04/05/2017

O apelo da mediocridade

Todos já o ouvimos. É o canto da sereia que nos conduz à perdição, sabemo-lo, mas é tão encantador que fazemos de conta que nunca nos contaram as histórias e os avisos; um canto tão belo e sedutor só pode vir de algo bom e trazer em si a felicidade que esperamos e merecemos.
E depois o encantamento quebra-se, vivemos frustrados, tristes, enganados. Esta não é a vida para a qual nos inscrevemos, houve ali algures uma quebra de contrato. Faz parte da ética do acordo não desistir à primeira contrariedade e é por isso que insistimos, fazemos das tripas coração, ignoramos a azia danada e a revolta que nos morde, e perdoamos, damos a outra face, admitimos que talvez também tenhamos a nossa parte na culpa. Em menos de nada voltamos a dar com a cara no muro frio que é a desilusão. E é nesse momento que o canto da sereia é mais insistente, violento e humilhante, porque nos berra que temos o que merecemos; que é melhor aquilo do que coisa nenhuma; que toda a gente tem problemas e outros também vivem em fingimento: vivem num lar frio mas são vistos em esplanadas com o namorado, passam dias sem um gesto de amor mas passam férias em sítios luxuosos, invejam a simplicidade da vida de toda a gente mas sabem que os outros invejam a fachada que representam.
E eu sei que vocês estão neste momento a pensar num punhado de pessoas próximas que cederam ao canto das sereias, cederam ao canto do "isto é o melhor que consigo arranjar". Mas essas pessoas precisam de cantar, a partir de dentro, "isso não me chega, isso está abaixo de mim, sou melhor do que isso". Às vezes as pessoas não sabem que têm essa voz lá dentro, é preciso alguém ajudá-las a ouvir.

8 comentários:

  1. Todos temos os nossos cantos de sereia, as campainhas de alerta e o livre arbítrio de seguir caminho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Temos tudo isso, mz. Mas isso vale nada quando não temos o mais importante: o amor-próprio e a coragem.

      Eliminar
  2. A realidade sem tirar nem pôr! É difícil desistir de um amor, mas temos de pensar mais em nós e deixarmos de acreditar que "é melhor do que nada". Merecemos mais do que um amor pela metade!
    Foi tão bom ler este texto!
    Beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pelas palavras, Rita! Um beijinho

      Eliminar
  3. Sou um bocado exigente comigo e com os outros.
    E estou longe de me contentar com pouco.
    Qualidade?
    Defeito?
    Boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Qualidade, sem dúvida, Pedro. Qualidade que pode afrontar alguns, mas que é mil vezes melhor do que o defeito de arrastar uma tristeza e uma frustração docilmente a vida toda.
      Oxalá mais pessoas fossem assim! Boa semana!

      Eliminar
  4. Merecemos ser o que queremos. O parecer tem curta duração, ninguém consegue aparentar durante uma vida. Um dia o pano cai.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cai o pano e é como se toda a vida se desmoronasse... vale mais acabar com o engano cedo...

      Eliminar