da autópsia de Fred. Segundo o mesmo relatório, Fred havia ingerido uma dose substancial de whisky, confirmando assim o álibi de Amanda, de que Fred se desequilibrara e caíra daquela falésia. Porém, fez-se luz e um pormenor fulcral escapara a ambos: ao inspector da polícia e a Amanda, mas não a Edmundo..."

"...isto porque Fred não bebia whisky, sofria de doença celíaca, de modo que tudo o que contivesse glúten, o que incluía bebidas feitas de malte, não lhe passavam pela garganta. Por outro lado a revelação Fred fizera a Edmundo um dia antes da tragédia era de todo desconcertante, tanto mais que de dizia respeito aos três, sendo que conteúdo da mesma tivera desde então um profundo impacto em Edmundo, ao ponto de o mesmo perder parte da sua imparcialidade jornalística. Ainda assim, envolto no choro soluçado de Amanda, Edmundo era incapaz de proferir uma palavra, de partilhar com ela o que pensava porque havia mais um elemento em jogo, uma dúvida perene que o levava a sentir-se tal como o mar revolto e sem definição que vislumbrava no horizonte..."  

“Não querendo mas ao mesmo tempo sem conseguir parar a maré das lembranças chegou-lhe à memória aquela noite que hoje lhe dava o conhecimento do facto de Fred não beber whisky. Fred confessou-lhe num ousado momento de coragem que se sentia atraído por Edmundo e que isso o deixava sem saber como agir pois nunca tinha sentido isso por homem nenhum já que sempre fora um mulherengo por natureza!
A convivência dos dois, muito por culpa de Amanda, o lamber das feridas causadas por esta mulher de escrúpulos nulos tinha feito com que os sentimentos florescessem em dois homens que mesmo nada indicando que assim fosse os levou a sentir o que para ambos deveria ser tabu.
Edmundo voltou a realidade com um soluço mais audível de Amanda e quando à olhava no profundo dos seus olhos verdes deu-se conta…”

"...deu-se conta do quanto aquela mulher já havia sofrido. Fred horas antes de falecer havia contado a Edmundo que Amanda aos 20 anos se havia submetido a uma cirurgia de retribuição sexual. Sim, Amanda fora um menino em outros tempos, mas hoje era aquilo a que Fred e Edmundo chamavam de tentação. Edmundo olhava-a e um misto de sentimentos lhe assolavam a mente, perdera alguém que lhe era muito próximo, um amigo, mas também, um silencioso admirador. E ali, diante de seus olhos estava a mulher indefesa e esbelta que soluçava e por quem ele era estupidamente apaixonado, mas que carregava tão pesado segredo. Segredo esse que toda a sociedade condenava e condena. Edmundo perturbado necessita voltar, ir ao encontro do seu pedaço de chão para meditar e montar todo aquele puzzle confuso. Suplicou-lhe - "Amanda, necessito ir, vamos?". Amanda para ele olhou, com olhar fugaz, e disse..."

"...És um homem cruel senão me aceitas como sou. E se assim for sem dúvida que não me mereces.Sou especial, sou única e estou disponível para te amar, com tudo o que tenho para te oferecer, mas jamais partilharia a minha vida ou o meu corpo, com quem olhasse para mim com desprezo ou nojo. Sendo assim cuida-te, olha para ti, observa-te com atenção e vais reparar em todos os teus defeitos... por agora vou apenas embrulhar-me no teu casaco sentir o teu cheiro e o teu calor que são presença nele e esperar que tu abras os olhos e possas ver para além do físico, do estereotipo e do preconceito a mulher que hoje eu sou...estou aqui, estarei sempre aqui para ti... de braços abertos...anda, decide-te não tenho o tempo todo..."

"... mas na cabeça de Edmundo cada vez mais as dúvidas e as desconfianças se instalavam. Havia demasiadas incongruências em torno daquela noite e um relatório conivente com o que Amanda lhe dizia mas contrário ao que conhecia de Fred, este jamais poderia ter bebido Whisky naquela noite. Não estavam em causa os desejos que nutria por aquela mulher, não se colocava em questão a mudança de sexo, o que lhe assolapava as ideias era tão somente o que teria sido capaz de fazer aquela mulher de escrupulos nulos, de vermelho vestida se soubesse do que acontecera entre eles, não foi capaz de lhe dizer nada mais. Levou-a a casa e naquele momento só uma coisa lhe ocorria, tinha de estar com o inspector responsável pela investigação..."

"O encontro perturbador, aliado ao adiantado da hora, tinha um efeito nefasto sobre a sua lucidez. Conduzia como um autómato, a cabeça longe, muito longe da estrada por onde os olhos passavam. Era de noite, ainda. Para não enlouquecer durante as longas horas que antecediam a manhã e a sua oportunidade de falar com o inspector, foi para casa, tomou um banho tão quente quanto conseguiu tolerar e, ainda com o cabelo a pingar água e a pele a fumegar vapor, sentou-se a escrever a sua versão dos factos, a sua memória dos acontecimentos, caso algo lhe acontecesse… Escreveu tudo, longamente, e concluiu com a revelação do facto mais bem guardado:"


...e, neste ponto, gostaria de ver a Teté, que gosta imenso de ler e que sempre nos presenteia com posts adoráveis sobre os assuntos mais banais, a pôr a sua linda imaginação ao serviço do enriquecimento desta história, que já vai longa... =) 

"O Clube de Tricô de Sexta à Noite", de Kate Jacobs


Este é um daqueles livros ligeirinhos... fofinhos... em que temos um grupo de senhoras bastante heterógeneo, desde a heróica mãe solteira que consegue ter sucesso em Nova York, à mulherzinha loira e escultural que fez um casamento milionário e que nunca se sentiu realizada ou amada, passando por uma idosa viúva, rica e bondosa, à estudante modernaça que odeia tudo o que simbolize a sociedade patriarcal e o domínio sobre as mulheres...
A vida destas personagens aparentemente tão díspares encontra-se à volta da mesa do Clube de Tricô de Sexta à Noite... É uma história sobre as lutas pessoais de cada um, sobre fazer as pazes com o passado, sobre o futuro se construir pelas nossas acções e não por intervenção de algum karma...
Os diálogos, às vezes, são um bocadinho secantes, assemelhando-se a falas de telenovela. A história nada tem de empolgante ou interessante que puxe para uma leitura compulsiva... É aquele livro que se vai lendo, mais por simpatia pelas personagens em si e pelas suas histórias particulares do que por alguma trama magistral... O final é desconcertante e quase irónico...
Enfim, este livro foi um passatempo. E, como o tempo, também ele passou por mim... Serviu o seu propósito de entretenimento ligeirinho, após a razia que fiz ao livro do Ken Follett (A Chave para Rebecca) que li anteriormente. "O Clube de Tricô de Sexta à Noite" é a antítese do outro.

26/09/2012

Ai, as Fundações...

A minha está, fatalmente, na lista das que vão ser extintas. Assim. Sem apelo nem agravo. Caso encerrado. Declare-se o óbito.
Isto não é dito numa de "a minha é melhor que a da vizinha", mas a extinção da FMD é de uma brutalidade inconsciente. É uma região que se vê, MAIS UMA VEZ, oprimida e abandonada. É retirar uma das poucas esperanças a este interior em que ninguém tem interesse, excepto os estrangeiros e, diga-se a verdade, alguns portugueses também... São eles que chegam cá e se espantam com o que há para fazer numa região que é um tesouro vivo e que vai morrendo por os apoios não chegarem e não se fazer nada que seja verdadeiramente no sentido de o engrandecer e promover...
E os cantares das vindimas este ano soam mais tristes do que nunca.
Os 30% que foram retirados a outras fundações chegariam para nos manter a nós durante ANOS.
É uma atrocidade. Quando achamos que já não nos podem tirar mais nada, que já não nos podem diminuir mais um bocadinho,eles surpreendem-nos...
Claro que há esperança... claro que as autarquias irão fazer tudo o que for possível para fazer compreender o equívoco que se quer cometer... mas o simples facto de se propor uma coisa destas é escandaloso...
Acabam com a nossa vontade. Depois de acabarem com os nossos sonhos de uma vida melhor no dia de amanhã, depois de nos convencerem que vamos sobreviver em vez de viver, depois de nos humilharem até ao limite, acabam com a pouca esperança que tínhamos e orgulho de que, ao ficar, ao perseverar, estaríamos a ser heróicos por não desistirmos do que é nosso... Acabam com tudo. O que mais restará para nos tirarem no fim disto?

22/09/2012

É oficial: sou paranóica... daquelas mesmo loucas... tipo doentias...


Lembram-se da história do verme?

A partir daí, tudo fino... Até que hoje, ao chegar ao carro, tenho um pedaço de um talão do Continente (sem data nem informação de como o pagamento foi feito. Só a parte superior, incluindo o descritivo dos artigos) pendurado na porta, escrito na parte de trás, com um vernáculo um tudo-nada lisonjeiro...

Ponho a minha cara de má, olho para todos os lados, os lábios contraídos num trejeito de repugnância e vou à minha vida... Levo o bilhete comigo e o meu dia resume-me a:

  • analisar os dizeres com cuidado: letra de mulher. ("o porco tem uma cúmplice", pensei eu)
  • analisar descritivo dos artigos: uns IceTeas, água... tudo inofensivo... E um pacote de Aptamil1. Dei-me ao trabalho de ir à net ver o que era: leite para bebé até aos 6 meses
  • mando sms a um colega do trabalho que tem um bebé e que conhece a história do verme, caso se tenha lembrado de fazer uma brincadeira... só para excluir a hipótese... Excluída.
  • TELEFONO para o Continente e peço à menina que me atendeu que peça ao responsável financeiro para verificar se, com o nr do talão fornecido por mim, me poderiam dizer de quando era o dito e, melhor ainda, se tinha sido pago com cartão e qual o nome do titular
  • telefono mais tarde para saber a resposta da menina simpática: negativa. Mas, dizia ela, caso a situação se agrave, convém ter o talão para apresentar à GNR
  • volto a analisar o talão minuciosamente e chego à conclusão que pode perfeitamente ter sido encontrado pela pessoa que escreveu e, logo, ser irrelevante
  • vou para o ginásio mais cedo, para libertar o stress
  • dou uma volta maior com o carro, no regresso, para não o deixar estacionado no mesmo sítio mas à beira da estrada, num sítio mais exposto
  • passo o dia a imaginar que onde quer que vá há alguém a observar-me, que enquanto eu estou em casa me estão a espreitar à janela e (curiosamente, ao mesmo tempo) a vandalizar-me o carro
A esta hora, sim, é perto da meia-noite, a marota da mulher do colega a quem perguntei (aquele da hipótese excluída) vem desbroncar-se via facebook...
Feito o relato do meu dia passado a fazer de Horatio Caine alternado com maluquinha com a mania da perseguição, acho que a deixei chocada...
Nos próximos tempos ninguém vai querer brincar comigo.... =(

14/09/2012

Transparente


A transparência é uma qualidade de beleza unilateral. É bonita para quem a vê. E é um problema espinhoso para quem a carrega...

E é uma meretriz, também... porque se bamboleia diante dos que querem olhar, sem dar nunca a garantia de que a sua dança vistosa seja a sua verdadeira essência...

(imagem retirado do filme Atonement)

13/09/2012

Grand Slam

Já foi há 3 dias, mas acho que devo na mesma deixar aqui o registo, afinal, não é todos os anos que temos este resultado... como classificar? ...estou dividida entre "giro" e "desconcertante"...
Pois temos, no início do ano, os 4 melhores do ranking ATP: Novak Djokovic, Rafael Nadal, Roger Federer e Andy Murray... E, quem diria que cada um deles ia levar para casa um torneio de Grand Slam, na ordem precisa da classificação...??
O "Djoker", levou o Australian Open.
O Rafa, El Toro, como não podia deixar de ser, fez todos comerem pó em Roland Garros.
O Federer teve um muito merecido regresso às vitórias em Grand Slam no torneio de Wimbledon.
E, surpresa das surpresas, Andy Murray quebrou a maldição e ganhou o seu primeiro Grand Slam no US Open.

The Golden Age of Tennis is on, people! =)

09/09/2012

Off to America...


Ontem vocês podem ter tido "mais uma noite de Sábado". Para mim, e sem querer soar muito dramática, foi a noite em que senti que enterrei a minha adolescência... Sim, já estou a meio caminho na casa dos vinte. Mas sim, tenho o síndrome do Peter Pan. E sim, tenho os meus ataques de ansiedade e agorafobias... Por tudo isto, vivi até ontem na ilusão de que a vida não é mais do que um prolongamento da nossa adolescência, aquela idade manhosa em que nos vamos apercebendo que o mundo não é cor-de-rosa, nem gira à nossa volta, mas ainda temos desculpa para fazer de conta que não nos apercebemos do facto...
Mas agora um do melhores amigos que alguma vez tive vai trabalhar para os States, uma amiga que tenho e conheço desde que tenho memória de ser quem sou vai para a Alemanha... juntam-se a tantos outros que, para mais ou menos longe, já foram. E os poucos que ficam só falam em desejos de fuga também.
Houve uma festa... uma festa de despedida, de "até já", onde recuei anos e me vi num ambiente já quase esquecido. Brindámos, sorridentes, mas tenho a certeza que não fui a única a sentir uma nuvenzinha pairar sobre o momento. Como se um capítulo se estivesse a encerrar... É certo que já não era um hábito reunirmo-nos naquele sítio, com todas aquelas pessoas... Mas era uma prática que estava em stand-by, havia a possibilidade, bastava querermos. Agora, não. Agora é um "até já" a tudo isso.
Cravei um cigarro ao meu amigo e vi evolar-se com o seu fumo a minha adolescência... O céu choveu, mas não chorou. Foi uma chuva abençoadora, e os trovões que se ouviam ao longe pareciam ser um desafio, um chamamento.
Depois separámo-nos e o dia de hoje amanheceu cinzentão e lúgubre, a condizer com a minha disposição...

"A Chave para Rebecca", de Ken Follett


Agarrei no livro, lá na biblioteca municipal, porque queria uma leitura absorvente e frenética. E assim foi. Li-o em menos de 48 horas. 396 páginas. Era o que eu queria... Mesmo sendo um bom livro, deu-me o dobro da satisfação o simples facto de ser precisamente o que eu estava à espera e precisava.
Durante a Segunda Guerra Mundial, no Cairo, há uma profunda rede de espionagem em que os ocupantes do Exército Inglês procuram defender a sua posição dominante contra os invasores alemães.
A história é contada a um ritmo duplo em que, ora acompanhamos as artimanhas de um sedutor e galante espião alemão, Alex Wolff, ora assistimos aos passos do major William Vandam, que o tenta capturar. Uma das coisas que mais me encantou no livro foi precisamente o facto de ele estar dividido entre dois protagonistas rivais. Não existe um "bom" e um "mau". Eles são dois heróis que se perseguem e se tentam anular e eu vi-me seriamente indecisa quanto a tomar partido por algum deles.
A história é narrada no habitual tom ligeiro de Follett, com uma linguagem muito directa, como se estivéssemos a ouvi-la de um amigo e, volta e meia, lá vem um episódio um tudo nada mais lascivo, só para apimentar a coisa...
É um livro que entretém, sobretudo. Um livro que não se serve de mistérios do tipo "quem será o espião?, quem será que matou?". Está tudo às claras. O livro e o suspense valem por si próprios, não por nos apimentarem a curiosidade e deixarem na dúvida até à última página. Só um grande contador de histórias é capaz de fazer isso.
...para me deixar triste, só um bocadinho triste, o final, que eu esperava grandioso, com um dos nossos heróis a vencer, inevitavelmente, e o outro a sair derrotado, deixando-nos com uma sensação agridoce...foi, afinal, um final bastante convencional, em que o charme e encanto de um deles se vai deturpando em meia dúzia de cenas reveladoras, destruindo completamente toda a admiração que tínhamos criado... E um livro que foi sempre grandioso, empolgante e magnificamente contado, no sentido de nos fazer ansiar por uma vitória e um final feliz para dois lados antagonistas, torna-se um livro "normal", com um lado "bom" e um lado "mau"... mas não vou dizer qual é que vence... =)
Fora este pequeno pormenor, adorei o livro... espero encontrar mais livros assim, quando preciso deles...