09/11/2012

Inimigos, são como flores

...cultivam-se. Com carinho e dedicação...
Ai, ter inimigos! Dá mais trabalho do que manter os amigos. Os amigos são gente boa, gente que está lá, apesar da distância ou do desinteresse. A amizade subsiste, durante anos, toda uma vida. E vive sempre que um dos amigos se lembra de uma história ou faz um telefonema só para perguntar "como vão as coisas" e "o que contas"... A inimizade é mais frágil. Ela tem que ser acalentada regularmente, caso contrário, murcha e morre. É logo substituída pelo ligeiro desdém ou a simples indiferença... Não. A inimizade precisa de cuidados constantes para não se desvirtuar nem esquecer motivos, injúrias, insultos despropositados, faltas de consideração ou mesquinhices obtusas. É uma troca constante, incessante e persistente de farpas, estocadas e coices. Silenciosa (entre sujeitos discretos e polidos) ou ruidosa (quando entre pessoas de temperamento mais aceso), a inimizade é, apesar de não parecer, uma relação frágil.
Ter inimigos é uma questão de higiene pessoal, li eu não sei onde... Nunca ouviremos verdades tão sinceras como da boca de um inimigo. Nem nunca nos sentiremos tão livres como quando estamos na sua presença. 
 
Atenção... Desengane-se quem já pensa por esta hora que andei a cultivar inimigos nos últimos dias. Nada disso, nada disso! Não tenho perfil, estofo ou vontade para isso... Mas há aquelas pequenices tão ridículas que nem merecem ser mencionadas que me fazem pensar, às vezes: "se algum dia a Anarquia tomar conta dos nossos destinos ou a Lei Marcial reinar sobre a Terra, tu, malando/a, és bem capaz de me vir infernizar... e, se não vieres, eu própria me encarregarei de te perseguir e aniquilar."

05/11/2012

A Fábrica de Letras

A Fábrica tem paredes feitas de papel. Papel pautado, papel liso, papel quadriculado, amarrotado, imaculado, de todas as cores, com cheiros distintos, onde se misturam caligrafias diferentes.
A Fábrica tem uma chaminé muito alta que fumega especialmente nos primeiros dias de cada mês, quando cozinha um novo desafio. Os bloggers que têm janelas viradas para a Fábrica apercebem-se do bulício e atiram-se cheios de garra ao novo tema... Tantas ideias, tantas palavras se cruzam e chocam... e os caminhos para a Fábrica ganham vida e, aos poucos mas certamente, lá vão chegando participações, contribuições, partilhas, dádivas. E as paredes da Fábrica ganham uma nova cor e são ricas, muito ricas!
Eu sou uma operária. Vim aqui parar por intermédio da Fabi. Observei os operários mais antigos, aprendi e, depois de ganhar confiança, comecei a contribuir com as minhas palavras...
A Fábrica não está sujeita a greves, nem a ataques de sindicatos. A Fábrica é liberal. É uma entidade patronal simpática, muito lá à frente.
É uma Fábrica de Letras e Palavras, onde se fabricam também elos de ligação entre bloggers desconhecidos que, por um momento, se detêm numa mesma palavra ou tema e se atrevem a deixar a sua alma, os seus olhos e o seu coração abertos para quem os quiser ler, nas paredes da Fábrica.
A Fábrica é linda!
 
 
Como é mais do que evidente, este texto é feito para a Fábrica de Letras, cujo tema para o mês de Novembro é ela própria, a Fábrica.
 

My Super Special Power


Às vezes, por um momento, um momento muito fugaz, que não dura mais que uns minutos, eu sinto o meu Poder. Sem me esmagar, nem me tirar o ar ou dar vertigens. Eu ostento-o, em vez de o carregar.
Por um momento eu sou capaz de sentir o meu Poder, como uma vibração no ar à minha volta, um peso e cor especial nos objectos que toco, um brilho novo devolvido pelo espelho.
O poder não vem de mim. Eu sou igual. O poder vem da admiração, adoração até, que outros me oferecem. Normalmente, nego-o. Irrita-me a pele e os sentidos.
Mas às vezes, só durante uns minutos, eu sou capaz de o acolher e de me sentir protagonista na minha própria história, em vez da personagem secundária que prepara a entrada das personagens principais.
Não sei de onde vem, o que o despoleta... Se é algo no ar que respiro, se a música que ouço, se algum especial alinhamento de todos os chakras nos quais não acredito...
"É uma receita para o desastre", diz a figurazinha que tem as minhas feições mais angelicais e veste de branco, cabelos de ouro encaracolado e uma aureolazinha flutuante sobre a cabeça...
"É um intervalo na tua vidinha de rotinas e carpe diems da treta", sussurra uma outra, a mesma cara, feições mais  decididas, vestida de cores chamejantes e uma dança ululante.
Se eu aprender a convocar o meu Poder, se aprender a controlá-lo, sem temer que ele me controle a mim... Tremam!

31/10/2012

Pessoas, Livros

(a imagem foi-me enviada por um amigo que sabe o quanto gosto de ler. Não sei onde a foi buscar...)
 
As pessoas são muito como os livros.
Escolhe criteriosamente aqueles que te rodeiam, porque sabes bem que existem no mundo mais do que aqueles que poderás ler em duas vidas, quanto mais numa. Por isso, não há tempo a perder com livros vazios.
Não sejas mesquinha ao ponto de pensar que só os livros que te interessam merecem existir. O livro certo para ti pode ser lixo para um milhão de outros, assim como o livro que mais desprezas pode ser exactamente a praia de outros tantos.
Avalia bem a capa. Ela costuma ser sugestiva. Mas não te surpreendas se o conteúdo não for exactamente a condizer. É inevitável a sensação de que foste enganada se o conteúdo for mais pobre, mas é maravilhosa a sensação de descobrir que uma capa que não vale nada esconde um conteúdo riquíssimo. Hás-de passar pelos dois sabores.
Há um livro certo para cada momento. E o facto de este te parecer intolerável agora, porque não vai bem com a tua disposição, não significa que amanhã, ou depois, não seja o livro perfeito para ti, aquele que mais precisas para te confortar.
Os livros são muito como as pessoas. Podem até ser sempre os mesmos, mas os teus olhos e a tua consciência irão fazer-te olhar para eles de forma diferente de cada vez...
Como as pessoas, podes tê-los à cabeceira, à mão, para todos os momentos. Ou podes pô-los numa estante, entre os outros, sujeito ao pó, até que o teu capricho guie a tua mão até ele e o retire do anonimato outra vez. O livro estará lá, as suas palavras serão as mesmas.
Serão? Há sempre a possibilidade de as encontrares comidas pelas traças, borradas por alguma humidade ou meio apagadas pelo pó e pelo tempo. Mas o livro está lá e basta uma ação tua para o abrir.
Os livros e as pessoas existem, independentemente de ti. Mas existem de uma maneira diferente quando te ligas a eles.

30/10/2012

Prémio Dardos

A Poppy teve a generosidade de me oferecer um selinho, em reconhecimento e apreço pelas altas intelectualidades que eu aqui vou postando... Cofff, cofff... (isto é um tossicar afectado, caso não tenham percebido...)


Ora, o Prémio Dardos foi criado pelo escritor espanhol Alberto Zambade que, em 2008, concedeu no seu blog, Leyendas e el pequeno Dardo, os primeiros Dardos, destinados a quinze blogues, que deveriam indicar outros blogues igualmente merecedores e por aí fora. Assim o prémio se espalhou pela internet, e destina-se a reconhecer os valores e empenho demonstrados por cada escritor de blogue. 
As regras do Prémio Dardos são:
1 - Exibir o selo;
2 - Linkar quem o premiou;
3 - Escolher outros blogues para indicar o prémio;
4 - Avisar os escolhidos.

Portantosss.... O selinho cá está. O link para a mui generosa Poppy também. Os blogues a quem eu reconheço valor e, por isso, acho merecedores de o ostentarem (mesmo sabendo que alguns não irão partilhar...) são (por ordem alfabética):

1 - A minha travessa do Ferreira, embora, por motivos incontornáveis, o caro Ferreira ande um pouco por fora destas blogosferas;
2 - À esquina da tecla, onde há sempre um passeio, uma fotografia, um pensamento ou um silêncio inspiradores;
3 - Blog do Otário, por tantas e tantas Otarices incansavelmente partilhadas;
4 - Crónicas do Rochedo, lugar de tantas crónicas, algumas passadas, outras actuais, algumas doces, outras mais amargas, mas sempre boas de se ler;
5 - El Matador, cujas histórias (ou estórias) e heresias muito me entretêm;
6 - Just a Woman, que, não fosse já o conteúdo do blog do mais rico e são, o selo seria merecido só pela autora que, com tanta assertividade e generosidade sempre me vem comentando. Obrigada!
7 - Love at Sight, que proporciona sempre visitas agradáveis aos olhos, aos ouvidos e à mente;
8 - Lágrimas em Ré Maior, que é escrito pela Fabi, uma menina muito "real", muito "normal", muito "como eu";
9 - Mundo Catso, pelas gargalhadas e bom humor que sempre provoca, mesmo sobre os assuntos mais corrosivos. Porque rir é mesmo o melhor remédio;
10 - Os meus óculos do mundo, porque vale bem a pena dar uma espreitadela através dos óculos simpáticos e sensíveis da Teresa;
11 - Utopia Realista; porque ser Utópico não faz mal a ninguém; ainda por cima, estas são Utopias Bem  Realistas;
12 - Val'nada, Johnny, tenho imensas saudades dos teus escritos! Enquanto não regressas às postagens regulares, vou de vez em quando dar uma vista de olhos às passadas. Vale sempre a pena!

São, no geral, os blogues onde perco a maior parte do meu tempo porque,por um ou outro motivo, me encantaram. Espero que, mesmo que não partilhem o selinho (já ouço alguns meninos ao fundo a dizer "só paneleirices..."), sintam com isto que os valorizo milhões. Obrigada por escreverem!

27/10/2012

Scar Tissue, de Anthony Kiedis


Man... Isto foi muito bom.
Se a minha apreciação geral foi influenciada por eu ser doida por este homem? Siiiim...
Se compreendo as críticas que li que diziam que aquilo é repetitivo e sem grande estrutura, apenas uma sucessão de "then this happened, then this happened, but this had happened in the meantime and then this happened"...? Compreendo perfeitamente, embora não o tenha sentido assim.
Se a minha opinião seria a mesma caso eu não fosse doida pelas músicas dos Red Hot? Provavelmente não.
O que gostei mais? De perceber o processo criativo que está por trás de alguns dos grandes álbuns desta banda genial e a inspiração para algumas músicas. As letras escritas pelo Anthony têm muitas metáforas e muitas referências sublimes ao mundo das drogas, ao amor e ao sexo, aos amigos: elementos que estiveram sempre muito presentes na sua vida, que lhe deram momentos de euforia e bem-estar mas também muitos momentos miseráveis e degradantes.
Para quem gosta dos Red Hot, para quem quer perceber um pouquinho melhor de onde toda esta exuberância veio, do que significam verdadeiramente algumas das melhores músicas que eles produziram, para quem quer conhecer um exemplo daquilo que uma pessoa não deve fazer/ser, ao ponto de criar uma relação amor-ódio com este ídolo hedonista e caprichoso, imaturo e imprudente, bondoso, humilde e despretensioso... que conheceu e cantou com os Nirvana e os Pearl Jam, que teve uma paixão desenfreada por todo o tipo de mulheres e deixa uma bênção e um obrigado a todas elas, independentemente do que causou a sua separação, que conversou e apertou a mão do Dalai Lama, que partiu as costas por saltar de uma varanda para uma piscina e acabar por cair no lado de fora, que ficou com a mão direita desfeita por um acidente de mota, que viu alguns dos seus melhores amigos morrerem jovens e estupidamente... Este é um ídolo verdadeiro. Um que é igual a nós, ou mais miserável ainda mas que, apesar disso, teve a força e a perseverança de emergir e buscar conforto fazendo-se ele próprio conforto para aqueles que passaram pelo mesmo ou, simplesmente, para os que o ouvem, através de milhões de CDs vendidos. Um herói tão verdadeiro que admite não se arrepender do caminho que calcorreou, da experiência de vida e histórias incríveis (improváveis, até) que, com toda a humildade nos conta, num tom muito simples e ligeiro.
Em suma, e porque o post já vai longo, é GRANDE livro.

nota: li a versão em inglês, porque nem sei se existe traduzido para português...

23/10/2012

Ontem ouvi...



"És um amor.
Estão a bater-te e tu pensas que é a brincar..."
vindo de uma voz leve, séria e acariciadora.

Hesitei.
Depois ri.
Depois, mais tarde, pensei no assunto.
Fiquei incomodada. ISTO É UM ABR'OLHOS!

Hoje voltei a pensar no assunto.
Olhei bem nos olhos da pessoa que me falou assim.
...e decidi reconciliar-me comigo.
Não é ideal. Mas é o que se arranja.