21/10/2012

A Manta


Todos temos uma manta. Aquela da infância era fofinha, felpuda, tinha o nosso cheiro e nós usámo-la até os cantos começarem a desfazer-se e as cores serem irreconhecíveis.
A manta protege-nos do frio. E dos papões. Basta puxá-la até nos cobrir a cabeça, segurá-la com força, prender o fundo com os pés, entalar os lados debaixo do corpo. Estamos hermeticamente protegidos e dormimos sossegados.
E é horrível o dia em que nos vêm dizer, ou descobrimos por nós próprios, que a manta... é só uma manta. E que, se o frio aumentar, nós vamos congelar, apesar dela. E que, se os papões vierem mesmo, muito facilmente eles nos arrancam da nossa protecção fingida.
O que será de nós, quando isso acontecer?
E, enquanto não acontece, como poderemos continuar a apreciar a nossa manta e a dormir descansados com ela?

14/10/2012

Apontamentos...

Às vezes penso que sou solitária porque não acredito que alguém possa gostar de mim sempre.
A maior parte das vezes penso que sou solitária porque sou incapaz de gostar dos outros sempre.

O futuro é mais fácil de encarar se estiver longe, tipo "ah e tal, daqui a um ano ou dois, coiso..."
O futuro é assustador se tivermos que o colocar a curto prazo, tipo "daqui a uma semana aquilo que hoje é o meu futuro incógnito vai estar a acontecer".
O futuro assim colocado assume o papel de mãe que nos apanha em flagrante a comer Cola Cao às colheradas.

Naquele limiar do sono, em que ainda nos apercebemos dos sons e luz à nossa volta mas já não os conseguimos "processar" ou reagir, imaginei/sonhei que morria, que via uma cova... Eu, morta, via uma cova. E só pensava "vai estar escuro ali dentro e vou estar lá muito tempo... se ao menos tivesse alguma coisa para fazer, para não me aborrecer"... Vagamente pensava que a minha mãe devia estar muito triste mas a minha principal preocupação era aborrecer-me pelos séculos dos séculos... nem ao menos um livrinho...!
Arrepiei-me quando me lembrei deste "sonho".

11/10/2012

"O Ditador"


Vi hoje...
...sim, já sei que venho tarde, mas também nunca ninguém me ouviu dizer que vejo os filmes todos logo que saem, ainda quentes...

A minha apreciação?
Ficaram a doer-me os maxilares e até fiquei com dor de barriga e costas... de tanto me rir, entenda-se...

09/10/2012

Ping'Amor Por Aí


Pois hoje Pingou Amor aqui para os meus lados... Não fui eu quem encontrou o Pingo, mas a pessoa que encontrou encarregou-me a mim de lhe dar seguimento, porque não é muito dada a essas coisas... De qualquer forma, cumpriu a sua missão de deixar um sorriso nos lábios de toda a gente que o viu!

Em dias cinzentos como os que temos tido, em que me é difícil respirar por tantos motivos, em que me comovo com tudo, em que me assusto por nada... foi apaziguador...

06/10/2012

Apetecia-me mesmo.... #12


...que chovesse desalmadamente.
Uma chuva torrencial, constante, daquela que torna baças as luzes, que faz parar os carros e deixa as ruas desertas. Daquela que faz do alcatrão uma superfície negra com reflexos de espelhos.
Que caísse primeiro num sussurro e que fosse crescendo, crescendo, até se transformar num rugido. E que a terra, aliviada da seca, soltasse um longo ahhhhhhhhh..., audível só àqueles que, como eu, soubessem apreciar a chuva.
E que houvesse relâmpagos luminosos e, 4 segundos depois, a trovoada... uma trovoada que fizesse vibrar paredes e calasse o chinfrim dos pássaros que gritam lá fora, nas árvores. Uma trovoada daquela que faz toda a gente encolher-se e que me leva, a mim, para a janela...
Trovoada daquela que faz a minha avó dizer:

Santa Bárbara se levantou,
Seus sapatinhos calçou,
Ao caminho se botou
E encontrou um menino que lhe perguntou:
Onde vais, Bárbara?
"Vou espalhar a trovoada,
Lá para a Serra do Marão,
Que não dá palha nem grão,
E onde não há meninos a chorar,
Nem viúvas a rezar..."

Não me lembro do fim... nem sequer sei se as palavras são mesmo estas... Tenho que pedir à minha avó que mas dite...

03/10/2012

"Os Retornados - Um amor nunca se esquece", de Júlio Magalhães


O Juca esteve na semana passada na feira do livro cá da terrinha... Fui-me plantar lá para assistir à apresentação do "Não nos Roubarão a Esperança", com o objectivo de lhe ir pedir um autógrafo para uma colega que o adora e que não podia estar presente, já que a mim os seus livros nunca me despertaram interesse..
Fui... e gostei! Gostei de o ouvir, da simplicidade, do cómico despretensioso... de admitir simplesmente que foi convidado a escrever o seu primeiro livro porque, disseram-lhe, o que quer que as caras conhecidas da TV escrevam, as pessoas compram! Por isso, ele escolheu um tema que lhe era querido, que viveu, e sobre o qual muito pouco há escrito. Gostei de o ouvir gracejar acerca do facto de a editora o ter aconselhado a acrescentar ao simples título "Os Retornados", que ele tinha escolhido, a parte do "Um amor nunca se esquece", porque são as mulheres que compram livros e as mulheres gostam destes títulos assim... Gostei tanto de o ouvir  que, no final, fui a correr comprar o livro "Os Retornados" e lá fui pedir dois autógrafos: um para mim, que confessei humildemente ainda não ter lido nenhum livro dele, e outro para a colega Lu.
Escolhi este livro, entre todos os que ele escreveu e que resumiu durante o seu discurso, porque é o primeiro, porque trata o tema doloroso e recente da Ponte Aérea feita em 1975 entre Portugal e Angola e porque me quis parecer que foi o livro do qual ele falou com mais carinho.
E não senti as minhas expectativas defraudadas... Ele garantiu que os seus livros não eram literatura. Ele é um jornalista que escreve, logo, as suas histórias são contadas de forma muito simples, os acontecimentos vão-se sucedendo e o intimismo com que são revelados é delicioso e absorvente.
A história é comovente de todas as formas: pelo período conturbado que retrata, pelas personagens cativantes que são inspiradas em pessoas reais, pelos pormenores lindos que são revelados acerca daquela pérola do Império Português que foi brutalizada e destruída, por mostrar a verdadeira história dos "retornados", que nós, no continente, sempre desprezámos.
A Joana e o Carlos Jorge existem. Há milhares deles por aí... Cada um com a sua própria história e a sua adaptação dos ovos com açúcar... mas são tão reais. Tão lógicos. É um livro maravilhoso. Muito doce! Que se lê a correr, porque praticamente não o lemos: ouvimo-lo, numa voz interior que, comovida, faz uma partilha... Aconselho! Muito!

02/10/2012

Amazing moments in life

Às vezes penso que há algo de errado comigo...
Não penso que sou única, mas penso que sou parte da minoria, sou parte do grupo de poucas pessoas que não querem (ou não sabem) VIVER com os outros.
O meu convívio com os outros faz-se em minutos bem precisos e contados, em certos locais e contextos e um deslize para fora desses limites deixa-me, às vezes, desconfortável, outras vezes, em pânico.
Às vezes penso que me falta algum químico no sistema, alguma ligação no circuito, que me faz tão singular. Tão incapaz de ser NÓS num par ou no meio de um grupo; ser sempre Eu e os Outros.
Como se fossem extraterrestres, todos. Ou eu... como se fosse eu a extraterrestre e não me possa desconcentrar em momento nenhum, dar nenhuma resposta errada, fazer nenhum gesto estranho, destacar, sob pena de ser descoberta, exposta, devassada...
Há dias em que penso que há algo de errado comigo mais insistentemente do que noutros... Hoje é um dos dias mais...
E eis que, já a preparar-me para me recolher (uma das minhas horas favoritas do dia!), a internet me atira com esta: 

(imagem retirada daqui)

...e dei-me conta que, nesta lista, só 4 pontos estão directamente dependentes de outros..
E comovi-me. Comovi-me até às lágrimas, por ridículo que possa parecer... porque, afinal, a monotonia inóspita que é a minha vida deve-se, afinal, ao facto de eu saber aproveitar maravilhosamente os meus momentos sem ninguém. Isso preenche-me. Isso faz com que eu não sinta (quase nunca) falta de gente à minha volta..

E, quando sinto, normalmente sento-me e espero que passe...